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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Domingo, Julho 30, 2006
Três poetas árabes: Samih al-Qasim
O relógio na parede
Minha cidade em ruínas
E o relógio ainda na parede
Nossa vizinhança em ruínas
E o relógio ainda na parede
A rua em ruínas
E o relógio ainda na parede
A praça em ruínas
E o relógio ainda na parede
A casa em ruínas
E o relógio ainda na parede
A parede é já uma ruína
E sobre os seus escombros
O tiquetaque
do relógio.
traduzido da versão em inglês por O.M.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:44
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Terça-feira, Julho 25, 2006
Israel volta a atacar o Líbano. Os motivos, nem vale mais a pena dizer. Qualquer reflexão sobre os conflitos no Médio Oriente parece deixar de lado a longa duração e esquecer qual é o papel que a criação do Estado de Israel significou dentro do jogo dialéctico do colonialismo como fenómeno histórico. Israel hoje é realidade agressiva com a qual os árabes têm de conviver. Eu não quero e nem sei falar sobre isso. O que sei é que de alguma maneira estou angustiado. Beirute, onde nunca estive, sempre foi a minha cidade de evasão, de escape das minhas desventuras quotidianas, ela aparece na minha escrita como um espaço onde é possível o recomeço. Se o velho homem que foi entrevistado disse do Líbano que a sua condenação era nunca existir, eu leio isso pela outra via e digo que a "condenação" Libanesa é a de sempre renascer. Mas quanta dor ainda será necessária para a afirmação do Líbano como Estado?
E em meio ao desespero provocado pela guerra sinto que vou perdendo um mundo recém-adquirido, que a distância e a vida me vai separando de mais uma possibilidade de ser feliz. Eu tinha um bilhete para Beirute, na semana que antecedia a guerra. Eu não fui a Beirute para ficar em Tunis, com ele - é provável que ele tenha salvo a minha vida, e nem sabe disso, e agora está longe. Não sei o que pensar, mas acho que Allah brinca com o meu destino, porque me salva o resto de vida que ainda tenho e me separa da Vida que eu agora quero ter. O meu amigo árabe, que é um sábio de trinta e um anos, me diria com aqueles olhos que não me saem do horizonte, "Mektub, habibi".
Eu quero ter a paciência dele - do meu amor -, eu preciso ter a determinação dos libaneses, eu necessito aprender essa misteriosa noção de esperança palestina. É assim que eu articulo as coisas do mundo para poder conhecê-las, como um mosaico que precisa da distância correcta para ser observado. A minha tristeza é estar aqui, na segurança deste quarto na rua da Rosa, em Lisboa, a escrever sobre coisas muito dolorosas que acontecem às pessoas longe. Há uma certa imoralidade nisso - e uma grande dose de hipocrisia.
Eu queria ter a coragem de Susan Sontag e de Marmoud Darwich para me livrar da vaidade mesquinha de falar em nome dos outros sem estar com eles - mas por enquanto eu sou somente um homem com uma paixão para resolver.
Acho que vou parar de escrever por uns tempos. Até me passar isto. Novamente me lembro de Flebas, o fenício, e mais uma vez sinto aquela sensação de estar a morrer afogado.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:47
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Domingo, Julho 23, 2006
Comprar coisas não é um gesto natural. Fazemo-lo porque já somos prisioneiros da civilização do consumo, não produzimos o que usamos, não criamos do nada, com o nosso talento limitado, os objectos no qual vamos buscar prazer e compensação, não pescamos e nem colhemos os frutos. Animais estúpidos é o que somos. Mas, às vezes, sonhamos, e assim gastamos o pouco da economia que nos resta com objectos que podem trazer algum sentido à insignificância das nossas vidas. O meu dinheiro acabou, finalmente, agora estou livre para não me preocupar mais com ele. Gastei-o com quatro coisas: dois livros e dois dvds:
Relatos de um certo oriente, do Milton Hatoum, para um amigo especial, que sem saber iniciou uma viagem;
Um Livro com poemas da Ana Cristina César, na hora me lembrei do Guilherme, e disse para comigo: "É uma maneira de mantê-lo por perto do meu coração selvagem";
Happy Together, de Wong Kar-Wai, para eu não me esquecer nunca que os soliários são todos iguais;
The Hours, porque é um filme que ficou na minha memória e não tenho coragem de dizer o motivo.
E assim, o domigo vai terminando: aqui em Lisboa, em Tunis, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Santiago de Compostela, em Barcelona, em Buenos Aires e na Cidade do México: eu sei, há uma estranha sinfonia no ar.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:07
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Sábado, Julho 22, 2006
Inscris !
