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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Quinta-feira, Agosto 30, 2007
Raval
Amigo, eu pensava no país ardido que tínhamos deixado para trás. A tua paisagem mais preciosa transformara-se inesperadamente numa prancha rasa, calcinada, sem memória. Eu caminhava contigo com minha mão direita sobre teu ombro direito e havia neste arco que eu projectava sobre ti um entendimento inquestionável, um daqueles que estão na origem de todas as coisas que não precisam de explicação. Tu abrandavas o passo, não fugias mais do alcance da minha mão que ama, mas que pode ferir também. "Temos de procurar um restaurante, tenho fome". E o teu desejo era o comando que eu necessitava para te buscar alimento na grande praça do mundo, na medina universal que é esta cidade, e como eu me determinava e punha nesta procura o meu espírito inquieto. "Comida halal, habibi !" E num momento eu comia com a tua gente esse alimento purificado, eu o teu homem sem fé.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:13
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Segunda-feira, Agosto 27, 2007
Na viagem
"Já estamos a 410 quilómetros de Barcelona" e muita coisa pode mudar até lá: em 410 quilómetros eu posso morrer, em 410 quilómetros é possível que descubram um novo planeta, bonito, assim como esta paisagem que vemos da janela do carro, em 410 quilómetros Julieta simula o seu suicídio, em 410 quilómetros Rimbaud escreve “Le Bateau Ivre”, em 410 quilómetros eu posso te perdoar, em 410 quilómetros eu mudo de opinião e te apunhalo no centro do teu coração com o meu verbo mais afiado, em 410 quilómetros, podes sofrer muito, a 410 quilómetros de Barcelona, dir-me-ás, na tua voz cheia de medo e espanto "És muito duro comigo, sabias", em 410 quilómetros o Sol pode desaparecer e no seu lugar surgir um simulacro de sol, belo, mas vazio de calor, a 410 quilómetros de Barcelona o meu desespero vai aumentar e sou capaz de ter mesmo um enfarte, a 410 quilómetros de Barcelona a minha mão entra na tua num aceno de paz - já agora, a 410 quilómetros de Barcelona, a vida para mim é isso: toda a possibilidade do mundo reflectida no centro dos teus olhos castanhos.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:58
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Sexta-feira, Agosto 24, 2007
A viagem
Entrei espartano no café. É sério, fiquei impressionado comigo porque não me reconheci naquele homem que se pôs à tua frente a falar polidamente sobre o compromisso da viagem, sobre o trabalho excessivo e até sobre o calor que se abatera repentinamente sobre a cidade. "É claro que vou contigo, não assumi este compromisso?" E evitámos assim a tocar no assunto que rondou aquela mesa como um animal ferido de morte no coração. A tua voz alterada, o desequilíbrio verbal e a reticência em me olhar directamente nos olhos me comoveram, eu tenho de admitir. Mas ali, naquele momento, quem estava diante de ti não era eu, mas uma coluna de mármore onde se podia ler, escrito em alto-relevo, a história das minhas indecisões. "Como estás?" Arriscaste primeiro. "Estou bem", e no exacto momento em que eu começava a pôr sobre o meu corpo cansado a armadura que iria me proteger das tuas súplicas, milagrosamente, o telemóvel tocou. E terminei a tarde contigo num breve adeus. Paguei a conta e saí. Não olhei para trás.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:01
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Terça-feira, Agosto 21, 2007
Dentro da noite veloz, nenhum poema é possível*
Sintra, sábado, 18 de Agosto de 2007, entre 00h40 e 01h21
Que tu cuerpo de hombre com mi cuerpo de hombre
construyen un lugar necesario en el mundo.
