finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Segunda-feira, Novembro 26, 2007

 


Três poemas salmantinos: os cavalos de Ferghana



Na secção oriental do museu
me explicavas em pormenores a paixão
da Antiga China pelos seus cavalos

e contavas-me histórias de arrebatações
de crimes passionais e expansão do império que envolviam
os homens na sua adoração equina

Eu te ouvia atónito não porque os enredos
comovessem meu interesse ou tocássem o meu entendimento
não

não eram as histórias
eras tu o epicentro do meu desejo
e naquele instante um terramoto habitou meu peito.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:40 Comentários:

Quinta-feira, Novembro 22, 2007

 



Era Beirute em todo o seu esplendor: as tardes nunca estavam vazias e podíamos, sob as árvores que habitavam a orla, predizer o futuro e assombrar os nossos sentimentos. Mas era uma felicidade tão diferente - a prazo. Um café, um livro que me davas e todo aquele sol que se punha era a nossa geografia mais específica; e como sabíamos nos mover naquele mundo.



* Remixado, porque tenho saudades do meu amigo.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:39 Comentários:

Terça-feira, Novembro 20, 2007

 


Maravillosas ocupaciones



Qué maravillosa ocupación cortarle una pata a una araña, ponerla en un sobre, escribir Señor Ministro de Relaciones Exteriores, agregrar la dirección, bajar a saltos la escalera, despachar la carta en el correo de la esquina.

Qué maravillosa ocupación ir andando por el bulevar Arago contanto los árboles, y cada cinco castaños detenerse un momento sobre un solo pie y esperar que alguien mire, y entonces soltar un grito seco y breve, y girar como una peonza, com los brazos bien abiertos, idéntico al ave cakuy que se duele en los árboles del norte argentino.

Qué maravillosa ocupación entrar en un café y pedir azúcar, outra vez azúcar, três o cuatro veces azúcar, e ir formando un montón en el centro de la mesa, mientras crece la ira en los mostradores y debajo de los delantales blancos, y exactamente en médio del montón de azúcar escupir suavemente, y seguir el descenso del pequeño glaciar de saliva, oír el ruído de piedras rotas que lo aconpaña y que nace en las gargantas contraídas de cinco parroquianos y del patrón, hombre honesto a sus horas.

Qué maravillosa ocupación tomar el ómnibus, bajarse delante de Ministério, abrirse paso a golpes de sobre com sellos, dejar atrás al último secretario y entrar, firme y sério, en el gran despacho de espejos, exactamente en el momento en que un ujier vestido de azul entrega al Ministro una carta, y verlo abrir el sobre com una plegadera de origen histórico, meter dos dedos delicados y retirar la pata de araña, quedarse mirándola, y entonces imitar el zumbido de una mosca y ver como el Ministro palidece, quiere tirar la pata pero no puede, está atrapado por la pata, y darle la espalda y Salir, silbando, anunciar en los passilos la renuncia del Ministro, y saber que al dia siguiente entrarán las tropas enemigas y todo se irá al diablo y será un jueves de un mês impar de un año bisiesto.



Julio Cortázar in: Historias de cronopios y de famas, Suma de Letras, Madrid, 2000, pp.: 68/69



Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:14 Comentários:

Sexta-feira, Novembro 16, 2007

 


Wallace and Gromit Lion Immigration Interview


No Brasil, a chamamos de Onça Parda ou Sussuarana, no desenho animado acima ele é um "leão" brasileiro imigrante. Temos o mesmo sotaque quando falamos esta língua, e pensamos do mesmo jeito.

Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:16 Comentários:

Segunda-feira, Novembro 12, 2007

 



For ladies like you, when the winter comes and the love begins.



E quando o amor começa, é mesmo assim, vamos esquecendo aonde pomos as coisas: os escritos que revelam, a gabardina que nos protege da chuva e a poesia que não sabemos muito bem para quê serve, mas que é tão necessária. Gosto da tua música, da tua letra e destes olhos imensos que enfrentam o mundo.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:33 Comentários:

Segunda-feira, Novembro 05, 2007

 
Três poemas salmantinos: o teu quarto



Na parede do teu quarto
os anjos são pastores que cantam
alguma história esquecida

perdida no tempo em que era possível
escrever o enredo de uma vida
com cinco ou seis salmos

Sobre a cómoda
as fotografias à guisa de guião
te buscavam à infância

devolvendo-me à frente
a imagem de um homem constituído
de arquitectura sólida

E eu o espectador ávido
da cama discretamente
via-te fazer a barba

onde o espelho reflectia a canção
que há sempre nos teus olhos
lá fora era Salamanca

e dentro de mim explodia um novo sol
na forma de um verbo inesperado.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:31 Comentários:

Sexta-feira, Novembro 02, 2007

 
Sobre a poesia, que dizem não servir para nada: Sophia



(…)

E no mês seguinte reuniu-se no palácio real a assembleia dos letrados.

Melchior propôs-lhes as dúvidas e as interpretações dos historiadores e durante trinta dias os letrados estudaram o texto.

E no trigésimo dia, ao cair da tarde, estando todos sentados em círculo e estando no meio do círculo a mesa de pedra sobre a qual estava poisada a placa de barro, levantou-se Ken-Hur e disse:

- A poesia não se exprime directamente. Ora o texto que temos em nossa frente é um poema e por isso mesmo deve ser tomado como uma metáfora que não se refere nem ao passado nem ao presente nem ao futuro do mundo em que vivemos, mas só ao mundo interior do poeta, que é o mundo da poesia sempre voltado para o devir e para a esperança. Este texto não fala de factos reais e apenas simboliza o espírito criador do homem.

Falou em seguida Amer, que disse:

- Este texto é um poema e coloca-se por isso à margem do vivido. O poema não se refere àquilo que é, mas sim àquilo que não é. Pois a natureza é uma caixa cheia de coisas da qual o poeta extrai uma coisa que lá não está.

E levantou-se depois o irmão de Amer, que disse:

- Num poema não devemos buscar sentido, pois o poema é ele próprio o seu sentido. Assim o sentido de uma rosa é apenas essa própria rosa. Um poema é um justo acordo de palavras, um equilíbrio de sílabas, um peso denso, o esplendor da linguagem, um tecido compacto e sem falha que apenas fala de si próprio e, como um círculo, define o seu próprio espaço e nele nenhuma coisa mais pode habitar. O poema não significa, o poema cria.

E tendo terminado o debate, levantou-se Merchior, que disse:

- Eu vos agradeço as vossas palavras. Por mim continuarei a buscar, a escutar e a esperar.

Então retiraram-se os letrados e o rei ficou sozinho no pátio, em frente da placa de barro, escutando o correr da água e o cair da noite.




Sophia de Mello Breyner ANDRESEN in: Contos Exemplares (Os três reis do Oriente), pp. 159-160, 34ª Edição, Figueirinhas, 2002




Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:03 Comentários:

 

Powered By Blogger TM