finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Sexta-feira, Março 28, 2008

 
More blues II


Por vezes percebo como funciona
o relógio do mundo no compasso imaterial
das coisas

e no alto da colina
o meu pensamento ganha
aridez e contorno

e tudo se investe de um significado absoluto
quando deus abandona o seu trono
deixando-me só

no saguão da vida:

nesse momento
penso no Mississipi
e no próximo

cúmplice do meu desejo
e saltar para as águas
é só uma questão de tempo.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:47 Comentários:

Terça-feira, Março 18, 2008

 


No es sino Iraq



Recuerdo a al-Sayyab en el golfo gritando en vano:
"¡No es sino Iraq!";
sólo el eco le dio respuesta.

Recuerdo a al-Sayyab: en este cielo sumerio
una hembra se impuso a la nebulosa estéril
para dejarnos en herencia la tierra y el destierro
a la vez.

Sí, recuerdo a al-Sayyab: como la poesía nació en Iraq,
sé iraquí si quieres ser poeta, amigo mío.

Ay, al-Sayyab: la vida no resultó como él imaginara,
entre el Tigris y el Éufrates. Por ello, no llegó a pensar,
como Gilgamesh,
en pócimas de eternidad ni en resurrecciones.

Recuerdo a al-Sayyab aprehendiendo leyes de Hamurabi
para cubrir vergüenzas y caminar hacia su sepulcro.

De al-Sayyab me acuerdo cuando enfermo y deliro de fiebre:
mis hermanos le preparaban la comida al ejército de Hulagu
porque no tenían más siervos que...¡mis hermanos!

Recuerdo a al-Sayyab: nunca soñamos con néctares
que la abeja no mereciera ni con otra cosa que dos manos
dispuestas a estrechar nuestra ausencia.

Recuerdo a al-Sayyab: herreros muertos se alzan de sus tumbas
para forjar nuestras cadenas.

Si, al-Sayyab me hace recordar que la poesía es
experiencia y destierro, dos hermanos gemelos.

Sólo soñábamos con tener una vida que fuese como
vida misma; con morir a nuestra manera:
"Iraq, Iraq, no es sino Iraq".



Mahmud Darwish

Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:19 Comentários:

Segunda-feira, Março 17, 2008

 
“Estar no mundo é ter a experiência de uma participação e ao mesmo tempo de uma separação irredutível.”

António Ramos Rosa



Eu não alcanço
com as palavras a definição
certa do que é concreto

nesta paisagem desolada
que resta depois de pronunciado
o verbo que atiramos às coisas

e a rosa deixa de ser rosa
assim que a mencionamos
como tal

e o amor então é menos
que o sorriso do gato quando imita
a lua

e toda a nossa tentativa de fazer
parte do mundo não passa de um esboço
inacabado:

um poema que não sabemos onde
começou e nem como vai terminar.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:25 Comentários:

Terça-feira, Março 11, 2008

 
“Não sei o teu nome, e nem sei se – como eu – à noite, tens a sensação de dormir à beira de um abismo, e de madrugada acordares assustado a pronunciar, numa língua estrangeira, a tua sentença de morte.”





Diante do espelho
pela manhã
é o espectáculo discreto da tua vida
encenada para ti próprio

barbear-se (enquanto
Gidon Kremer executa na rádio
um último Offertorium)

dá-te a sensação vaga
de que lá fora a vida corre suave
sobre uma lâmina de luz

e Lisboa toda azul
entra pelas janelas da tua casa
como um pássaro perdido e afoito

sem memória

à tua frente o homem
que mora do outro lado do espelho
sem pudor te propõe um enigma

e pergunta:
“onde vais pôr o teu coração
quando toda a terra estiver ardida?”

atordoado terminas a tua higiene burguesa
e segues solitário para o trabalho
de mais um dia.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:09 Comentários:

Segunda-feira, Março 10, 2008

 
Carta ao meu amigo desconhecido



Sei que moras numa grande cidade
,
sozinho, e que às vezes são sabes como ocupar aquele tempo, imenso devo dizer, que te resta quando não estás no teu escritório envolvido em números, em taxas que representam números, em números que representam pessoas – são tantos números à tua volta, não é?. Sei que tens gostos curiosos para um homem solitário que acabou de chegar aos quarenta: gostas de chuva, gostas imenso de andar na chuva protegido pela tua gabardina gasta, gostas mesmo de andar sob a chuva com a tua gabardina gasta e um chapéu e, ao mesmo tempo, carregar um copo de plástico com café, e pela rua, bebê-lo enquanto te olham, meio espantados, achando-te fora de época e lugar. Gostas de poesia, e de poetas esquecidos, e isso te faz tão raro que o meu desejo era de ir ao teu encontro agora. Não tens mobília, nem mesa de jantar e na tua casa as coisas não são aos pares. Pensas: “tudo bem, não tenho mesmo quem convidar para o jantar”. Os fins-de-semana são mais difíceis para ti, mas quando jovem era diferente: tinhas o teu pai para jogar xadrez, e com a tua mãe comentavas a indignidade da ocupação da Palestina ou lias-lhe um dos teus poetas esquecidos. Mas os teus pais estão mortos, a Palestina segue ocupada e não tens quem ouça, na tua voz embargada, o verbo dos poetas esquecidos. E isso me comove tanto que sim, eu queria estar agora a jantar contigo, concordar sobre as iniquidades na Faixa de Gaza e te ouvir com a voz dos poetas esquecidos. Mas ainda não nos conhecemos, embora talvez nos tenhamos cruzado no metro ou na fila para comprar bilhetes num cinema qualquer de domingo. Não sei o teu nome, e nem sei se – como eu – à noite, tens a sensação de dormir à beira de um abismo, e de madrugada acordares assustado a pronunciar, numa língua estrangeira, a tua sentença de morte.

E eu, educado que fui no espírito racional das coisas, dou comigo a pensar, sozinho em frente da minha chávena de café, que é uma questão de tempo o nosso encontro. E admito, pela primeira vez, a conspiração imponderável do acaso, e espero por ele, ansioso, enquanto o mundo se fragmenta diante das minhas retinas.


Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:42 Comentários:

 

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