You dance inside my chest, é um verso isolado de um poema em seis versos de Rumi. Na tradução de Coleman Banks, John Moyne, A.J. Arberry e Reynold Nicholson, este verso ocupa a terceira linha. No meu entendimento, o lugar dele é o gume por onde entro no poema com desespero, como quem está com sede, como quem pede socorro para a compreensão do mundo. Era para escrever hoje sobre a morte de Ingmar Bergman, e só quero falar de amor, essa outra forma de morrer.
Estou dentro da canção como o sol no interior do pássaro, a noite no intestino do pêssego e a imagem atrás do espelho. Sabes, naquele momento exacto em que pode surgir o poema, aquela inquietação primordial que nos lança ao (des) entendimento do mundo? Eu estou lá agora, no topo do vulcão como diz Íria, a que sabe que não tenho fé, mas que tenho salvação, eu, dentro da canção.
Debaixo de um céu estrangeiro
sombras rosas
sombras
por sobre terra estrangeira
entre rosas e sombras
dentro de uma água estrangeira
minha sombra
Ingeborg Bachmann
Tradução de Sephi Alter
O dia não era para poesia, e nós os dois ali na terra estrangeira consumíamos o sol com a voragem dos desassossegados. Mas eu insistia, "leia o poema, rapaz, leia-o na tua língua e não na minha".E assim o fazias marcando as pausas com divergências em relação ao poeta: "mas isto não está bom!". Então eu respondia com um sorriso, "Não me interessa a tua opinião agora, quero somente ouvir na tua língua entendes?". E me compreeendias... Sim, e o dia terminava com poesia.
§ 5 Il n’y donc aucune immobilité. Le mouvement dans ce monde est continuel. Nuit et jour se succèdent, comme se succèdent les pensées, les états et les dispositions selon l’alternance de la nuit et le jour et des réalités divines en toutes ces choses…
Ibn ´Arabi, Traité de mystique musulmane, le dévoilement des efftets du voyage, Cérès Éditions, Tunis, 1999, p. 8
A tarde no campo contigo: o movimento das coisas à volta: o vento, as árvores, os animais: "Assalam malekoum" dizias aos animais e às plantas e completavas-me o entendimento "são criaturas, devemos saudá-las". Eu não compreendo as teologias, mas como é bom te ouvir falar da origem das coisas e do seu movimento perpétuo. "Tenho de te confessar uma coisa, é bom que saibas agora, não sou um crente, não tenho fé." E depois era a tua paciência em harmonizar para mim o discurso científico e a mística muçulmana: "acreditas nos eléctrons, não é? Não se pode vê-los, e deles temos somente aquilo que resta da sua passagem, entendes, Deus pode ser assim". Não eu não entendia, porque os homens sem fé sofrem a sua condenação às claras e em público são tocados pelo pavor de não poder ver além das estrelas, e nem dos eléctrons. "Não me olhes assim, peço-te, porque senão vou te abraçar e te beijar, homem sem fé." E depois disso mergulhei nos teus olhos, enquanto no campo à volta a Natureza cumpria a perfeição misteriosa do seu desígnio.
O meu nome de pronúncia difícil, nunca sabem como dizê-lo, riem-se dele, da sua sonoridade percutiva, da sua desinência em "a". O meu nome estrangeiro pronunciado na vossa língua ganha tantas ortografias que já não sei mais escrevê-lo. O meu nome estrangeiro desarticulado e ofendido na vossa língua, "Vocês têm nomes tão curiosos no vosso país". Mas o meu nome pronunciado por ti, com amor, é tão bonito nesta tua língua (também ela já tão estrangeira) que me sinto como se o ouvisse pela primeira vez: o meu nome na tua língua é um poema antepassado, de antes do dilúvio, semítico e recuperado, e ainda posso ouvi-lo no meu quarto medieval, e bate como um sino na parede branca do meu entendimento.
ontem estive com aqueles meus amigos e amigas para a (re)leitura de um outro romance da Clarice Lispector. "Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres", um outro livro perturbador que começa numa vírgula e termina em dois pontos. Na verdade é o que parece, porque para mim o livro começa no título e termina nos dois pontos, ou não termina nunca. Seja como for, escrevo porque queria dizer que esse ciclo de leitura começou para mim no domingo anterior, naquele dia que nos encontrámos no Príncipe Real. É sempre estranho para mim como nós, os seres humanos, vamos organizando as significações da memória, a suas hierarquizações, as suas preponderâncias. Lembrar-se daquilo que verdadeiramente gostámos não é somente um exercício de prazer, é de entendimento também. Entendimento sobre o que tem importância ou não. Acho que poderia ter escolhido outro tema para te escrever, e não este, o da leitura dentro da leitura, que revela outra leitura. O meu defeito é intelectualizar de mais os sentimentos e escrever tudo isto que está acima ao invés de simplesmente dizer:
- gostei muito de namorar contigo na relva do parque.
Desta vez, fizemos a leitura na praia da Draga, mar violento, muito sol, e profissionais da praia, aquela gente que vai ao sol com o compromiso de ficarem bronzeadas. Eu não, eu sou amador, gosto da praia no final, quando não tenho responsabilidades nenhumas com o sol, e nem com ninguém, a não ser, talvez, comigo e com a minha memória; e sendo assim, deitado na areia, senti-me como se estivesse sobre a relva num parque no centro da cidade.