finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Sábado, Junho 28, 2008

 


Lisboa, 9ª Marcha do Orgulho LGBT, 28 de Junho de 2008


Porquê vamos à Marcha?




Porque o SOS Racismo é uma organização que acredita que o mundo justo é aquele que promove a igualdade de oportunidades para todos e todas, ao mesmo tempo que assegura todas as expressões da diversidade individual e colectiva, e isso inclui, obviamente, o direito à liberdade das orientações sexuais e afectivas.


Porque o SOS Racismo acredita que o combate à discriminação se faz no plural, e que toda a luta pela promoção da igualdade é, e deve ser, a luta de todas as organizações que participam do Movimento Social Português.


Porque o SOS Racismo acredita que a marcha é antes de tudo um compromisso com a democracia, um exercício de cidadania em respeito à dignidade humana, além de uma posição inequívoca em relação às discriminações que minorizam e marginalizam grupos.


Porque o SOS Racismo entende que há muitas formas, e cada vez mais perversas, de humilhação, de criação de estereótipos, de marginalização e segregação de homens e mulheres por causa de suas origens étnicas, orientação sexual, religião e cultura. E na Europa Fortaleza de hoje, redefine-se de forma institucionalizada em Bruxelas, a criminalização da imigração. Estamos aqui por uma Europa de liberdade sexual, de liberdade de circulação para todos e todas, por uma Europa sem cidadãos de segunda categoria!


Porque nós, no SOS Racismo, somos todos e todas homens e mulheres, gays, lésbicas, transgéneros, bissexuais, heterossexuais, negros e negras, ciganos e ciganas, nativos e imigrantes, velhos e novos, e acreditamos que sim, que um outro mundo é possível quando se tem no horizonte a possibilidade da igualdade.


SOS Racismo



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:35 Comentários:

Sexta-feira, Junho 27, 2008

 



O direito à mudança


Amanhã em Lisboa decorre a 9ª Marcha do Orgulho LGBT, com a concentração a partir das 16h00 no Príncipe Real. Qualquer pessoa com juízo e responsabilidade cívica, que acredita no direito à igualdade de oportunidades fundamentada no respeito à expressão da diversidade, deveria ir. É antes de tudo um compromisso com a democracia, um exercício de cidadania e um respeito à dignidade humana, além de um posição inequívoca em relação às discriminações que minorizam e marginalizam grupos. Mas estas palavras que acabo de escrever parecem não sensibilizar a maioria das pessoas que preferirão ficar em casa ou ir à praia. A elas esta questão não lhes toca porque se sentem seguras no escudo preconceituoso que usam para proteger as suas ideias equivocadas sobre cidadania, democracia e sexualidade. Para elas o mundo perfeito é assim, como está, sem mudar. Possuem um pavor desmedido por tudo que possa ser explicado ou esclarecido pelo uso da razão e do diálogo. São fundamentalistas presas às suas próprias ideias. Não são livres!

A liberdade é isto, uma construção constante, individual e colectiva, e o exemplo de liberdade maior, exercício de uma nova radicalidade fundamentada no uso da coragem em desafiar as regras que oprimem e não libertam, vem dos transgéneros, com eles/as aprendemos a lição mais preciosa, aquela que deveria ser usada como o nosso parâmetro mais luminoso: a de que nem tudo está definido, e que podemos e devemos mudar sempre, quando está em jogo a felicidade de um ser humano.

Amanhã seremos todos e todas trans!, e transformaremos o preconceito que dirigem contra nós, na nossa principal arma. O corpo segue sendo, afinal, a ágora mais valiosa onde escrevemos a palavra democracia.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:25 Comentários:

Segunda-feira, Junho 23, 2008

 



Os ofícios da poesia e a poesia nos ofícios: Anfion, a Górgona e o nosso lugar no mundo





Miguel,


a poesia nunca enriqueceu de dinheiro ninguém, muito menos o seu fabricante, o/a poeta. Não basta ser “Il miglior fabbro” se não tens a hipótese de ganhar o teu sustento noutra actividade. Essa regra só é valida, claro, para quem não nasceu rico. Por isso que das muitas pessoas que se dedicam à poesia, muitas delas procuram empregos outros, nas empresas privadas ou nos órgãos públicos, pois estes oferecem as condições mínimas de estabilidade material, liberando o/a poeta para se dedicar àquilo de que mais gosta, “a reinvenção do mundo”.

