|
Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
|
Quarta-feira, Maio 30, 2007
É geral, e eu também estou nela.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:03
Comentários:
Terça-feira, Maio 29, 2007
A Nova Tróia: terra de todos e todas?
"Bem nos lembramos, companheiros, todos dos males que sofremos até hoje; já o pior passámos, algum deus a tudo isto dará também o seu fim. A fúria do que é Cila vistes vós, o profundo soar de seus rochedos como também sabeis da penedia que a nós homens nos lembra dos Ciclopes. Recobrai, pois, os ânimos, deixai o que nos pôs outrora tanto medo; talvez até um dia nos alegre lembrar o que connosco se passou, com tantos incidentes, tanta coisa, ao Lácio navegamos, os Fados nos mostram termos sossegado pouso em que podemos ver de novo Tróia. A tudo suportai, vos conservai para os dias felizes que virão."
Virgílio in: Eneida, Livro I, tradução de Agostinho Silva, Temas & Debates, Lisboa, 1997, pp. 144
Para quê serve, afinal, um "Cânone Ocidental" se ele não nos ajuda a reflectir sobre a realidade do ser humano? A epopeia descrita na Eneida acontece hoje em qualquer lugar do planeta onde homens e mulheres estão em deslocamentos, forçados ou não. O herói fragmentou-se em mulheres e homens reais, sem reinos, anónimos e sem passaporte. Confortar-me-á o espírito a voz de Eneias que atravessa os séculos e me chega agora? Não, mas de alguma maneira fortalece o meu entendimento crítico em relação às políticas cada vez mais restrictivas aos movimentos humanos na "Europa Fortaleza"; a voz de Eneias é precisa no ponto: Tróia ficou para trás na lembrança de uma cidade consumida em chamas. A outra Tróia (Europa) é construída com o esforço desses homens e mulheres deslocados. É a voz deles que ouço quando Eneias me fala. Não sei explicar melhor.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 02:25
Comentários:
Sábado, Maio 26, 2007
Homosexualité et révolution
[Daniel Guerin]
Daniel Guérin est né à Paris, le 19 mai 1904. Au moment où il a composé ce Cahier, à la demande du Vent du Ch'min, il était donc entré dans sa quatre-vingtième année. Par ses parents, il est d'origine bourgeoise libérale. Mais à vingt-six ans, il a rompu ses amarres et il est entré dans le mouvement révolutionnaire. Il explique dans ce Cahier comment ses rapports sexuels avec de jeunes ouvriers l'ont familiarisé avec la lutte des classes. Il a été tout à la fois, ou successivement, syndicaliste révolutionnaire, socialiste de gauche, sympathisant trotskyste, enfin communiste libertaire.
Son tempérament militant l'a amené à combattre le colonialisme et le fascisme, en même temps qu'il prenait publiquement la défense des homosexuels victimes des préjugés puritains. Cette demière vocation l'a amené, après la crise de Mai 68, à laquelle il a participé activement, à rejoindre feu le Front homosexuel d'action révolutionnaire (F.H.A.R.). En revanche, il se montre d'une extrême sévérité à l'égard des homosexuels de droite qui évitent de s'assumer et contribuent ainsi à perpétuer le « tabou ».
Bisexuel, comme l'était son père, Daniel Guérin est veuf, père et grand-père.
68 pages
Edition : 1983
Para uma educação militante contra toda e qualquer opressão.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:31
Comentários:
Sexta-feira, Maio 25, 2007
O dominó de Arquíloco: ditirambo
Mesmo tendo a mente fulminada pelo vinho, o meu verbo não se perde e nunca entra em desacordo com a dignidade do meu desejo. É por isso que a minha língua canta nesta mesa de bar a liberdade pela pulsão do amor irrestrito, na comunhão da carne com o espírito. E depois de tanto falar, de tanto olhar na vastidão dos teus olhos negros, só me resta te perguntar:
- na minha cama ou na tua?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:22
Comentários:
Quarta-feira, Maio 23, 2007
O dominó de Arquíloco ou conversa de bêbado
Para iniciar o belo canto do senhor Dionysos
sei o ditirambo, eu que tenho a mente fulminada pelo vinho.
[fr. 120 W] *
* Tradução de Celina F. Lage
É Arquíloco de Paros, o mesmo que disse sobre a raposa saber muitas coisas, e o ouriço saber uma coisa muito importante, e que estimulou o raciocínio de Isaía Berlin a problematizar a obra de Tolstói na perspectiva pluralista ou monista (uma raposa, um ouriço?) que chegou à boca de uma personagem de Woody Allen que dividia a competência dos homens na cama em: raposas e ouriços, e que finalmente chega aqui, nesta página, com outro fragmento que pode abrir outra janela, ou não:
Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:23
Comentários:
Terça-feira, Maio 22, 2007
"La tour frappée par la foudre"
Un día contarás que viches cos teus ollos
sucumbir con estrépito os símbolos e os muros
e o cadro apocalíptico que debuxou o naipe
do arcano dezaseis no tapete do mundo.
