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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Terça-feira, Novembro 28, 2006
" É de alguma debilidade económica que vem a minha liberdade." disse certa vez Mário Cesariny numa entrevista. Secretamente eu e muitos outros e outras sabemos que ele disse isso para nós, os despossuídos, aqueles que não tendo nada, ou muito pouco, acabam por ter tudo, porque o tudo que se pode ter é essa consciência vertiginosa de que o mais importante é a VIDA. E nesta vida, amar. Amar mais, amar melhor. É o que eu vou fazer para celebrá-lo, amar descaradamente, com ímpeto, sem nenhum pudor, os homens que me aparecerem pela frente e fazer do meu corpo o palimpsesto dourado que um dia, ou não, será lido por algum desconhecido.
- Eu não tenho nada, eu sou feliz, eu tenho tudo!
Escrito por OSCAR MOURAVE às 22:03
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Segunda-feira, Novembro 27, 2006
Cesariny, Montemor-o-Novo & Eu
Fui convidado para falar aos jovens numa escola de Montemor-o-Novo sobre a violação dos Direitos Humanos, Imigração e Trabalho. Fazia frio, os alunos e alunas (que pena!) com ideias tão conservadoras, tão consensualizadas. Trabalho feito, sala vazia - e espero que dois ou três deles durmam hoje com interrogações -, saio com a minha amiga para almoçar. Comemos, falámos sobre as nossas vidas cruzadas com as destes jovens. Vou à casa de banho e ao voltar vejo a notícia no jornal. Cesariny morreu! O que dizer, o que posso dizer, eu que um dia vi a sua branca cabeleira que iluminava como um sol! O que falar ou escrever agora, a não ser que nunca mais me esquecerei da cidade de Montemor-o-Novo, cidade esta transformada por uma circunstância na lápide que me informou da morte dele.
- Volto para uma Lisboa mais vazia!
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:09
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Quarta-feira, Novembro 22, 2006
"Picapau voa é duvidando do ar"
A frase de Guimarães Rosa dita para ti numa cozinha em Lisboa. A tua amiga te conhece, te sabe nas indecisões. Ela tem razão, tu voas duvidando sempre do ar, duvidando sempre da tua própria capacidade de voar.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:50
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Segunda-feira, Novembro 20, 2006
a canção da noite uma melodia
feita de silêncios que sufocam
os pássaros caídos
no olhar as nuvens desfeitas
na lua um vaso de planta morta
e de tão perto
um sopro distante
de vida que se afoga
Madalena Ávila
Lua satélite, lua tapete de Armstrong, lua língua dos grilos, lua assombro dos pirilampos, lua pavor das mulheres grávidas, lua terror dos homens ambíguos, lua mitologia das histórias mortas, lua desencanto sobre Lisboa, lua espanto sobre a noite em Tunis, lua de mel, lua de fel, lua das marés, lua dos muçulmanos, lua do Ridha, lua da Madalena, lua do Oscar, lua dos poetas, lua dos astrónomos, lua no texto, lua no céu, lua no céu da boca, lua no coração, lua coronária que nos acelera o peito e diz: "Olha-me pela janela", lua no texto da Madalena (vaso de planta morta) que vai ao coração do Oscar e nunca chegará aos ouvidos do Ridha, lua que não se cumpre, lua sem diálogo, lua dançarina, mundana, que na pista de dança reluz, não reflecte, lua do desassossego, lua dos imigrantes, silenciosa nos quintais suburbanos, lua... sempre.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:51
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Sexta-feira, Novembro 17, 2006
- Oscar eu tenho uma tela em branco !
era com esta frase e não outra que me anunciavas o teu retorno à beira do abismo - a nossa morada inquestionável - e eu sabia então que o branco da tela era todo o terror que podemos sentir quando o que temos para dizer não cabe nos dicionários do mundo. A tela em branco, o desespero e não a placidez, o ter de dizer e o dizer.
Pintas como escreves. E por conhecer tão de perto o que escreves e por vezes presenciar o momento da centelha, aquele em que contrais o coração e os teus olhos são inundados por um brilho quase santo, quase diabólico, é que não sei exactamente por onde começar pelos teus quadros nessa exposição pictórica do emaranhado que se torna a nossa vida - essa floresta onde podem morrer os sonhos, esse coração suspenso sobre a lâmina azul de um qualquer mar, em uma qualquer ilha, esse voo sequestrado do pássaro que fomos. Dizer, sem saber exactamente o quê. Dizer para correr todos os riscos. Dizer.
Pintas como escreves, Irmante, e a inspiração ainda tem o seu lugar neste mundo.
*
Exposição Madalena Ávila
Agito
Rua da Rosa, 261
Segunda a Sábado
18h00 às 02h00
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:47
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Quinta-feira, Novembro 16, 2006
Choveu sobre o meu bairro alto
e as águas levaram os sedimentos da noite
mais anterior:
aquela em que dissemos não
para nos arrependermos em seguida
aquela em que me disseste "Oscar
tenho uma tela em branco"
aquela onde chorei
[como a chuva] e busquei
abrigo no teu peito.
Choveu sobre o meu bairro alto
e as águas lavaram o meu coração
devolvendo-lhe a disposição mais original
aquela que o deixa apto
para amar novamente
a chuva
o bairro
teus olhos castanhos.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:54
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Quinta-feira, Novembro 09, 2006
A tua realfabetização: a letra alif
Ontem tiveste a tua primeira aula de árabe. Tu sabes eu também o significado disso tudo. Não reviverás nada, e pelo contrário, começarás tudo. O destino - assim o chamam na tua cultura, não é? - pôs um palestino no teu caminho. E ontem à tarde no teu quarto medieval, quando ele pegou na tua mão para te ensinar a escrever - da direita para esquerda - o alif com as três vogais possíveis, sentiste por um momento que a mão (delicada) sobre a tua já fizera duas intifadas. Era a chave que precisavas, então depositaste naquele preciso momento uma nova forma de esperança - sim, a palavra esperança, aquela que detestas, a mesma que a tua cultura letrada te ensinou a odiar.
E ele se chama Mohamed, o teu professor, e ele nasceu em Jenin.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:13
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Quarta-feira, Novembro 01, 2006
E assim entramos na noite, delicadamente, depois de uma conversa entre amigos onde o tema melancolia marcava a sua distância e se diferenciava da nostalgia: "Oscar, a melancolia aprisiona-nos no passado, a nostalgia não, esta é um ir-e-vir, entendes?" Claro que entendo e compreendo agora que é de melancolia que sofro. E em Lisboa encontro um pedaço de Tunis no centro da cidade, onde na Praça das Palmeiras começa a rua Andalus. Dois nomes, duas geografias que se transformam na minha consciência em Place d' Afrique e Rue de Marseille - desmontar a máquina do mundo e remontá-la, à noite, naquele breve intervalo que vai da vigília ao sono. Dormir e sonhar para acordar na realidade do dia seguinte, e sonhar na vigília, nesse exercício onde a vida é sonho, e os sonhos, sonhos são.
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