João Cabral de Melo Neto é o meu poeta favorito. Nasceu no Recife. Consta que numa família sem problemas financeiros. Estudou muito, é certo. Começou a trabalhar cedo e depois, no Rio de Janeiro, nos anos 40, fez concurso público e entrou para o Itamaraty iniciando assim a sua carreira diplomática.

Em 1947 é removido para Barcelona, e é o seu primeiro encontro com a Espanha. Nesse país viveu nas cidades de Cádiz, Barcelona, Sevilha e Madrid. Nesse país foi vice-cônsul e cônsul. Escreveu livros importantíssimos aí, conheceu pintores e intelectuais. Mas era como funcionário diplomático que lidava muitas vezes com as pessoas que queriam emigrar para o Brasil. Certa vez li, num de seus ensaios que não me recordo, uma entrevista que ele fez a um homem, em Sevilha, um pobre homem que queria emigrar para o Brasil em busca de uma vida melhor. Eu queria me recordar agora em qual texto aparece essa entrevista, porque ao contá-la, João Cabral me pôs dentro da sala de entrevista, e eu pude ver, através dos seus olhos e do coração, os olhos e o coração daquele homem que partia da sua terra porque ela não lhe garantia a dignidade da sobrevivência. Aquele homem se lhe apresentava como um monumento à vida e à dignidade.

O meu poeta favorito é assim! Assinava permissões para emigrar. Da sua caneta nunca saiu uma negação à vida, nunca um muro foi erguido com a sua conivência ou em seu nome. O seu trabalho poético elevou a língua portuguesa, mas se fez sempre acompanhar da ética da sua elevação. Mostrou como são os pobres em “Morte e vida Severina”, e não como ele queria que eles fossem. Um poeta fincado na realidade inesgotável da vida. Quando olho para o sol me lembro dele. Morreu quando eu já estava na Europa. Talvez tenha sido melhor assim, morreu sem saber como os imigrantes brasileiros são tratados em Barajas, morreu sem ter a noção do quão hipócrita a Europa se tornou, ou melhor dizendo, de como a Europa no eixo Sarkozy-Merkel-Berlusconi desdiz, com todos os deslizes da língua, o monumento ao respeito aos direitos humanos que ela afirma defender.

João Cabral, o recriador, levou para o Nordeste Brasileiro a Fábula de Anfión. E o que era harpa virou flauta de cana, e o que era pedra, pedra ficou. A nossa condição, nas Américas, e sermos ao mesmo tempo ameríndios, africanos e europeus. Nós somos aqueles europeus que foram rejeitados. E não estamos aqui como filhos pródigos! É com o som da nossa flauta de cana, que uma nova Europa há-de surgir. Porque esta velha Europa deve voltar ao palácio das Górgonas e olhar, estarrecida, a sua própria imagem reflectida no escudo de bronze.


Não sei dizer, meu amor, as coisas de outra maneira.







Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:17 Comentários:

Quarta-feira, Junho 18, 2008

 
Pound lendo "Sestina: Altaforte"







Notas sobre a poesia na vida quotidiana, em três momentos



Ezra Pound era fascista, e o seu compromisso com esta ideologia está expresso em obras como Jefferson and/or Mussolini e Guide to Kulchur. Nessa matéria ele foi mais longe ainda, falou na rádio, com a sua voz de trovão, contra a democracia e a liberdade. A sua poesia, importante para a estética modernista, influenciou a poesia contemporânea e sobreviveu, como debate teórico, nos círculos onde se é possível separar o fascista do poeta – e esta operação, delicada, diga-se de passagem, nem sempre é fácil de fazer. Eu mesmo li a sua poesia, mas sempre com o travo de estar lendo um fascista, porque o veneno que saiu da sua língua contra a liberdade, contaminou todo o campo à sua volta, afastando-o de nós.

Pound foi amigo de outro grande poeta, T. S. Eliot, que escreveu obras magníficas que me marcaram muito como The Love Song of J. Alfred Prufrock (1915) que usei como guia quando estive apaixonado uma vez, ou The Waste Land (1922) que de alguma forma evitou o meu naufrágio, ou ainda Four Quartets (1943) que o associo sempre à minha experiência na Europa, além de muitos ensaios. Seja como for, sei por um filme, que Eliot não foi muito correcto com a sua primeira esposa, Vivienne, soube disso quando assisti no cinema Tom & Viv, de Briam Gilbert, em uma adaptação da peça de Michael Hastings. O facto de não saber como lidar com o problema da sua mulher não faz dele um fascista, mas podemos situá-lo entre o companheiro inadequado e o péssimo marido. Continua sendo o grande poeta que foi e a me comover também, mas sempre que leio um poema seu, sobretudo The Waste Land, é a voz de Vivienne que surge de dentro da garganta inundada de mar de Flebas, o fenício, e não a de Eliot.

