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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Quarta-feira, Fevereiro 28, 2007
Instrucciones para llorar
Dejando de lado los motivos, atengámonos a la manera correcta de llorar, entendiendo por esto un llanto que no se ingrese en el escándalo, ni que insulte a la sonrisa com su paralela y torpe semejanza. El llanto medio u ordinário consiste en una contracción general del rostro y un sonido espasmódigo acompañado de lágrimas y mocos, estos últimos al final, pues el llanto se acaba en el momento en que uno se suena energicamente.
Para llorar, dirija la imaginación hacia usted mismo, y se esto le resulta imposible por haber contraído el hábito de creer en el mundo exterior, piense en un pato cubierto de hormigas o en esos golfos del estrecho de Magallanes en los que no entra nadie, nunca.
Llegado el llanto, se tapará com decoro el rostro usando ambas manos con la palma hacia dentro. Los niños llorarán com la manga del saco contra la cara, y de preferência en un rincón del cuarto. Duración media del llanto, tres minutos.
CORTAZAR, Julio, Historias de cronopios y de famas, Ed. Suma de Letras, Madrid, 2000, p. 14
Para mim o choro vem a desoras - interrompendo o meu sono - , e normalmente chega acompanhado de um estreitamento no coração. É na vigília que se realiza o meu sofrimento. Levanto-me, vou à casa de banho, vejo a minha imagem distorcida pelo espelho e digo em voz baixa um verso qualquer, pode ser meu, pode ser de outro, normalmente é um fragmento triste - como "Abril é o mais cruel dos meses" -, e começo a chorar, com lágrimas sempre e soluços, às vezes. Lavo o rosto, tomo uma aspirina (nunca sei exactamente o porquê) e volto para cama com alguma sensação de alívio. Demoro a dormir. Antes porém penso que queria ter alguém ao meu lado. Abraço o travesseiro e durmo. Ultimamente, isso me tem acontecido três vezes por semana. O epicentro é sempre às quintas-feiras, embora uma ou duas vezes já me tenha ocorrido numa terça-feira.
E sim, já me aconteceu de sonhar por cinco vezes que estava perdido em um dos golfos esquecidos do Estreito de Magalhães. Num dos pesadelos eu podia ouvir, do fundo branco de uma paisagem em desfiladeiro, a voz do meu pai morto a me chamar para as nossas lições de matemática: foi com pavor que despertei naquela noite. E o choro foi o mais triste de todos.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:09
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Sábado, Fevereiro 24, 2007
West Hollywood
Os jornais com suas mentiras
o café sempre com o mesmo gosto
assim cumpro os rigores secretos
de uma vida mesquinha
na província onde não se permite
a fantasia
às vezes leio filosofia
e outras vezes vou ao cinema
então algo de estranho acontece:
imagino habitar contigo
uma cidade improvável num país
distante
e penso em nós como um quadro
uma pintura de algum artista moderno
em moldura extravagante
e no vértice do meu devaneio
não me importa de quem é a cidade
se dos homens ou dos anjos
desde que seja a tua mão
e não a de outro
aquela que encontra abrigo
nos meus ombros.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:00
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Quarta-feira, Fevereiro 21, 2007
Anotação I
* сейчас я могу говорить...
Não sabes ainda o que é isso que se organiza nos bastidores do teu entendimento. Nem toda história começa com um " *agora eu posso falar..." porque quase nunca podemos falar. Mas está em ti uma espécie de movimento que te mantém suspenso sobre o abismo, evitando a queda - mas preservando a vertigem da queda. Talvez nalgum século passado chamassem a isso de amor, talvez não. Não sabes, mas ontem no escuro do teu quarto medieval choraste com a visão de uma cesta de romãs num poema que narrava um banquete asiático: e te sentiste estrangeiro no teu quarto: e quiseste fugir e habitar uma outra língua para poderes dizer:
- сейчас я могу говорить...
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:49
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Terça-feira, Fevereiro 13, 2007
Le Cercle Noir de Malevitch
Perturbador mesmo é idealizar um círculo na presunção de liberdade e descobrir, afinal, que ele é cativo do quadrado. A geometria não pode descrever o que se é livre. E a liberdade? Não a perdemos exactamente quando partimos para a interrogação? Interrogar-se é a nossa primeira queda
- e paradoxalmente a nossa redenção.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:24
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Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007
The Straight Mind
Os periódicos e as consciências já se adiantaram na interpretação da descoberta mais recente perto de Mantova, um enterro duplo do período neolítico. "Trata-se de um casal, sem dúvida, um homem e uma mulher" se pode ler em alguns jornais. Há outros porém, mais abertos à realidade das coisas, que dizem que isso ainda precisa de comprovação. É bom saber que aos poucos a comunidade científica, feita por homens e mulheres, permite-se questionar. Assim a ciência avança. Nada é garantido, a não ser, talvez, o nosso desejo de interrogação.
- Mas era mesmo preciso que a paz desse casal (homem & homem/mulher & mulher/mulher & homem) fosse incomodada com a nossa dúvida? Talvez sim, animais da história que somos, seria de algum conforto para alguns saber que há 5 ou 6 mil anos já se amava como hoje, exactamente igual, homem & homem, mulher & mulher e mulher & homem.
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