|
Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
|
Segunda-feira, Janeiro 21, 2008
Dezembro, quatro formas de pensar à volta de um cadáver II
Oscar:
Chove tanto. Ele gostava de chuva, e de pêssegos obsessivamente. Dizia ser uma fruta que encerrava um segredo no escuro do caroço. E escrevia sobre isso, chamava-lhe “a maçã da Pérsia” e inventava histórias.
A Mãe:
Como chove! Ele não gostava de chuva, sentia medo, dizia que as chuvas já tinham destruído o mundo uma vez. Acho que nunca o conheci verdadeiramente. Gostava de dormir embaixo da cama, o menino, como um animal doméstico que ainda sonha que é selvagem. Aprendeu a falar tarde, era um sinal, disso eu sabia.
Gassam:
Ele tinha a capacidade de achar o seu lugar em qualquer mundo, para depois, sem solenidade, renunciá-lo. Sem jamais mencionar, sempre me deu a impressão de que um dia me deixaria com as minhas coisas, a casa, o sítio e os animais, a biblioteca e as fotos antigas. Saiu de casa com duas malas e seis livros e nunca mais voltou.
O Jovem árabe:
Eu não entendo o olhar destas pessoas. Eu não sei nada. Que bom que chove, a água que cai preenche o início desta solidão na qual me lancei. Que Allah perdoe a insensatez do meu amigo, que lhe tenha misericórdia e que não me deixe assim, com esta sensação de abandono, como senti pela primeira vez quando me perdi do meu pai na medina da capital. Aquela foi a primeira vez que o meu coração convertera-se num pêssego em chamas, como agora.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:54
Comentários:
Segunda-feira, Janeiro 14, 2008
Dezembro, quatro formas de pensar à volta de um cadáver I
Oscar:
Cortou-se a si próprio como quem sacrifica um cordeiro. Como pode fazê-lo? Os legistas ficaram impressionados com determinação do corte. Sofreu muito, ele, Holofernes que foi a sua própria Judite.
A Mãe:
Egoísta. Deixar-me sozinha para carregar a vida, esse carrossel. Sempre foi estranho, mesmo quando estava dentro de mim. Fazia-me sentir uma espécie de peixe, grávida de um profeta. Nunca fui solene com este primeiro filho. Nunca lhe beijei. Tinha nojo da sua face branca, lunar. Nasceu à meia-noite. Eu sempre soube, era um sinal. Vivia se cortando, o menino.
Gassam:
Ainda me vejo à espera dele naquela praça em Beirute. O país em ruína, chuva de fogo e o meu coração suspenso na terra estrangeira dos meus antepassados. A viagem ao Líbano tinha sido ideia dele. É a terra do teu pai, Gassam, Gilgamesh andou por aqui, dizia ele sorrindo para mim. Ele, Enkidu de mim próprio.
O Jovem árabe:
Usar Deus para nos separar definitivamente, ele, o agnóstico. Porquê? Não sabia Jonas que o suicídio é um atentado contra Deus? Que agora não entrarei no Paraíso de mãos dadas com ele? Eu não posso ser convertido, não tenho fé, dizia-me sempre. E depois falava-me de Ibn’Arabi. Recusar-me duas vezes: nesta vida e na eterna. O que vou fazer com a minha eternidade sem ele?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:58
Comentários:
Segunda-feira, Janeiro 07, 2008
Três cartas pela altura de dezembro: Houda
Lisboa, 29 de dezembro de 2007
Querida Houda,
já cheguei a Lisboa. A cidade é diferente do que eu imaginava, ou melhor, do que Jonas me fez imaginar através das suas cartas. Mas olhando para ela, entendo porque ele gostava daqui. Há qualquer coisa de decadente à volta desta capital que nos escapa ao entendimento. Andei à noite, perdido em pensamentos, pelo centro da cidade tentando entender porque é que ele decidiu vir para cá. "Uma história de amor é pouco para nos fazer mudar de vida" disse-lhe eu muitas vezes sem convicção naquilo que dizia. Acho que eu me sentia ferido e abandonado, eram afirmações de desconsolo.
Ontem fui ao cemitério, não sei que dizer, chovia, fazia frio, a mãe do Jonas era uma esfinge, cinco ou seis pessoas, eu com o coração ferido por uma seta de metal onde se podia ler a interrogação "porquê?", a esfinge chora, ela é real, Oscar é feito de sal, e tem olhos flamejantes, abraçou-me, me senti como se recebesse o abraço do nosso avô, e Oscar é mais novo do que eu, pus sobre o peito do Jonas, por baixo da roupa branca que ele usava, aquela nossa foto que tiramos em Baalbek, quando visitamos o Líbano, me senti mal e culpado por cumprir com um desejo absurdo "mas como eu iria saber?" Houda, o nosso pior receio veio a se confirmar aqui, nesta terra estrangeira, Jonas fez o que nos disse que faria. E o fez longe de nós. O que farei minha irmã? Mudei de ideia e vou para Beirute no mês que vem. Preciso falar com você. Preciso da sua voz.
Uma coisa estranha aconteceu no cemitério, e foi logo depois que Oscar leu um poema que fez para Jonas. Surgiu um jovem, árabe eu soube depois, perguntou quem era a mãe, falou com ela, em seguida com Oscar e se pôs num canto. Nunca vi olhar mais perdido na minha vida: havia desespero e temor, e se lia "não há salvação" em cada mirada que ele lançava sobre o caixão.
Houda, Jonas nos deixou sós para carregar com a vida, não teremos mais aquele jantar combinado em Beirute. E eu, só posso dizer que sinto muito.
Teu irmão,
Gassam
|
|