Juan António GONZÁLEZ IGLESIAS
Vou à casa de banho e interrogo-me no espelho. Tenho quarenta e um anos. Bem de perto, vejo minha imagem prisioneira dentro da pupila, eu, como um génio da lâmpada na ilha escura cercada por um mar castanho. Nesta noite posso perceber esse teu mundo vazio de projecto político, essa tua capacidade de negar aos homens a sua humanidade afectiva. Agora vejo a pronúncia veemente das nossas diferenças – tu não sabes amar, e eu tenho sede. Tu caminhas noutra direcção, e eu me pergunto “que diabos estou a fazer aqui? Que espécie de lição obscura posso aprender desse desencontro?” Olho mais de perto o ser minúsculo que sou, reflectido no espelho desta casa estrangeira, e no fundo da minha pupila afogo-me numa bandeja de ónix, a noite aqui não corre. Ouço a música que vem do quarto, e a tua voz imprecisa desenha no ar palavras sem concerto, eu sei tu sabes o novo tipo de angústia que está prestes a cair sobre nós como uma chuva de fogo bíblica, ancestral, definitiva.
Olho à minha volta, ainda estou na casa de banho e me sinto como um pássaro exótico em exibição privada, um anjo de asas vermelhas e fala aramaica. Somente isso pode explicar o facto de tu não me compreenderes. Gostas de mim sem esforço de entendimento, sem interrogação. “E como eu posso viver num mundo sem interrogação?” Eu sinto muito, sou fraco diante da fé, eu só sei duvidar. E para o meu desespero, a noite aqui não passa veloz, neste anti-poema no fim do mundo.
*exercício proposto aos meus alunos e alunas de português língua estrangeira, “a noite veloz, em cada um de nós”
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:28
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Domingo, Agosto 19, 2007
Acepto que belleza es la fulguración
natural de las cosas naturales.
Me digo que tus dientes mostrados en sonrisa
son eso. Que tus ojos me dan tanta dulzura
porque cumplen remotas instrucciones genéticas.
Que tu cuerpo de hombre com mi cuerpo de hombre
construyen un lugar necesario en el mundo.
Que nada extraordinário hay en dos que se aman.
pero, quando te abrazo una noche tras otra
y me encuentro tu pulso a oscuras en qualquiera
de los puntos que laten en tu cuerpo dormido,
cruza por mi cerebro la palabra milagro.
Juan António GONZÁLEZ IGLESIAS in: Un ángulo me basta, Visor Libros, Madrid, 2002, p.13
"Que teu corpo de homem com meu corpo de homem, constróem um lugar necessário no mundo", a poesia não tem serventia nenhuma, muitos já o disseram, mas porque então, toda a vez que vejo anunciada nas manchetes de jornal a falência do meu mundo, encontro minha salvação num livro de poesia? E sim, é com a cabeça mais calma no travesseiro que durmo hoje no meu quarto medieval.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 23:08
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Segunda-feira, Agosto 06, 2007
CIDADES
In girum imus nocte et consumimur ignI
Ás íntimas cidades só se chega
por pasiva, veñen elas a ti
cando non as procuras, aparecen
como revelación fugaz, asoman
a súa burla altiva fitando de esguello
o teu xordo trafego.
Non veñen
precedidas de sinais, non piden
outro salvoconducto
ca uns ollos ben abertos
de animal sobresaltado.
E non tes de ir moi lonxe pra saberes
que a viaxe se mide en comparanzas
co punto de partida,
que só sendo de onde es
podes ser noutros sitios.
E que ó final unicamente amas
unha cidade cando alguén hai nela
que tamén te ama a ti e que pronuncia
o teu nome estranxeiro
como ninguén o pronunciou xamais, tal se fose
a palabra secreta que cifra o teu destino.
(De Libra, de Gonzalo Navaza, por Lara do Ar, a bioluminiscente)
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:40
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Domingo, Agosto 05, 2007
Para o meu vizinho de sonhos
c.1990
bordado sobre feltro
90,0 x 38,0 cm
Hoje é um daqueles dias em que sentes uma necessidade grande de escrever, não é? Mas não consegues, não podes. Então nestas horas é que te lembras daquele pesadelo onde aparecia um pianista que tocava um instrumento mudo – e a tensão existente entre o pianista e a plateia foi, talvez, a tua primeira noção do horror que pode habitar no silêncio, sim, tu e tua alma perturbada.
Leonilson, Leo, sempre ele vem em teu auxílio com o verbo que te falta. Leonilson, Leo, ele que te mostrou como uma palavra bordada no canto branco de um tecido pode conter a odisseia de um sujeito. Leonilson, Leo, que agora te vem falar do teu vizinho de sonhos, Leonilson, Leo.
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