finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Terça-feira, Agosto 29, 2006

 
[Correspondência Fragmentada]

... e achei este poema inacabado entre as coisas dele. Fiquei um pouco sobressaltado, não queria que pensasse que vasculho os seus pertences em busca de explicações. Foi tão casual, eu procurava um livro da Sylvia Plath que me tinha falado, já nem me lembro qual, e encontrei isto:


Que conjunção tão estranha a nossa
eu com um corpo sobrevivido de uma guerra
contra mim próprio

quase em colapso

Tu e esse teu corpo tão consciente
da sua territorialização:

um de nós
ou os dois

terá de quebrar
as regras

se quisermos
que alguma felicidade
bata à nossa porta

- os homens
e as suas relações.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:49 Comentários:

Segunda-feira, Agosto 28, 2006

 
[Correspondência Fragmentada]


... ele tem olhos tristes às vezes. Lembra-me os olhos de um rabi depois de pronunciar uma blasfémia ou de ter dito algo de profundo e metafísico sobre a essência de Deus. Gosto de falar sobre antropologia com ele, de ouvir as suas histórias da Covilhã e gosto de vê-lo lavar a loiça depois do jantar.


Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:40 Comentários:

Quinta-feira, Agosto 24, 2006

 


I simply cannot see where there is to get to.

Sylvia Plath



O prazer secreto


a cidade e as suas imponderabilidades. A felicidade que, talvez, te espreita da esquina. Lisboa, noite de calor e uma conversa interessante sobre a antropologia urbana. Evito cruzar os meus olhos nos teus. Eu saí de uma guerra contra mim. Amar está difícil agora. Mas descobri um prazer secreto. De manhã, quando saio para o trabalho, tomo o táxi e digo sempre a mesma frase: "Avenida da República, na altura do Galeto, se faz favor", e não falo mais nada durante o percurso. E pela primeira vez na minha vida sinto prazer no silêncio, essa sinfonia abstracta sobre o ausente.


- a cidade e as suas imponderabilidades



Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:51 Comentários:

Sexta-feira, Agosto 18, 2006

 




With you inside me comes the knowledge of my death, 1994

Jenny Holzer



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:36 Comentários:

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

 


- I know Jenny, it's about me...




Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:31 Comentários:

Domingo, Agosto 13, 2006

 
Discurso sobre a perda numa canção de Lou Reed


Querida Íria,


tudo parece arder, não é? Recupero-me aos poucos e hoje enquanto caminhava sozinho pelas ruas da cidade que libertaste, esta Lisboa onde morrem os amores, pensava na minha condição de solitário com algum orgulho e resignação. Olhava as fachadas dos prédios como alguém que lê pergaminhos em busca de algum palimpsesto. As fachadas dos prédios desta cidade sempre me dão a impressão de que contam alguma mentira. E estava feliz cercado pela tecnologia do século XXI, ouvia no meu MP3 algumas músicas. E então, olha como tudo pode mudar, Lou Reed cantava para mim estes versos:


just a perfect day,
you made me forget myself.
I thought I was someone else,
Someone good.



E sabes o que me aconteceu depois, não é? Lisboa tornou-se Tunis e Tunis tornou-se ele. E fiquei espantado como é que protegido como pensava estar, invoquei a Felicidade através dos versos simples de Reed. E me percebi novamente atirado no turbilhão que é o significado da perda. Eu sei tu sabes, não tenho o talento de Elizabeth Bishop para falar da perda com tanta propriedade e dá-la como algo acontecido, perdido. Em mim não há este registro, a minha perda esta acontecendo: é um exercício doloroso saber que nunca mais estarei com ele, que não ouvirei mais as canções que vêm dos países do Golfo, que não visitarei a sua aldeia em Sbeitla, que não iremos ao Canadá, que não lhe mostrarei Granada, e que não visitaremos o Egipto. As minhas perdas acontecem sempre que cruzo com alguém que tem algo dele, sempre que vejo alguém com olhos parecidos, sempre que leio um poema árabe, sempre que observo uma roteiva no pleno arco do seu voo. As minhas perdas, sempre que ouço alguém pronunciar em árabe a palavra habibi, as minhas perdas, saber que não acompanharei o embranquecer dos seus cabelos, os projectos duma casa simples em Mahdia com três cómodos onde um seria a minha biblioteca, as minhas perdas, o poema que eu me preparava para escrever para ele, as minhas perdas acontecendo. Nunca foi tão difícil dizer adeus, Íria. Perder é um exercício discursivo, falarei nele até a exaustão, até ao cansaço extremo, olharei as nossas fotografias até os meus olhos doerem, ouvirei a sua voz e verei a sua imagem nos vídeos até à fadiga completa da minha razão, e somente depois de todo esse percurso, é que poderei ouvir qualquer canção de amor e não pensar que ela fala de mim.


Eu sei tu sabes!



Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:04 Comentários:

Quarta-feira, Agosto 09, 2006

 
Carta de uma cidade sitiada


Querida Íria,

vou falar sobre coisas que não sei muito, mas que intuo porque a dor é uma grande mestra e nos faz reflectir: vou falar das cidades sitiadas, falarei sobre o meu corpo. Eu sei tu sabes, antes da sua destruição, Tróia sobreviveu dez anos cercada pelos gregos que estiveram acampados à sua frente, e podemos imaginar a inveja grega nas noites de luar quando os troianos provavelmente cantavam o amor que sentiam pela sua cidade e de dentro das suas muralhas vinha o ritmo da vida. Eu sei tu sabes, no dia 14 de Setembro de 1812 Napoleão entra em Moscou e a encontra em chamas, os seus moradores, que a amavam muito, preferiram ardê-la completamente a entregarem-na aos inimigos, Tolstoi deixou sobre isso páginas magnificas, e eu ainda posso imaginar o turbilhão destrutivo provocado pelo fogo a anunciar aos franceses o frio que se lhe seguiria: queimar uma cidade para matá-los de frio! Eu sei tu sabes, nesse mesmo vasto país que é o dos russos, Leningrado sobreviveu 900 dias sitiada pelos nazistas durante a Segunda Guerra Mundial. Na cidade morria-se de fome e frio, mas as tropas de Hitler, assim como os gregos invejosos, ouviram uma outra música que vinha de dentro da cidade, era a Sétima Sinfonia de Shostakóvitch, e por um motivo estranhíssimo, sou capaz de pensar que estive na primeira audição, eu sei tu sabes! Disso apreendo que uma cidade é salva quando os seus habitantes a amam mais do que ninguém, porque a entendem como extensão do seu próprio corpo - e o meu corpo, Íria, não é uma cidade amada. Há dias falávamos - quando atravessávamos o Tejo em direcção a Lisboa - sobre as cidades invisíveis de Calvino e tu me indagavas qualquer coisa sobre, e eu era todo entusiasmo naquele momento porque o meu corpo era uma cidade protegida. Perdi a protecção que tinha. O que me restou? O cerco implacável: adoeço dos pés à cabeça, as minhas unhas apodrecem, estou com um terrível resfriado, o meu dente dói e posso perdê-lo e pequenas manchas apoderam-se da minha mão esquerda, uma cidade sitiada é o meu corpo. Não sou Tróia antes da queda, não sou a Moscou que arde na salvação e nem a Leningrado que toca o seu destino, não Íria, eu sou Beirute sob o fogo cerrado dos israelitas, Beirute sem água, sem luz e sem amor. O ser humano e as suas relações me apavoram. O meu corpo começou a morrer, hoje, nesta noite de lua plena. E já não quero mais sair do meu quarto medieval: "o ser humano e as suas relações".




Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:44 Comentários:

Segunda-feira, Agosto 07, 2006

 
A destruição dos Mitos


Um poema não é uma oração e não salva ninguém. Um poema não serve para pagar as contas do fim do mês. Um poema não serve para nada, a não ser, talvez, aqui e agora, para não me deixar secar completamente. Porque eu já comecei a minha aridez. Não há água nos meus olhos, não há humidade no meu coração e não há fluxo na minha esperança. O que fica de seco converte-se neste meu deserto particular, maior que o Saara e que cabe, ao mesmo tempo, nesta algibeira que carrego como um condenado que vai precisar de beber algum dia.

A TV nos mostra a destruição de Beirute e o que vai morrendo com toda esta insanidade. Morrem as crianças na praça e a praça, morrem as mulheres no campo e o campo, morrem os homens no mercado e o mercado, morrem os estudantes na escola e a escola, morrem os pássaros no ar e o arco magnífico do seu voo. Eu seco e não há mais lágrimas. Olho à minha volta e reconheço nos objectos que me cercam, aqueles que eu trouxe da minha última viagem, o esqueleto morto dos mitos que justificaram a minha breve felicidade. Tenho as tuas roupas, um disco com as canções dos países do Golfo, as fotografias, o creme de barbear e o meu totem mais doloroso - e ridículo - um frasco de champô, que era teu e que eu trouxe, e que dia sim, dia também, fui observando como se acaba um conteúdo, e este objecto sacralizado que eu tratei como um deus converteu-se numa ampulheta cruel e antes de acabar por completo pronunciou-me (naquela sua língua tão especial) a frase indizível: "não posso"

- agora eu sei como morrem os mitos.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:48 Comentários:

Quinta-feira, Agosto 03, 2006

 
Uma canção árabe: Nekwni S Warrach N Lezzayer

(versão em francês)

Nous les enfants d' Algérie
Aucun coup ne nous épargne
Quand tout veut sombrer
Nous voulons le redresser
Quand tout menace ruine
Nous voulons le reconstruire
Nous souportons à foison
Les hauts et les bas.


Quem a canta é Idir, não sei se a música é dele. Ouvi-a pela primeira vez no cd Motivés. Ouço-a vezes sem conta, e choro sempre, num misto de felicidade e angústia, porque sei que a dor não cessa nunca, mas também sei que podemos, do ponto mais dentro de nós possível, recomeçar a reconstrução: a primeira de todas a nossa, a do sujeito, depois a da sua história individual, para seguir com a reconstrução da sua história colectiva e terminar na terra que é de todos e todas, e para todos e todas: acho que é uma canção revolucionária. Eu também sou uma criança da Argélia, e sei suportar os altos e baixos desta vida. "Wallah"





Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:56 Comentários:

 

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