finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Quinta-feira, Dezembro 27, 2007

 
Diário de Gassam: três momentos em dezembro de 2007


Itaboraí, 07 de dezembro de 2007, pág. 277.

(…) hoje aconteceu algo estranho. Todas as aves do viveiro amanheceram mortas. Os marrecos de pequim e as galinhas rodhia, os gansos africanos e os perus, as codornas e o galo pedrês, até o pavão branco que ficava solto, encontraram-no junto ao pessegueiro próximo da cisterna. Tenho de falar com o caseiro, será que compramos ração envenenada?



Rio de Janeiro, 14 de dezembro de 2007, pág. 281.

(…) o caseiro me telefonou para dizer que a tempestade de ontem destruiu o ipê amarelo, “Rachou a árvore, seu Gassam, quebrô tudo, num tem jeito não, está morta mortinha”, disse. Jonas vai ficar triste quando souber.



Itaboraí, 22 de dezembro de 2007, pág. 290.

(….) Ontem o dia todo não me senti muito bem. Acho que a minha pressão está alta novamente. Tenho de escrever a Houda, há tempos que não recebe cartas minhas. Assim como eu, ela não gosta de internet, sempre me diz que prefere ver a ação que o tempo rege sobre a minha péssima caligrafia. Outra coisa me inquieta: ontem sonhei com Jonas. Há tempos que não sonhava com ele. Estava a plantar o ipê amarelo e sorria para mim. Repentinamente começou uma tempestade de sangue, bíblica, ancestral, e tingiu tudo de vermelho, o céu, o pavão branco e as aves do viveiro, e o pessegueiro ardeu num fogo encarnado. Despertei imediatamente e telefonei para ele, não atendeu. Hoje também não. Deve estar viajando. Vou ligar mais à noite.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:49 Comentários:

Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

 
Três cartas pela altura de dezembro: Eid al-Adha



Porto, 21 de Dezembro de 2007



Caro Oscar,


não sei em que dia receberás esta carta. Seja como for, já estarei morto. É provável que já saibas porque antes de decidir por morrer, deixei na mesinha aqui ao lado o teu contacto, o que converte esta carta numa “explicação póstuma” do meu suicídio – chamemos as coisas pelo seu nome.

Sempre soubeste, amigo, que para mim nunca houve mistério na escolha da própria morte – essa decisão que se converte na pedra mais reluzente da coroa que paira sobre a cabeça da Razão. Não há nenhum enigma na abdicação da vida pelo sujeito. Somente me arrependo de ter mentido para ti sobre o propósito da minha vinda ao Porto, e justamente no momento de reafirmação dos laços de amizade que nos unem. Eu fiz, e pronto. Ontem, depois de tomar um chá naquela pastelaria que conheces, encontrei numa livraria, num papel afixado discretamente na parede do fundo, um texto de Omar Khayam, do qual te envio um fragmento, e que espero ser a última coisa pensada por mim antes de fechar definitivamente os olhos, a frase é esta: “ (…) pois aquele que nos compreende, escraviza alguma coisa em nós.” Era um texto muito lúcido sobre a ideia de loucura. Gostei porque cabe aqui, no momento em que não me interessa mais o que os outros pensarão do meu gesto. Em ti confio tanto, porque nunca quiseste me compreender, somente me amar. O facto é que me cansei, e a vida é maior do que posso suportá-la. Tenho também outra coisa para dizer antes de te fazer três pedidos:

- é mentira quando me disseste naquela vez que eu era o único dentre nós a querer ter o direito de “ser sensível”. Nunca te acusei de falta de sensibilidade, mas fui arrogante muitas vezes e isto deixa-me uma nota infeliz, porque te magoei – e devemos evitar de magoar o ser humano, essa espécie de vida tão sublime e tão frágil que cobre o planeta de pólo a pólo. Perdoa-me pelas minhas palavras, essa forma cruel de comunicação inventada pelo género humano; teria sido bem melhor se ficássemos como os pássaros ou as baleias, e somente cantássemos. E eu te cantaria todas as coisas que vi nesta vida, os lugares por onde passei, as camas por onde dormi, os corações que me receberam e aqueles que moraram dentro de mim. Eu te cantaria a fúria do Amazonas a entrar no Atlântico, os azulejos da minha infância e a primeira vez que morri de amor. Mas como somos imperfeitos, falamos e escrevemos.

És muito diligente por isso te peço três coisas, amigo. Primeiro, traz a minha mãe do Brasil para a minha cremação. O dinheiro para isso está naquela caixa vermelha onde guardo o passaporte, ao lado daquela edição antiga da Divina Commedia que tenho.É suficiente para todos os gastos, o que sobrar fica contigo, a minha mãe não precisa de dinheiro, ela precisava era de mim. Ela tem de ver o meu corpo porque é uma mulher especial, dada à fantasias, se não me vir morto, ela agarrar-se-.á à ideia de que voltarei. E sabemos bem que do reino dos mortos, ninguém volta. Dá-lhe também as fotos dela com meu pai que lhe roubei quando estive no Rio de Janeiro pela última vez.