Je suis Arabe
Le numéro de ma carte : cinquante mille
Nombre d'enfants : huit
Et le neuvième... arrivera après l'été !
Et te voilà furieux !
Inscris !
Je suis Arabe
Je travaille à la carrière avec mes compagnons de peine
Et j'ai huit bambins
Leur galette de pain
Les vêtements, leur cahier d'écolier
Je les tire des rochers...
Oh ! je n'irai pas quémander l'aumône à ta porte
Je ne me fais pas tout petit au porche de ton palais
Et te voilà furieux !
Inscris !
Je suis Arabe
Sans nom de famille - je suis mon prénom
« Patient infiniment » dans un pays où tous
Vivent sur les braises de la Colère
Mes racines...
Avant la naissance du temps elles prirent pied
Avant l'effusion de la durée
Avant le cyprès et l'olivier
...avant l'éclosion de l'herbe
Mon père... est d'une famille de laboureurs
N'a rien avec messieurs les notables
Mon grand-père était paysan - être
Sans valeur - ni ascendance.
Ma maison, une hutte de gardien
En troncs et en roseaux
Voilà qui je suis - cela te plaît-il ?
Sans nom de famille, je ne suis que mon prénom.
Inscris !
Je suis Arabe
Mes cheveux... couleur du charbon
Mes yeux... couleur de café
Signes particuliers :
Sur la tête un kefiyyé avec son cordon bien serré
Et ma paume est dure comme une pierre
...elle écorche celui qui la serre
La nourriture que je préfère c'est
L'huile d'olive et le thym
Mon adresse :
Je suis d'un village isolé...
Où les rues n'ont plus de noms
Et tous les hommes... à la carrière comme au champ
Aiment bien le communisme
Inscris !
Je suis Arabe
Et te voilà furieux !
Inscris
Que je suis Arabe
Que tu as rafflé les vignes de mes pères
Et la terre que je cultivais
Moi et mes enfants ensemble
Tu nous as tout pris hormis
Pour la survie de mes petits-fils
Les rochers que voici
Mais votre gouvernement va les saisir aussi
...à ce que l'on dit !
DONC
Inscris !
En tête du premier feuillet
Que je n'ai pas de haine pour les hommes
Que je n'assaille personne mais que
Si j'ai faim
Je mange la chair de mon Usurpateur
Gare ! Gare ! Gare
À ma fureur !
Mahmoud Darwich
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:28
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Sexta-feira, Julho 21, 2006
" Um homem de 80 anos, de Beirute, dizia que o Líbano está condenado a nunca existir."
O Público
Ele não sabe como começar uma história porque tem a sensação de que tudo o que é sempre foi, e como num jogo de afirmação constante do status ontológico das coisas, daquilo que é porque é, sente-se atingido em pleno coração, porque ele quer mudar as coisas. Pensa, pensa muito enquanto lê a notícia no jornal que fala daquilo que sempre foi, e não deveria ser, e a sabedoria do velho árabe, em afirmar a condenação à não existência de toda uma história, o atinge pela segunda vez, e o deixa triste, ele pensa: "Será a tristeza a minha condenação?"
Fora do Café é a cidade de Lisboa com o seu ritmo, o vai e vem das pessoas sem compromisso com a dor dos outros, das pessoas e as suas três refeições ao dia, que pagam os impostos com atraso e, às vezes, vão ao teatro ver o simulacro vazio da vida - e novamente aquela sensação de que as coisas sempre foram o que são, assalta o homem melancólico, que paga a conta do café, diz até logo ao empregado e desaparece, discreto, no meio da multidão.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:23
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Quinta-feira, Julho 20, 2006
"Eleazar de Worms conservou a fórmula necessária para criar um Golem."
Jorge Luís Borges
Comprei um anel novo na loja marroquina da minha rua. Tive um companheiro que não gostava do facto de eu usar anéis. Hoje desconfio que era por ciúmes, porque fora outro que me ensinara a gostar de anéis.