Dirás do teu asombro, do pánico das bolsas,
do arrepío que ascende polo espiñazo arriba,
do temor de que acaso serán moitas as cousas
que xamais han de ser do xeito que eran antes.
Mais se gardas os fíos que han tecer o relato
que no incerto futuro se lembrará das horas
destes tempos inquietos, garda tamén esoutros
que falan das nacións condenadas a morte,
das riolas da fame a atravesar fronteiras,
das farturas que move o comercio da guerra
e as macabras colleitas dos campos de minas,
das mulleres sen rostro que sofren en silencio,
das balsas da miseria buscando a banda oposta
e o brazo multiforme das necias ambicións.
Algún día serán só cousas do pasado.
Pero o presente é tempo de non calar a boca,
e mais de preguntar en mans de quén estamos
e lembrar as palabras daquel romano antigo:
que a paz xusta é mellor ca todas as victorias.
¡ Que Alá misericorde nos dea sentidiño !
Gonzalo Navaza
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:27
Comentários:
Segunda-feira, Maio 21, 2007
Eu ia andando pela Avenida Copacabana e olhava distraída edifícios, nesga de mar, pessoas, sem pensar em nada. Ainda não percebera que na verdade não estava distraída, estava era de uma atenção sem esforço, estava sendo uma coisa muito rara: livre. Via tudo, e à toa. Pouco a pouco é que fui percebendo que estava percebendo as coisas. Minha liberdade então se intensificou um pouco mais, sem deixar de ser liberdade. Não era tour de propriétaire, nada daquilo era meu, nem eu queria. Mas parece-me que me senti satisfeita com o que via.
Clarice LISPECTOR in: Felicidade Clandestina, Francisco Alves Editora, Rio de Janeiro, 1994, p. 48
Para o Guilherme que mora em S.Paulo e que pode imaginar o mar, quando o mar não está.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:34
Comentários:
Quinta-feira, Maio 17, 2007
Pretérito Perfeito Simples
Ontem cortei o cabelo à máquina dois, fiz a barba, pus uma t-shirt branca simples com um desenho dos anos 80, o meu jeans mais surrado e fui ao cinema. Senti-me bonito e interessante. Cheguei à cinemateca, sentei-me e pedi uma cerveja. Li dois capítulos de um romance do Bernardo Guimarães antes da sessão começar. Pensei: "fico mais tranquilo agora que tenho a certeza de que ele não gosta de mim, melhor assim, estou livre para aproveitar sozinho esse sentimento. Ele é o único que não tira proveito." Um pouco antes da sessão começar dirigi-me à sala. No ecrã "Couro de Gato" e "Macunaíma" do Joaquim Pedro de Andrade. Emocionei-me a ponto de chorar. Saí do cinema e pensei: "Foi por isso que fiquei bonito, para ver estes dois filmes, para ter este encontro comigo mesmo e com a minha cultura". Voltei para casa, tomei um chá e dormi em seguida. E sonhei, sonhei sobre um texto chamado Pretérito Perfeito Simples.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:23
Comentários:
Terça-feira, Maio 15, 2007
"Nós, que estado non temos, podemos emprender voos internacionais
e atopar bo consolo na estraña inmensidade do estranxeiro."
María do Cebreiro
A poesia da Maria é como um mapa desenhado no ar. Estranha essa terra galega, onde a sua gente escreve no impoderável aquilo que os outros, de arqueologia mais rígida, sem leveza, preferem escrever na pedra. Uma poesia/mapa que voa e se converte numa espécie de tapete que transporta a história para todos os lugares.
Quem tiver ouvidos, que ouça, porque esta voz singular (convertida em voz colectiva) estará entre nós no próximo dia 17 no recital poético-musical Reflexos, às 20h30, na Sala dos Espelhos do Palácio Foz, em Lisboa. Será um desses momentos raros, onde a geografia desenhada no ar ganha corpo por uns momentos, antes de levantar o seu próximo voo:
- Passáro belo e estranho é essa María.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:16
Comentários:
Segunda-feira, Maio 14, 2007
Há quinze minutos te espero
e o mundo cumpre sua trajectória
o planeta gira
enquanto uma mulher
aguarda ansiosa
a criança corre
atrás da bola
e o filósofo
termina o ensaio.
Há quinze minutos te espero
e nos olhos da moça
aponta uma lágrima
o menino
desiste da bola por causa
da borboleta
e o filósofo
zangado
rasga o seu texto.
Há quinze minutos te espero
e o mundo já é outro.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:22
Comentários:
Sábado, Maio 12, 2007
Um "meme" é um "gene cultural" que envolve algum conhecimento que passas a outros contemporâneos ou a teus descendentes. Os memes podem ser ideias ou partes de ideias, línguas, sons, desenhos, capacidades, valores estéticos e morais, ou qualquer outra coisa que possa ser aprendida facilmente e transmitida enquanto unidade autónoma.
Em resposta à provocação da Helena na sua cabotagem
"O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos."
