finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Sexta-feira, Julho 25, 2008

 




Cinco ou seis lições sobre arquitectura: o pêssego.


O primeiro árabe que viu um pêssego se chamava Samir e criou um entendimento que justificasse a existência desta fruta do sol. Dizia ele que Allah havia criado o pêssego para a educação do nosso espírito e alegria dos sentidos. Segundo Samir, o encantador, o pêssego tem três qualidades e um mistério, e completava dizendo que no mistério está a essência das coisas. Das qualidades falava que o pêssego possui uma pele que inaugurou uma nova percepção sobre a geografia, obrigando os homens a caminhar com mais delicadeza na superfície do deserto; que o aroma concorre para aumentar a compreensão da astronomia dotando cada estrela de um perfume particular, e que o sabor desta fruta equilibra as nossas virtudes e vícios, abrindo-nos os olhos para os crimes cometidos na vastidão silenciosa do império. Samir era muito reservado, e pouco falou sobre o mistério do pêssego. O que disse, foi alguma coisa sobre a arquitectura fechada da semente, algo como: “ Dizem que Allah, ao criar o pêssego, encerrou na escuridão do caroço um poeta cego que não podendo ver a escuridão em que estava encerrado, criou, pelo uso da imaginação, todo o mundo de fora”. Nunca cheguei a ter um entendimento preciso sobre esta história, mas como ela me toca profundamente!


Escrito por OSCAR MOURAVE às 23:09 Comentários:

Segunda-feira, Julho 07, 2008

 


Cinco ou seis lições sobre arquitectura: o cavalo em três tempos e um epílogo.



I


Meu poema salta por cima
do cavalo e apascenta um campo
minado de estrelas
na segunda noite de insónia
vigiado pelo tempo

esse carcereiro cruel.

II

O cavalo permanece imóvel
como uma estátua de ónix em seu
respirar mineral
o cavalo é uma pedra primordial
de arquitectura espessa como a noite

ovo do qual surge o universo.


III

O cavalo sonha na sua imobilidade
os dias de sol intenso na grande ágora
e leva o ventre povoado de homens
prestes a despertarem do seu sono mais antigo

o cavalo gera homens na praça do mundo.


IV (epílogo)

O cavalo ignora o meu poema
e – com os seus olhos de sal –
não vê o campo de estrelas e nem os filhos
que a noite gerou na obscuridade do seu ventre

o cavalo desperta em meio à destruição /

numa cidade ocupada.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:31 Comentários:

Sexta-feira, Julho 04, 2008

 



Cinco ou seis lições sobre arquitectura: diálogo com Susan



Susan,

certa vez, um poeta do meu país descreveu a arquitectura da mesquita de Fez como sendo de face interna, disse ele que o “de dentro fundava o de fora” e ainda nos fazia esquecer, que o de fora, era bazar. Em outras palavras, apresentava-me uma espécie de arquitectura do entendimento consigo próprio – um compromisso do espírito que não se deixa perturbar pela aparência externa do mundo, esse bazar fabuloso onde contamos a nossa história mais íntima em praça pública. Eu queria ser como este poeta, mas não, eu não esqueço que o de fora é bazar.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:56 Comentários:

Quarta-feira, Julho 02, 2008

 


Cinco ou seis lições sobre arquitectura


Étienne-Louis Boullée: architecture parlante



Andava contigo ao meu lado
e o sol era somente uma decisão revogável
ele estava lá

para além das nuvens
ao alcance do arco da nossa
imaginação

Tu me dizias qualquer coisa sobre
a ideia que Newton fazia das esferas
e ilustrava

com um desenho no ar
o movimento perpétuo que punha
a terra a girar

e pensavas em qualquer
coisa que fosse um monumento à luz
e falavas tanto

mas Lisboa não podia esperar
e corremos em direcção ao metro
para não atrasar

o nosso destino.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 00:00 Comentários:

 

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