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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Quarta-feira, Setembro 26, 2007
Da série: os pensamentos do coração: o fim da viagem
É preciso que saibas o que perdemos: o solpor no Levante: o jantar quotidiano em casa depois do trabalho: o jornal de domingo e o documentário da terça: a visita ao Museu da Ciência: o meu sonho mais secreto: o teu desejo mais íntimo: o lançamento do meu livro na cidade do norte: o eu te amo, dito à hora de Meca: as quatro fases da lua: Beirute, porque estarei lá sozinho: a tua voz, lendo para mim os poetas palestinos: as minhas indecisões e os teus impasses: o cumprimento das regras: o quebrar das leis: a história do meu avô: o destino dos teus irmãos: perdemos a madrugada compartilhada: o fim do Ramadão: perdemos a nossa história: é dura esta lição, a renúncia da servidão e da posse.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:11
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Sábado, Setembro 22, 2007
Da série: os pensamentos do coração - na praça do mundo
Adquiri uma nova forma de tristeza: quando chega o fim de semana, tomo um comboio ou autocarro e rumo em direcção a alguma cidade desconhecida. Chego lá e logo procuro a praça principal, sento-me num banco, se houver uma árvore melhor ainda, e então começo a chorar, anônimo, numa qualquer praça do mundo.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:06
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Terça-feira, Setembro 18, 2007
Da série: os pensamentos do coração
Órgão considerado importante em muitas culturas, o coração ganhou ao longo da história um estatuto de privilégio nas representações das imagens. No concerto dos órgãos que regem a vida de um ser humano, talvez somente o fígado tenha recebido atenção especial. O crítico e coleccionador Adriano Pedrosa afirma sobre a obra de Leonilson que "expor o coração é acto doloroso, sobretudo em tempos de cinismo e cepticismo, trazendo consigo e com frequência ambiguidade e contradição", - Voilà mon coeur – diria o próprio Leo.
O Dr. Zerbini via o coração com outros olhos, para ele este órgão poderia ser transplantado daquele que morria para dar vida àquele que poderia morrer, um músculo necessário para comandar a vida, essa máquina incessante de produzir angústia.
A literatura trata o coração com muito respeito, devoção e dramaticidade. A iconografia mostra-o em muitas situações, desde aquela em que Cristo aparece oferendo-o palpitante a flamejar diante dos nossos olhos exaltados, até aquela onde os sacerdotes astecas no Templo Maior em Tenochtitlán mostram para os que acabaram de morrer em sacrifício, a última pulsação que antecede a noite escura.
Para mim, o coração é o lugar da espera da minha morte, que acontecerá num ataque cardíaco fulminante, daquele igual ao que matou o meu pai. Desconfio que este meu músculo não serve mais para o amor.
Domingo passado, em Viseu, num pequeno quarto de hotel, às 10h15 da manhã, o meu coração disparou (e eu sozinho) fazendo com que eu perdesse o fino equilíbrio em que a minha vida se mantém. Assustado, pensei: “vem, meu pai, estou pronto”. O meu pai morto não veio, assim como não vieram os donos de todos aqueles corações egípcios que se mantém nos vasos, mumificados, à espera: a morte é um cão solitário, sem dono.
- e no meu peito, já não bate mais um coração.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:18
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Segunda-feira, Setembro 17, 2007
Leonilson, Pensamentos do Coração, 1988
Há uma inevitabilidade quando pensamos no amor, o desejo da sua eternidade. Admito que é uma visão romântica. Vinícius de Morais dizia que ele devia ser eterno enquanto durasse, Frédéric Vidal afirma que para ter um futuro, nessa matéria, é preciso construir um presente: os dois se encontram na durabilidade – essa linha (para alguns), esse fio, onde depositamos a nossa experiência no cumprimento da vida. Amar mais e melhor tem sido (para mim) difícil. E como os dois amigos acima, quero condensar num pequeno espaço de tempo, todo o amor eterno que tenho para oferecer. Mas é tão difícil quando alguém não quer recebê-lo, e pior é que o querendo, e muito, alguém tenha um poder maior ainda de renunciá-lo. Não sei se por estas pessoas devo manter uma admiração respeitosa ou enviar-lhes o meu desprezo. Eu não sei nada da vida, e quero chorar.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:46
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Quinta-feira, Setembro 13, 2007
Era no acordo silencioso – no meio da noite – entre o teu corpo e o meu que estavam as respostas às tuas indagações mais corajosas. Tu me dizias “tenho medo de estar a te conduzir a viver no sonho” ao que eu respondia “quem vive no sonho és tu, eu vivo a realidade objectiva dos meus afectos às claras.” Seguia-se uma quietude tácita enquanto tua boca buscava a minha nuca. E todo o entendimento desse encontro estava ali. Lá fora o planeta girava e anunciava para todos o primeiro dia do Ramadão.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:57
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Segunda-feira, Setembro 10, 2007
Chegas à minha vida como eu chego ao poema, indeciso e maravilhado. O que sairá deste encontro? Que espécie de verso (agudo ou circunflexo) ? No cume do vulcão ou à sua volta? O que pode resultar quando duas naturezas tão distintas se encontram? O que um homem de fé pode mostrar ao desacreditado? Em que língua falaremos do nosso amor? No teu idioma falado pelos anjos ou no meu, aprendido na escola do desterro? E quando eu tiver medo desta claridade exuberante oferecida pelos teus olhos castanhos? E quando o último livro for escrito e se aproximar o final dos tempos? Até lá não sei o que fazer, a não ser permanecer contigo, o quanto me for possível. Mas aprendi hoje um novo tipo de inveja, porque me passou pelo entendimento que se houver mesmo um paraíso no fim da história, não serei eu quem atravessará contigo - de mãos dadas, como os teus costumam dizer - o portal dourado que conduz à eternidade. Eu pertenço ao grupo daqueles que renunciam a eternidade, e que por isso pagam uma factura muito alta.
- Eu quero a eternidade aqui contigo, até a noite devorar os meus olhos e acabar com as minhas dúvidas.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:50
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Segunda-feira, Setembro 03, 2007
Hugo de São Victor na fila do SEF
Enquanto aguardava a minha vez na fila do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras), o órgão policial português que controla a minha permanência e os meus movimentos em Portugal, lia no livro "Falsafa, Breve introdução à filosofia arábico-islâmica, de Mário Santiago de Carvalho", na página 24, a seguinte citação, da autoria de Hugo de São Victor:
"É um principiante ingénuo, aquele que considera que a sua pátria é doce; é forte, aquele para quem qualquer solo é como se fosse a sua terra natal; mas é perfeito todo aquele para quem o mundo inteiro é como uma terra estrangeira."
Estas palavras, lidas naquele preciso contexto, acomodaram-se ao meu entendimento como um pássaro de luz busca um espírito para iluminar. E a senha de número 044, aquela que me faria chocar mais uma vez com o muro da burocracia insidiosa da lei de imigração que promove a criminalizalização de homens e mulheres, perdeu todo o seu poder que tinha sobre mim. Não me interessa quantos papéis mais este estado exija de mim para provar a minha humanidade: eu sou, por definição, um ser humano que busca a sua libertação. Toda a terra, é terra estrangeira. Esses burocratas já não tem mais poder, já não podem mais me deixar triste. Se eu quiser ficar, eu vou ficar!
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