João Cabral de Mello Neto
que passo a:
Perto do Coração Selvagem
O Véu de Maya
Monólogos de Extramuros
Cigarretes and Vinyl
Papel de Rascunho
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:56
Comentários:
Quinta-feira, Maio 10, 2007
"Sinto hoje, no coração, um vago tremor de estrelas"
(Lorca)
Um amigo me escreve de longe este verso de Lorca. A verdadeira amizade comporta elementos místicos de premonição. Este meu amigo, que agora está longe, não sabe, mas com o verso de Lorca reposicionou-me no tabuleiro da vida. Não a grande Vida, aquela que é matéria da filosofia superior, aquela de tratam os filósofos e os homens santos, não; a vida a que me refiro é essa pequena que cabe no quadro da nossa experiência quotidiana: ir ao mercado comprar peixe para o jantar, buscar o cheque do pagamento, dizer olá à vizinha velha, que tem dificuldades em subir as escadas, pensar em ir ao cinema, mais à noitinha, e chamar aquele que amamos para nos acompanhar. O verso de Lorca, via meu amigo, fez-me isso:
"pôs no meu coração, um vago tremor de estrelas".
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:44
Comentários:
Quarta-feira, Maio 09, 2007
Estava lá Aquiles, que abraçava
Estava lá Aquiles, que abraçava
Enfim Heitor, secreto personagem
Do sonho que na tenda o torturava;
Está lá Saul, tendo por pagem
Davi, que ao som da cítara cantava;
E estavam lá seteiros que pensavam
Sebastião e as chagas que o mataram.
Nesse jardim, quantos as mãos deixavam
Levar aos lábios que os atraiçoaram!
Era a cidade exata, aberta, clara:
Estava lá o arcanjo incendiado
Sentado aos pés de quem desafiara;
E estava lá um deus crucificado
Beijando uma vez mais o enforcado.
Mário Faustino, Os melhores poemas de Mário Faustino, seleção de Benedito Nunes, Global, São Paulo, 1985, p. 27
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:28
Comentários:
A flor está lá, sei disso,
mas até quando devo esperar
pela primavera que não chega?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:33
Comentários:
Segunda-feira, Maio 07, 2007
TREZE VERSOS
E finalmente pronunciaste a palavra
não como quem se ajoelha,
mas como quem escapa da prisão
e vê o sagrado dossel das bétulas
através do arco-íris do pranto involuntário.
E à tua volta cantou o silêncio
e um sol muito puro clareou a escuridão
e o mundo por um instante transformou-se
e estranhamente mudou o sabor do vinho.
E até eu, que fora destinada
da palavra divina a ser a assassina,
calei-me, quase com devoção,
para poder prolongar esse instante abençoado.
Akhmátova, Anna, in: Anna Akhmátova - Poesia: 1912-1964, Tradução de Lauro Machado Coelho, Editora L&PM, Porto Alegre, 1991.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:51
Comentários:
Sábado, Maio 05, 2007
CHE FECE... IL GRAN RIFIUTO
(1901)
A ciertas personas llega un dia
en que deben decir el gran Sí o el gran No.
Pronto aparece quien dentro lleva
presto el Sí, y diciéndolo prosigue
adelante en sua honor y própria conviccíon.
Quien dijo No, no se arrepiente. Si de nuevo le preguntaran,
diria no outra vez. Pero esse No - legítimo -
para toda su vida lo avasalla.
Cavafis, C. P. in: Poesia Completa, traduccíon Pedro Bádenas de la Peña, Alianza Editorial, Madrid, 1994, p. 106
Há anos li este poema, na época causou-me espanto e a sua dimensão moral, peremptória, de certa maneira agiu sobre mim como uma sombra preventiva, algo que me alertasse e protegesse das más escolhas. O poema continua bom, mas Cavafis "mente" no desejo cego do acerto. Eu já disse Não uma vez. Se me perguntassem novamente, eu diria Sim, pedia perdão, e seguia adiante. Porque as coisas mudam, mudam as realidades e mudamos nós com elas.
- O Amor é fabuloso, e nos dá um olhar a mais, um olhar allende !
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:12
Comentários:
Sexta-feira, Maio 04, 2007
Minha irmã, novamente os homens voltam ao teu cadáver. Mataram-te exactamente para isso, para te usar mais e mais. Necrofilia (?) Quantos deitaram contigo em vida, quantos continuarão de fazê-lo mais, agora em morte? Como ganham contigo. Outro chamamento, mais um livro sobre ti, sem ti. Mais um homem, os teus inimigos. Até aqui, neste texto, corro eu a indelicadeza de te incomodar no reino dos mortos. Haverá descanso algum dia?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:07
Comentários:
Quinta-feira, Maio 03, 2007
Rimbaud andou por aqui, fez comércio de café, dizem. Atravessou desertos e, à noite, provavelmente, ao observar as estrelas, não sentia falta da poesia. "Às vezes é melhor sonhar um quadro do que pintá-lo". Vou contar-te um segredo, queria andar contigo pelas ruas de Harar. Não! Para ser bem sincero, queria andar contigo pelas ruas do mundo.
|
|