finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Quinta-feira, Abril 26, 2007

 
25 no dia 26



Quem escreve aqui sou eu, o Carlos Alvarenga e não o Oscar Mourave, ele é criação minha. E sendo a minha criação, por vezes se afasta de mim. Ele é projecção daquilo que eu queria ser. Mas não é eu. Ontem quem desceu a Avenida da Liberdade com a bandeira da igualdade na mão e no verbo fui eu, não ele, que provavelmente teria feito um post comemorativo. Quem tem de enfrentar (com medo) a violência skin, a agressão moral e às vezes física destes homens carecas que andam pelo meu bairro em Lisboa sou eu, o Oscar é uma testemunha sempre protegida. Quem entra nas salas de aula para ensinar português para imigrantes sem papeis, e senta-se à mesa dos paquistaneses à hora do jantar e, "bismillah", come com eles o pão conquistado sou eu, não o Oscar, o laico. Ele prefere falar do mundo islâmico invocando os seus clássicos, provavelmente até articularia aqui um pensamento de Ibn Arabi. Quem teve namoradas e namorados fui eu, o Oscar está solitário e temo que comece a gostar disso. Quem viu a felicidade em Mahdia e com ela pode falar do futuro fui eu, "Eu te amo, meu amigo, sabias?" o Oscar preferiu escrever cartas amorosas. Quem fica horas na fila do SEF (Serviço de Estrangeiros e Fronteiras) uma vez por ano para saber se "merece" ficar em Portugal ou não sou eu, o Oscar presume disso uma indignidade, mas nunca lá foi. Quem tem de dar uma resposta, fazer uma acção afirmativa ou se tornar o chato da festa que fica mal na fotografia sou eu, todas as vezes que um pequeno crime contra o outro, ou contra mim, é cometido. O Oscar teoriza, e bem, sobre isso. Quem tem de copiar, e muito mal, esta perturbação borgeana sou eu, e não o Oscar, que acharia isso abominável, para não dizer um roubo. Eu e o Oscar somos revolucionários, cada um na sua forma, mas eu desconfio que o Oscar tem a certeza sobre isso. Eu não, eu sofro a inquietação de pensar que faço muito pouco para mudar a merda deste mundo,

o Oscar jamais teria usado aqui palavra merda.



Carlos Alvarenga



Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:14 Comentários:

Terça-feira, Abril 24, 2007

 



OS DOIS ESTRANHOS



Todos os amantes terminam separados.
O amor é um barco que veleja
a maré que se levanta quando a balsa fende a água unida na
laguna que suga os clarões da terra
o avanço de uma hélice na noite estrelada.
Aos que viram o dia abrir-se como uma cauda de um pavão
ou atravessam a tarde coberta de escamas
aos que ficam abraçados em camas estreitas
e partilham a respiração do êxtase ouvindo uma torneira gotejar
na sombra
está reservada a separação
como uma tatuagem que o tempo inscreve na anca bem-amada.
A porta antes fechada se abre para sempre
para que os corpos se cruzem e não se reconheçam.
Amor é escuridão. E quando a luz se acende
somos dois estranhos que evitam olhar-se.



Lêdo IVO in: Curral de Peixe,Topbooks, Rio de Janeiro, 1995, p. 24




Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:51 Comentários:

Segunda-feira, Abril 23, 2007

 



CANCIÓN PARA EL CHICO DE MIS SUEÑOS



Pequeño Iggy Pop
dame tu corazón.

Pequeño Bruce Springsteen
dame también tus bíceps.

Brett Anderson pequeño
dame todos tus besos.

Oh pequeño Bob Dylan
dame toda tu vida.

Toma toda mi vida
mi pequeño Bob Dylan.

Toma todos mis besos
Brett Anderson pequeño.

Toma también mis bíceps
pequeño Bruce Springsteen.

Pequeno Iggy Pop
toma mi corazón.


Juan Antonio González IGLESIAS in: Un ángulo me basta, Visor Libros, Madrid, 2002, p. 51



Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:56 Comentários:

Sábado, Abril 21, 2007

 
Ese alguén de meu que nunca volve
á auga da infancia
sin saber saír do laberinto.

