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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Quinta-feira, Dezembro 28, 2006
Barcelonesas três: em construção
"Las primeras imágenes de En construcción se tomaron prestadas de un documental anterior, en blanco y negro, que presenta el barrio Chino de principios de siglo pasado. Un marinero ebrio que presumiblemente sale de una casa de mala reputación da paso a otras gentes heterogéneas de época actual."
caminhar sozinho pelas ruas da cidade à noite, um pouco embriagado, falar uma língua estrangeira, encontrar alguém e falar com ele noutra língua (ele também é estrangeiro) e bêbados os dois, descobrirmos que afinal viemos do mesmo país, "mas você é carioca?". Caminhar juntos pelas ruas da cidade um pouco embriagados, falar a nossa língua, sonhar um par de horas e depois dizer adeus. Diabos! Porque é que me lembrei do filme do Guerin? Talvez por causa do marinheiro bêbado que abre o filme En construcción, porque sei que aquele marinheiro sou eu.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:38
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Domingo, Dezembro 24, 2006
Barcelonesas dois: Arnaut Daniel
Eu sui Arnaute qu'amas l'aura
E chatz la lebre ab lo bou
E nadi contra suberna.
Gozo o meu privilégio da inclusao e compartilho da generosidade dos meus amigos que me acolhem com as delicadezas de quem quer saber e conhecer aquele que chega de longe. Para muitos imigrantes, nem sempre é assim, reconheço. À mesa bebemos, comemos e falamos. Algum tempo depois falam a língua que lhes é mais familar, o catalao, a nota que me incluía. "Oscar, compreendes o que falamos?" Sim, posso compreender e quando nao compreendo uso a minha imaginaçao. Gosto quando falam catalao, me faz pensar no provençal e me recordo da poesia de Arnaut Daniel e a sua música. E a noite foi assim, onde se falou um idioma que me fez pensar noutro e Arnaut Daniel transfigurou-se no século XXI noutros nomes que jamais esquecerei: Marc, Helena, Carolina, Jordí, Javí, Mamen, Arnau e Samuel.
Fazia frio, e lá fora Barcelona vibrava noutra cançao.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:58
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Sábado, Dezembro 23, 2006
Barcelonesas um: Quando Hegel encontra Roberto Carlos
Noite em Barcelona. Saio com uma amiga irlandesa para encontrar com o seu amigo brasileiro e um amigo desse. Bar. Conversa animada com ela, falamos em castelhano (nem eu nem ela falamos catalao). Chegou o brasileiro com seu amigo holandês. Conversa a quatro em castelhano, perfeita e compreensível. Nao sei bem o porquê, a dado momento, o holandês me pergunta se falo inglês, respondo-lhe que mais ou menos, entao o brasileiro (meu compatriota como costumamos dizer) à minha frente "decide" que podemos falar em inglês, e seguimos adiante.
Conversa de sempre. Pergunta-se sobre as nossas profissoes, o que fazemos ou deixamos de fazer etc... Noto no brasileiro um desprezo infantil pela sua cidade natal, que fica no interior do Espirito Santo, famosa por lá ter nascido Roberto Carlos. Ele expressa também a sua repulsa pela música do cantor. Pondero com ele (como tenho paciência!) sobre a importância da música do Roberto sobre compositores como, por exemplo, Caetano Veloso. Acho que ele desconhece o que digo. Deixei-o para lá. Viro-me para o holandês que vive e trabalha como consultor em Heidelberg. Pergunto-lhe sobre a Universidade daquela cidade e digo-lhe que Hegel lá ensinou. Ele me responde: "Nao sei quem é Hegel". Viro-me para outro lado e olho a minha amiga irlandesa: é hora de partir daquela mesa. Eu com os meus preconceitos. No metro, em direcçao a uma festa, penso numa noite passada em Lisboa, onde numa mesa composta por um português, duas galegas, um senegalês e eu, este brasileiro voador, falou-se de Bossa Nova, poesia galega e ouviu-se um bom jazz.
Eu e os meus preconceitos atravessamos a noite veloz de Barcelona!
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:01
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Quarta-feira, Dezembro 20, 2006
Já cheguei a Barcelona. A viagem foi muito cansativa porque havia demasiado ruído no autocarro. Comigo outros imigrantes de várias partes, romenos, brasileiros e africanos, pensei na Íria que certa vez me falou sobre o carácter imigrante da mulher latino-americana; somos todos e todas imigrantes. E viajamos de autocarro nem sempre porque é o mais barato, mas porque é o mais fácil e envolve menos riscos de uma humilhação pelas autoridades policiais. Nos aeroportos o controle é mais cerrado. Nem sempre é possível ter os papéis em dia, e a burocracia foi criada para nos humilhar.
De madrugada, um pouco antes de chegar a Madrid, fui enganado pelas luzes nocturnas da cidade que projectavam nas nuvens uma falsa aurora. Pensei em Homero (sempre penso na sua "aurora dos dedos rosados") mas logo me senti mais próximo da Tartaruga Gigante do conto de Horácio Quiroga ao se deparar com o espetáculo das luzes de Buenos Aires, aquela grande Alexandria. Uma Tartaruga um pouco atónita depois de uma longa viagem, que já nem percebe mais a realidade.
Devo estar me tornando numa espécie de latino-euro-americano (assim mesmo, com uma Europa atravessando-me ao meio) seja pelos olhos de Homero ou os olhos doces da Tartaruga Gigante. O que conta é que as luzes me atraem, sobretudo as nocturnas, porque são criaçoes do nosso desejo e intelecto de iluminar todos os repositórios da vida. O que não foi a descoberta do fogo senão um exercício obsessivo de antecipação da aurora?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:54
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Segunda-feira, Dezembro 18, 2006
O mais perto de Tunis que me é permitido. Em Barcelona dirijo a minha mirada à outra margem (distante) até os meus olhos chegarem a ti. É irónico, eu sei, mas foi na Place de Barcelone em Tunis que chorei a primeira vez a nossa separação. Em Barcelona/Barcelone/Barshalona (como gostavas de brincar). E assim o ano termina, com um toque de nostalgia.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:13
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Sábado, Dezembro 16, 2006
Calcanhottando: eu gosto de opostos exponho o meu modo, me mostro eu canto pra quem? eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:07
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Quinta-feira, Dezembro 14, 2006
Caetaneando: o pintor Paul Gauguin amou a luz na Baía de Guanabara.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:39
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Quarta-feira, Dezembro 06, 2006
Cadernos improváveis: Mahdokht Series
É assim mesmo que nos sentimos! Mas não precisamos de ser uma mulher para saber o significado da espera ou do abandono. Heródoto quando andava pelo Egipto, dizem, certa vez escreveu "aqui tudo é ao contrário dos costumes gregos, os rios correm de Sul para Norte, os homens tecem e urinam sentados e as mulheres estão no mercado. Ele disse mesmo isso? Onde foi que eu ouvi? Quem sabe se no Antigo Egipto não eram os homens que sofriam o frio da solidão enquanto esperavam que as suas mulheres voltassem de alguma guerra ou de algum comércio de infortúnio?A História também é um eco.
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