Os poetas são seres humanos com os seus defeitos (muitos deles imperdoáveis) que andam por aí. Há aqueles que estão do lado da verdade e da justiça e outros que caminham pelas sombras. Há os que vêem o homem no fim do túnel, com as suas fragilidades, imperfeições, medos e esperança – e fazem desse homem um alicerce sobre o qual derramam o seu canto e resgatam-no do pântano que a vida o atirou. Há outros poetas que fazem o contrário, e desconfiados da humanidade, afastam o homem do homem, a mulher da mulher, a criança da criança. E fazem isso no campo da política (dando crédito a Platão) e deixam-nos a certeza de que – vivendo na pólis – não podemos separar o ser humano da sua dimensão política. Esses podem ser poetas razoáveis, mas são seres humanos injustos.

O Parlamento Europeu aprovou hoje (18/06/2008), por 369 votos a favor, 197 contra e 106 abstenções, a DIRECTIVA DA VERGONHA, que dá o aval aos 27 Estados-Membros da União Europeia para prender e expulsar de seus territórios os imigrantes que não puderam se regularizar.

São delegados poderes ao aparato da União Europeia para prender os imigrantes indocumentados, inclusive menores de idade, além de proibir aqueles que tiverem sido "expulsos" de regressarem num prazo de 5 anos.

A directiva da vergonha aprovada hoje em Bruxelas leva o voto favorável de um poeta português: Vasco Graça Moura. Não se constitui novidade as suas posições conservadoras. O seu manifesto desejo contra qualquer mudança (seja ortográfica, seja o que for) é conhecido de mais e não vale a pena escrever sobre isso. E, depois, ele só está aqui entre os outros dois não por causa da sua poesia, que conheço muito pouco, mas como o exemplo de que devemos desautorizar Platão, e dizer que sim, uma república pode ser governada por poetas, porque há dentre eles aqueles movidos pela "ideia justa", tão defendida por Tolstói, e dariam para compor uma estupenda galáxia!

Hoje é um dia estranho, porque esta civilização começou o seu envenenamento, vive a sua hipocrisia, proclama a Directiva do Retorno, chamada por nós de Directiva da Vergonha, no mesmo ano Europeu para o Diálogo Intercultural. O veneno destilado politicamente ganha adeptos, forma opinião, banaliza o mal, e transforma o/a imigrante num marginal prestes a ser “retornado”; eu sou esse imigrante, e recuso a minha marginalização!

Hoje o veneno chegou muito perto de mim, e me afastou da poesia.






Escrito por OSCAR MOURAVE às 23:17 Comentários:

Terça-feira, Junho 17, 2008

 





A caixa marroquina ou, como escrever um poema curto


Primeira tentativa:

Passava pela loja do Mohamed e ele " Oscar, vem aqui, quero te mostrar uma coisa". Era uma caixa redonda (as caixas podem ser redondas?) de prata, pequena, delicada, trabalhada por um artesão de Casablanca, amigo dele, que também se chama Mohamed. "Fica para ti, é barata". Disse-lhe que não tinha dinheiro. "Anda, toma lá, pagas-me depois". Respondi-lhe que sim, que a comprava para o Miguel.

Cheguei à casa com a caixa marroquina e uma ideia na cabeça. Ela deve ter algo dentro, alguma coisa a mais que a história invisível que normalmente os objectos de artesanato trazem. Devia haver algo mais nela que a história do Mohamed artesão de Casablanca, que provavelmente tem uma mulher e filhos (?), e que à noite, sozinho, olhando as estrelas, pensa que poderia ter outra vida, ser talvez um gaúcho nos pampas ou um mercador na China. Seja como for, a história invisível contida na caixa que passará a pertencer ao Miguel é pouca para este propósito: é preciso que ela leve um poema no seu núcleo escuro e silencioso. Um poema, que ainda não está escrito, mas que me aperece em sonhos, à noite, quando me descuido das coisas corriqueiras da vida,







Escrito por OSCAR MOURAVE às 00:23 Comentários:

Segunda-feira, Junho 16, 2008

 


Tu és assim, rapaz, um quarteto de gatos pretos a animar a minha vida!

Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:26 Comentários:

Quinta-feira, Junho 12, 2008

 

Mobilização contra a
Directiva da vergonha (de retorno)


Sábado, 14 de Junho 2008, 15h
Largo de São Domingos, Rossio,
junto ao Monumento pela Tolerância




DECLARAÇÃO PÚBLICA

A União Europeia agita a bandeira da xenofobia e do racismo



Os Ministros do Interior da UE aprovaram o Projecto de Directiva de Retorno, que estabelece as regras comuns para a expulsão dos imigrantes indocumentados. Os governos Europeus, incluindo o Português, ignoraram assim os apelos de organizações da sociedade civil que têm rejeitado esta directiva. Este projecto terá de ser aprovado pelo Parlamento Europeu, entre 16 a 19 de Junho.

São vários os aspectos verdadeiramente vergonhosos desta directiva:

- fixa em dezoito meses o período máximo de detenção de imigrantes indocumentados, antes de sua deportação. Como um primeiro passo, fixa um máximo de seis meses, que pode ser prolongado por mais doze meses no caso de falta de “cooperação” dos países de origem dos migrantes. É verdade que os Estados Membros são autorizados a manter um período de prisão inferior a dezoito meses, mas a directiva fará com que tendam a alinhar-se com a duração máxima prevista pelo acordo;

- prevê que a partida de um imigrante indocumentado, suavemente chamada de "remoção", terá lugar numa base "voluntária" mas que este, no caso de resistência, poderá ser forçado ou obrigado, sendo depois proibida a sua entrada no território da UE, durante cinco anos;

- até as crianças podem ser detidas, mesmo que por um período “tão breve” quanto possível.


Neste contexto, consideramos que:


1. O triângulo de poder Sarkozy-Merkel-Berlusconi tem condicionado a política de imigração europeia, pressionando numa direcção claramente regressiva e securitária, fazendo dos imigrantes os bodes expiatórios para o clima de insatisfação social que se vive na Europa;

2. A aprovação desta Directiva vai na linha do espírito da política que tem sido activamente implementada pelo presidente Francês, Nicolas Sarkozy, que pretende chegar a um pacto sobre a imigração, marcado por medidas populistas, racistas e xenófobas;

3. A directiva fortalece a política de massificação dos centros de detenção dentro da europa (actualmente já são 280), ou subcontratados com os países vizinhos;

4. O argumento apresentado pelo Ministro da Administração Interna de que esta directiva apenas estabelece máximos de detenção e que em Portugal não vai implicar qualquer alteração é hipócrita pois a directiva, para além de agravar a situação dos imigrantes indocumentados na Europa, legitimará as medidas de expulsão e limitará as perspectivas de legalização.


Perante esta agressão dos valores da dignidade humana, das liberdades políticas e dos direitos fundamentais:

- Manifestamos a nossa clara condenação à directiva de retorno, que solidifica a Europa Fortaleza;

- Em pleno Ano Europeu para o Diálogo Intercultural, consideramos que esta medida é uma afronta directa ao espírito de promoção do respeito dos Direitos Humanos, da diversidade cultural e do diálogo intercultural;

- Apelamos aos deputados europeus a rejeitarem esta Directiva, aquando da sua discussão, entre 16 e 19 de Junho, no Parlamento Europeu;

- Reinvindicamos a regularização de todos imigrantes indocumentados que se encontram na UE.



ORGANIZAÇÕES SUBSCRITORAS:

Ass. Africamor; Ass. dos Imigrantes nos Açores (AIPA); Ass. Luso-Senegalesa (ALS); Ass. Melhoramentos e Recreativo do Talude; Ass. Moçambique Sempre; Ass. Mulher Migrante; Ass. Olho Vivo; Ass. dos originários Togoleses em Portugal; Ass. Quizomba; Ass. dos Residentes da República de Guiné-Conakri em Portugal (ARGP); Casa do Brasil; Casa Grande do Brasil; Centro Cultural Moldavo; Casa da Língua e Cultura Russas; Espaço Jovem de Sta Filomena; Khapaz; Liga Chinesa; Obra Católica para as Migrações; Solidariedade Imigrante; SOS-Racismo.


Escrito por OSCAR MOURAVE às 02:44 Comentários:

 

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