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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Terça-feira, Outubro 31, 2006
You have never been in love,
Until you've seen the sunlight thrown
over smashed human bones...
E era Morrissey com a épica do romatismo dos anos 80: morrer atropelado ao lado de quem se ama, observar o reflexo das estrelas nos tanques suburbanos, contemplar o sol sobre o que resta de um ser humano. Mesmo evocando a morte, amar mais, era amar melhor. Por vezes é bom a nostalgia. Saio de casa daqui a pouco, vou beber com uns amigos, talvez eu faça amor com alguém e lhe fale sobre o que foram os anos 80 no Rio de Janeiro, ou talvez eu volte para casa e termine o meu livro. Ah, como é bom ter a liberdade como aliada.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:33
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Terça-feira, Outubro 24, 2006
Quel est le point de départ d'un poème? Une idée, un mot, un son?
Tout poème doit être porteur d'une situation, d'un champ de sensations. Mais il a aussi besoin d'un catalyseur interne. Tout poète sait comment pointe en lui l'instant poétique. Moi aussi j'ai mes signes précurseurs, devenus familiers avec le temps. Le point de départ du poème peut être une idée, une situation, un événement, une interrogation métaphysique ou un fait divers. Le poème ressemble à des nuages dont il faut transformer les formes en images, et les images surviennent lorsqu'elles trouvent leur cadence, Je commence invariablement par un tempo. Lorsque l'idée, l'image ou l'événement ont trouvé leur cadencce, je sais que je peux me mettre au travail.
in: La Palestine comme métaphore, Mahmoud DARWICH, Babel, Arles, 2002, pp. 52.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:53
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Quinta-feira, Outubro 19, 2006
Em Lisboa penso em Tunis e uma certa melancolia acompanha as minhas ideias. O Rossio não é a Place de Barcelone, e a rua da Rosa não é a Rue de Madagascar. Mas há uma música que me segue às vezes como um ladrão voraz que me vai assaltar ao dobrar da esquina, e às vezes como um cão, derrelido, que não sabe mais a quem pertencer: kind of blue.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:42
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Sexta-feira, Outubro 13, 2006
Sobre a coragem: algumas observações
Um amigo tão querido me disse que está triste porque imagina não ter coragem para fazer o que se tem de ser feito. Pas grave, mon ami! A coragem é das virtudes a mais exagerada pela nossa cultura do romantismo. Todos e todas tiveram medo. Ulisses teve medo de não voltar a Ítaca e Enéas quando deixou Tróia ardendo. Romeu e Julieta e Pélleas e Melisande também tiveram muito medo das consequências do seu amor. Laika, a cadelinha, antes de morrer, teve medo quando viu a vastidão e escuridão do Universo. Os homens-bomba antes de transformarem os seus corações em granada e mesmo à hora de explodi-los sentem muito medo. As crianças em Bagdade durante a invasão tiveram imenso medo. As meninas na Gaza reocupada tiveram medo. Mahmoud, o barbeiro em Ramallah, tem medo quando a sua mulher demora a chegar à casa. Lucineide, uma jovem que mora em alguma favela de São Paulo, tem muito medo da violência dos homens - ela sabe e conhece a crueldade. A mulher rica que guarda o caro anel de família tem muito medo de que os empregados o roubem, e às vezes nem dorme à noite. O presidente da República Francesa provavelmente tem medo de dar um passo político errado. Ter medo é tão natural que até os heróis o tem, e não são menos heróis por isso! Eu agora tenho medo de que o teu medo, ou a falta de coragem (dá o nome que quiseres) te faça triste. Porque eu sei que a tristeza não combina com os teus olhos verdes e nem com esse teu jeito decido e montanhês de caminhar. Não vou dizer o que todos muito bem treinados dizem nestas ocasiões: "Coragem homem!" - não, o que eu te digo muito simplesmente é isto: "Sente medo, homem, e segue adiante". No meu país um romancista certa vez escreveu que "viver é muito perigoso", eu acrescento: "perigoso e fascinante".
Com carinho,
Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:16
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Segunda-feira, Outubro 09, 2006
Nocturnários
Sonho um: do dia 08 para o dia 09 de Outubro
Sonhei que estava doente, internado num hospital que era também um hotel. A minha mãe surge no meu sonho e se parece nervosa porque não temos dinheiro suficiente para pagar o hotel/hospital. Digo-lhe que podemos partir porque já me sinto melhor.Corte. Apareço num elevador de portas pantográficas (sonho muito com elevadores). Corte. Sou um expectador numa ópera que se chama Capitólio, é encenada num espaço aberto onde há um edifício de formas neoclássicas, muito parecido com o Instituto Rio Branco no Rio de Janeiro, depois me dou conta de que é um ensaio geral da ópera e os cantores, cantoras e elenco usam as roupas de época, vejo a directora dar as coordenadas, chega alguém que eu conheço vestido à personagem, é um homem, usa bigodes, está atrasado, saio e dou uma volta pelo "cenário", é como se eu habitasse outra época com roupas de plástico que imitam tecidos. Corte. Estou no que julgo ser uma das ilhas de Cabo Verde, é tudo muito bonito, estou numa cadeira de rodas mas não porque estou doente. É estranho. Procuro algo, a minha câmera digital, penso que foi roubada. Não foi. Entro num carro e parto em direcção à uma cidade. Há um por do sol lindo (solpor diriam os galegos). Tiro fotos. Alguém conduz mas não sei quem é. Chegamos a uma pequena cidade com casas baixas, comunais, grandes, me lembra um medina branca, há uma rua branca e um muro branco. Falam-me na "azotea", assim mesmo, em castelhano, a Isa aparece no meu sonho e entra na casa em busca de amigos. Da casa sai um rapaz bonito de três pernas, anda com as três perfeitamente, sem tropeçar. Noto as três pernas mas não lhe falo e nem lhe pergunto nada. Olho-as discretamente. Ele fala comigo, é bonito e simpático. Ele mesmo toca no assunto, e diz-me que ter três pernas é um incómodo. Outras pessoas aparecem e subimos todos para a "azotea". Acordo. Tenho uma reunião com o meu chefe hoje.
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