Álvaro Cunqueiro




É num trecho, isolado, de um poema de Álvaro Cunqueiro que sempre fico quando tu passas ao meu lado e me perguntas como estou, se vou bem, e o que tenho feito. Sorrio sempre, e sempre minto, "estou bem, tenho tido muito trabalho". E ensaio, sem o talento da convicção, um ar blasé e sigo conversando com os meus amigos. Tu vais e levas metade do meu espírito contigo. A melhor metade, aquela que contém os sonhos da juventude, a que retém os erros acertados, a que aprendeu a amar o solpor na solidão, a que leu os livros proibidos, a que sobreviveu à educação do pai violento ancestral, a que se apaixonou perdidamente por um prelúdio de Shostakóvitch e ouviu sozinho o despertar dos pássaros no oásis de Ait Semgane. É essa, sempre, a minha parte, o meu melhor lado, que te segue como um cão amestrado, faminto de afecto, estejas onde estiveres. A minha outra parte, aquela que me é fiel e vive na sombra dos dias mortos, tem de trabalhar para me manter vivo, é tão árduo o seu labor porque vivenvo à sombra das coisas tem de me levar à luz. Essa minha parte obscura, que gosta de pôr o meu coração na ponta de uma faca, tem a inteligência regeneradora do amanhã: numa questão de tempo, construirá para mim uma outra parte semelhante e boa, que vai fugir, invariavelmtente em busca de outro, e de mais outro, e outro ainda.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:38 Comentários:

Sexta-feira, Abril 20, 2007

 


Há umha certa luz incomprensível na distáncia: o cadáver esquisito ou o nosso Gólem colectivo?


Há umha certa luz incompreensível na distáncia
como umha porta de cristal fechada
uma palavra no abismo da língua
tócate, sen sabelo, esvara
o conto é decidir cando acabar
un home do sur preguntoulle se quería viaxar
e ela considerou pasos cegos e desertos
Avanzou en círculos, até os límites da súa propia sombra
onde ofereceu a todos a maçã vermelha do seu peito


Igor Lugris
Eugénio Outeiro
Oscar Mourave
lara do ar
María do Cebreiro
Xiana Arias
Eduardo Estévez
Tati Mancebo
Alfredo Ferreiro



Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:29 Comentários:

Quinta-feira, Abril 19, 2007

 


"They're in love. They're gay. They're penguins...
And they're not alone"


Uma outra marcha dos pinguins é possível. Para aqueles e aquelas não ficarem a pensar nos afectos como realizáveis numa única direcção. Ah, a sábia Natureza! Ah, os homens estúpidos que usam a biologia do Século XVIII para referendar as suas opiniões neo-conservadoras.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:00 Comentários:

Terça-feira, Abril 17, 2007

 



Mitad y mitad


Había una muchacha que vivía cerca de mi casa. La gente del pueblo hablaba de ella como una de las otras, «of the Others». Decían que durante seis meses era una mujer que tenía una vagina que sangraba una vez al mes, y que durante los otros seis meses ella era un hombre, tenía un pene y orinaba de pie.
La llamaban mitad y mitad, mita' y mita', ni lo uno ni lo otro sino una extraña duplicación, una desviación de la naturaleza que horrorizaba, una obra de la naturaleza invertida. Pero existe un aspecto mágico en la anormalidad y en la llamada deformidad. Según el pensamiento mágico-religioso de las culturas primitivas se creía que las personas mutiladas, locas y sexualmente diferentes poseían poderes sobrenaturales. Para ellos, la anormalidad era el precio que una persona debía pagar por su - de él o de ella - extraordinario don innato.
Hay algo irresistible en ser hombre y mujer a la vez, en el tener acceso a ambos mundos. En contra de algunos dogmas psiquiátricos, los mitad y mitad no sufren una confusión de identidad sexual, o una confusión de género. Lo que sufrimos es una absoluta dualidad despótica que dice que sólo somos capaces de ser uno u otro. Se afirma que la naturaleza humana es limitada y que no puede evolucionar hacia algo mejor. Pero yo, como otras personas queer, soy dos en un único cuerpo, tanto hombre como mujer. Soy la encarnación de los hieros gamos: la unión de contrarios en un mismo ser.