Avisa também ao Gassam, o libanês, aquele que foi meu companheiro por quatorze anos. Sempre o quiseste conhecer, infelizmente a ocasião não é das melhores. É provável que te surpreendas com uma coisa: ele seguramente já saberá da minha morte porque ele a sentirá em manifestações a que nós chamamos de paranormais. Já vi isto acontecer. Talvez até já me tenha telefonado. Mas mortos não falam ao telefone, não é? Ele vai chorar muito, e virá com a minha mãe. Ampara-o a ele, a minha mãe é muito forte. Ele vai fazer uma coisa também. Vai querer que eu seja cremado com uma fotografia nossa tirada em Baalbek, num dia em que fomos muito felizes. Ele vai pôr a foto por baixo da minha camisa, na altura do coração: ajuda-o, Oscar.

E finalmente, o mais complicado. Existe um rapaz, árabe, que nunca te mencionei. Entre nós existiu uma história breve, que pus fim por causa das minhas imperfeições. Ele é muito inteligente, orgulhoso e aparentemente forte. Mas vai ficar chocado, e o choque transformar-se-á, no seu espírito, em mágoa e depois os seus olhos vão ser cobertos pelo desespero porque, diferentemente de mim, para ele a vida é uma manifestação sagrada, e ao renunciá-la, no seu entendimento, seria me afastar definitivamente dele e do Paraíso, o lugar que ele presumia ser o do nosso reencontro final. Entrega-lhe um pacote verde que tenho guardado na estante, duas prateleiras abaixo dos livros de Mahmoud Darwish. Não sei se ele irá à minha cremação. Não quero serviço religioso, mas a minha mãe deve insistir, Gassam buscará um sacerdote maronita e o jovem árabe, se for, pensará somente na impossibilidade eterna. Faz o que entenderes melhor, porque como sabemos os mortos não governam.

Tudo o que tenho é agora teu. No entanto, deixei algo especial para ti. Está naquela estante ao fundo do corredor onde guardo o oboé que pertenceu ao meu pai. Na prateleira acima, ao lado da biografia de Shostakovitch, há uma caixa grande, carmesim, dentro guardo umas coisas sem valor para os outros, nela há uma caixinha menor, prateada, que traz no seu interior um presente para ti:

- é a minha forma de me despedir, meu amigo, e de dizer que foste a melhor companhia que pude ter nesta vida.

Teu,


Jonas




Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:57 Comentários:

Quinta-feira, Dezembro 13, 2007

 


DON'T LET ME BE MISUNDERSTOOD

Íria,


para ti que sabes que mesmo que uns não queiram, o MUNDO é o nosso lugar e o nosso direito de nele estar. Faz frio em Lisboa, provavelmente chove em Compostela, em Pamplona talvez sopre um vento, em Tunis - na Place de Barcelone - um jovem espera, ansioso, por um encontro que não acontecerá, em São Paulo uma mulher chora solitária, na Cidade do México acaba de nascer uma criança, "É uma menina, grita o pai em felicidade", em Ramallah Mohamed espera a volta do seu pai (e ele não voltará), e em Dijon um coração anda aos saltos. Assim é o mundo, e é dessa maneira que nele estamos.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 23:03 Comentários:

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

 


Volta às aulas na Palestina, Gaza, Agosto de 2007



Estava preparado para escrever um poema de amor que se chamaria qualquer coisa como salmos. Ia invocar toda a sabedoria do rei David (quem sabe mencionar Jônatas) e incluí-los na vertigem da Lisboa de 2007. Ia falar do movimento das pessoas no metro, do livro galego que estou a ler, de um postal do rei-poeta que o mostra eternizado nas pedras de uma catedral europeia. Ia também falar da falta que sinto de alguém, e o poema seria dedicado a ele onde mencionar-se-ia o facto de umas peças de roupas esquecidas no meu quarto que se tinham convertido em tótem do meu desejo. Ia dizer tudo isso, e buscava imagens para ilustrar uma possivel viagem pela Antiga Palestina. E cheguei aqui, onde as crianças voltam à escola, sem papel e sem livros, na Gaza ocupada. O poema foi-se embora. O poema está em greve. O poema não quer vir. Como diria Ferreira Gullar, não há vaga para a poesia aqui.






Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:35 Comentários:

Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

 


This

This chord
This water
This son
This daughter
This day
This time
This land
It's all mine

This Calling Bell
This Forge Bell
This Dark Bell
This The Knife Bell
This calling
This burden
This falling
The world's turning

This What I thought I knew
This What I thought was true
This I understood
This In the deep wood
This Ah there I stood a child so fair
This On a certain square
This Down the dirty stairs
This To see the table set
This With golden chairs
This Ah to follow, follow, follow, follow there

This race
And this world
This feeling
And this girl
This revolver
This fire
This I'll hold it up higher, higher, high

Brian Eno


Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:35 Comentários:

 

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