Gloria Anzaldúa






Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:16 Comentários:

Segunda-feira, Abril 16, 2007

 



Borderlands/La Frontera: la nueva mestiza


Vivir en la Frontera significa que tú
no eres ni hispana india negra española
ni gabacha, eres mestiza, mulata, híbrida
atrapada en el fuego cruzado entre los bandos
mientras llevas las cinco razas sobre tu espalda
sin saber para qué lado volverte, de cuál correr;

Vivir en la Frontera significa saber
que la india en ti, traicionada por 500 años,
ya no te está hablando,
que las mexicanas te llaman rajetas,
que negar a la Anglo dentro tuyo
es tan malo como haber negado a la India o a la Negra;

Cuando vives en la frontera
la gente camina a través tuyo, el viento roba tu voz,
eres una burra, buey, un chivo expiatorio,
anunciadora de una nueva raza,
mitad y mitad -tanto mujer como hombre, ninguno-
un nuevo género;

Vivir en la Frontera significa
poner chile en el borscht,
comer tortillas de maíz integral,
hablar Tex-Mex con acento de Brooklyn ;
ser detenida por be la migra en los puntos de control fronterizos;

Vivir en la Frontera significa
que luchas duramente para
resistir el elixir de oro que te llama desde la botella,
el tirón del cañón de la pistola,
la soga aplastando el hueco de tu garganta;

En la Frontera
tú eres el campo de batalla
donde los enemigos están emparentados entre sí;
tú estás en casa, una extraña,
las disputas de límites han sido dirimidas
el estampido de los disparos ha hecho trizas la tregua
estás herida, perdida en acción
muerta, resistiendo;

Vivir en la Frontera significa

el molino con los blancos dientes de navaja quiere arrancar en tiras
tu piel rojo-oliva, exprimir la pulpa, tu corazón
pulverizarte apretarte alisarte
oliendo como pan blanco pero muerta;

Para sobrevivir en la Frontera

debes vivir sin fronteras
ser un cruce de caminos.



Gloria Anzaldúa (1942-2004), activista lésbica chicana, poeta e feminista queer.


Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:40 Comentários:

 


A praça. A praça do mundo. A praça do mundo aberta. A praça do mundo aberta com um homem. A praça do mundo aberta com um homem que olha. A praça do mundo aberta com um homem que olha para dentro. A praça do mundo aberta com um homem que olha para dentro de si próprio e se esquece de ver que todo mundo está na praça do mundo.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:03 Comentários:

Sábado, Abril 14, 2007

 
Hotel Terminus, 184, Boulevard Ba H'mad, Casablanca



É mesmo uma ironia o nome deste hotel: assinalar aqui e não noutro lugar que a nossa relação não tem condições de prosseguir. Olha as paredes deste quarto, quanta decadência! Reparaste nos homens no café da esquina? Há qualquer coisa no olhar deles que me fez pensar que não merecemos estar aqui, que somos um erro fatal do qual nenhum dos dois conseguirá se livrar. Não fiques e nem andes mais comigo. Volta para o teu país devastado, para a tua língua cheia ambiguidades, para os teus sonhos de encomenda. Eu continuo na viagem, porque não sei estar de outra maneira.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:05 Comentários:

Quinta-feira, Abril 12, 2007

 
Casablanca


Quem te disse que a cidade não poderia ser assim? Os autocarros velhos, o barulho constante, as cervejarias obscuras e o prazer incontinente ao dobrar da esquina. Tu sabias sim que tipo de livro eu era, e qual a história que o meu corpo narrava num movimento assistemático ao qual julgavas poder atribuir algum ritmo: eu não faço sentido, nunca fiz. Uma cidade para mim sempre foi isso, o vai-e-vem, a música atonal. Vamos àquela outra cervejaria, preciso beber mais e te contar um segredo:




Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:56 Comentários:

Quarta-feira, Abril 11, 2007

 


Há dias em que a chuva é pouca, o sol não aquece, a criança não sorri, o telefone não toca e o pássaro não descreve um arco no céu. Há dias em que não começamos um livro, não terminamos um poema e deixamos de escrever para alguém aquela carta que faria toda a diferença do mundo. Há dias em que não rimos do humor alheio, não nos comovemos com a vitória da justiça e nem nos sentimos indignados quando um crime é cometido contra o homem mais frágil: há dias que somos mesmo fracos. Há dias em que desistimos de amar para sempre, abandonamos uma cidade e não aceitamos mais convites para sair. Há dias assim como hoje.

- Que bom que somos humanos, porque noutro dia qualquer, inexplicavelmente, podemos mudar completamente e brilhar na lição dos poetas: com um sol no lugar do coração e uma nuvem no lugar da língua.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:37 Comentários:

Segunda-feira, Abril 09, 2007

 


Ouarzazate


Atravessámos o Vale do Draâ num carro alugado. Ele dormia sobre o meu peito. Não, ele fazia uma casa no meu coração. Não, ele trocava de alma comigo. Não, ele fingia que me amava. Não, ele era meu cúmplice num assalto. Não, ele era eu disfarçado de mim. Não, ele descumpria as regras. Não, ele era as regras do jogo. Não, ele era um ensaio sobre a lucidez. Não, ele era a cólera de Deus. Não, ele queria entrar de mãos dadas comigo no Paraíso. Não, ele escrevia crítica literária num jornal de província. Não, pensando bem, ele tinha olhos negros que me perturbavam muito, mesmo quando adormecidos sobre o meu peito, no exacto momento em que o Draâ desaparecia no deserto.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:48 Comentários:

Domingo, Abril 08, 2007

 


Não tenho bens de acontecimentos.
O que não sei fazer desconto nas palavras.
Entesouro frases. Por exemplo:


- Imagens são palavras que nos faltaram.
- Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem.
- Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser.


Ai frases de pensar!

Pensar é uma pedreira. Estou sendo.
Me acho em petição de lata (frase encontrada no lixo)
Concluindo: há pessoas que se compõem de atos, ruídos, retratos.
Outras de palavras.
Poetas e tontos se compõem com palavras.


Manoel de Barros


A fanopeia em Barros que me chega à la gauche, o domingo em Lisboa que entardece triste e nublado, a visita a um amigo hospitalizado, o encontro com os meus outros amigos, paquistaneses, e à mesa: "bismillah". O meu coração sem verso. E essa vontade absurda de não existir. Mas é-nos impossível, existimos mesmo quando em petição de lata.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:25 Comentários:

Quinta-feira, Abril 05, 2007

 



April is the cruelest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.

T.S. Eliot



Memória e desejo: eu sei tu sabes o preço pago por tanta felicidade: o lugar conquistado no topo das esferas: o sono sagrado no cume do vulcão. O que ganhaste, Jonas? A possibilidade de narrar a memória, de contar a felicidade vivida: e então, na crueldade dos dias mortos encontras alguém disposto a ouvir-te cantar a glória dos dias plenos. E choras, porque a Primavera é isso mesmo, um arco solitário cujo vão é preenchido pela memória e desejo.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:15 Comentários:

Quarta-feira, Abril 04, 2007

 


The April Fools


"He has a wife. She has a husband. With so much in commom, they just have to fall in love."

Mesmo não tendo muito em comum, quem é que já não desejou o proibido, o interdito ou o aparentemente impossível? Apesar do meu bom humor de sempre, Abril continua a ser o mais cruel dos meses.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:53 Comentários:

Segunda-feira, Abril 02, 2007

 



Consciousness expresses itself through creation. This world we live in is the dance of the creator. Dancers come and go in the twinkling of an eye but the dance lives on. On many occasion when I am dancing, I have felt touched by something sacred. In those moments, I felt my spirit soar and become one with everything that exists. I become the stars and the moon. I become the lover and the beloved. I become the victor and the vanquished. I become the master and the slave. I become the singer and the song. I become the knower and the known. I keep on dancing then it is the eternal dance of creation. The creator and the creation merge into one wholeness of joy. I keep on dancing... and dancing... and dancing, until there is only... the dance.


Michael Jackson, in: Dangerous, p. 02, Sony Music, Austria, 1991


Não me interessam os escândalos e nem as teses sobre o seu embranquecimento. Não me interessa a sua riqueza e nem os disparates proporcionados por ela. O que me encanta é a importância do seu projecto artístico que mudou o rumo do pop e fez com que todo o mundo dançasse a sua música, por décadas. Envelhecemos os dois, cada um na sua, como se costuma dizer no meu país, but keep on dancing... até não restar mais nada a não ser a própria dança.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:00 Comentários:

 

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