Um anel novo para assinalar que cheguei à minha paz interna, a um novo equilíbrio. E sim, aceito a minha solidão. Mas queria ser o velho rabino de Praga agora, e através dos conhecimentos cabalísticos criar um Golem para mim. Não um monstro para fazer o serviço pesado da minha vida, não, isso eu faço sozinho. Queria um Golem para simplesmente ficar ao meu lado, e ouvir as histórias tristes que eu tenho para contar:
talvez tenha sido este o motivo do velho rabino, a solidão nas longas noites de Praga.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:57
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As portas do inferno e da loucura
Leio no jornal de hoje em Lisboa as declarações do Primeiro Ministro libanês sobre a guerra total que Israel faz aos árabes, sobre o ataque contra os libaneses e palestinos. E há por um momento, em mim, uma dor que me põe dentro do conflito. E sabes porquê? Tudo me é tão concreto, as explosões, os mísseis, as mulheres e crianças mortas, os deslocamentos, os helicópteros Apache, os tanques, a falta d' água e luz, a falta de comida, a morte do pai, o desaparecimento do irmão, a violação da irmã, tudo tão real em mim que desço às portas do inferno, e choro, e sei do meu egoísmo, e tenho vergonha de estar na Europa a discutir o sexo dos anjos com homens e mulheres que pensam ser consequentes nas suas afirmações e quando muito, quando muito mesmo, o que fazem é dançar em torno de ideias vazias de democracia, valores humanos, laicidade e dos comportamentos das orientações sexuais. O que fazer quando a homofobia mora no coração daquele que se diz um amigo? O que fazer quando a colega de trabalho diz uma piada racista, e acha que foi inocente? E aquele homem das ciências que categoriza os seres humanos de acordo com as pesquisas, que por sua vez foram feitas por homens que já categorizavam antes aquilo que queriam categorizar? O que fazer com a minha liberdade de homem que tem a pele branca? Às portas do inferno e da loucura estamos todos e todas.
Eu não sei o que fazer, tenho uma doença nos olhos que me doem muito, tenho um trabalho para terminar, tenho um tempo de vida ainda para gastar. E o que quero? É estar contigo em Tunis. Andar pela rua da Palestina, ir a Mahdia ou Sousse e olhar o mar e pensar que talvez haja uma possibilidade para nós dois. Sabes, a minha tristeza de hoje foi a mais mesquinha de todas, eu fiquei mesmo triste por causa das pessoas que perdem novamente as poucas coisas que têm. Mas a minha tristeza aliviou um pouco porque tu não estás nem no Líbano e nem na Palestina. O teu corpo, o meu templo, está protegido na tua casa, perto do carinho dos teus pais e irmãos. Depois recuperei o cerne da minha angústia quando me apercebi da agressão que fazem à tua cultura, língua e civilização. E então pensei nas músicas, nos filmes, nos livros de Mahmoud Darwich de que te falei, e pensei na violência que Israel faz contra mim e à minha felicidade, e vi que nesta vida é pura ilusão pensarmos que os grandes eventos não têm uma ligação directa com a nossa pequena Eneida particular, com essa fuga constante, essa canção melancólica que descrevemos quando abandonamos uma cidade que arde, uma cidade na plenitude das suas chamas.
Lisboa já não é para mim, é pequena quando comparada ao território do teu coração.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 01:27
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Quarta-feira, Julho 19, 2006
Oedipe le tyran
Aos quarenta anos tenho a minha primeira conjutivite. O corpo começa a falhar, ou melhor, começa a me dar outras respostas. Eu não quero ver o que vejo. Não quero ver a minha angústia gerada pela impossibilidade da distância. Também não quero ver a reocupação de Gaza. Renunciar à verdade, e a verdade é que eu estou triste. Renunciar à minha tristeza. Falar de política a partir de agora. Um conhecido meu, uma espécie de Aristóteles dos tempos contemporâneos (todos conhecem a obsessão daquele filósofo pela classificação) na necessidade de classificar este blogue inscreveu-o numa rubrica algo como: "blogues nem sempre sobre política" o que poderia ser lido também, dependendo do hemisfério do observador, como: "blogue nem sempre sobre o amor" ou "blogue nem sempre sobre questões sociais" - mas se pensarmos bem, Aristóteles via o homem como um animal na sua inteireza política, o que é diferente desse meu conhecido.Voilà, hoje não sei em que rubrica ponho a minha angústia. A verdade, sempre ela!
Escrito por OSCAR MOURAVE às 02:03
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Domingo, Julho 16, 2006
Eu te disse que morreria se voltasse agora, que a minha tristeza entristece esta cidade e que somente estava feliz ao teu lado. Não era uma figura de linguagem, a minha morte. Eu já comecei a morrer. E tu tentas me salvar e me escreves: "l' amour c' est une force, pas faiblaisse". Há muito tempo vi na TV um documentário que mostrava uma operação no coração de um homem. Todo o percurso médico para salvar aquele coração, para salvar aquele homem, pareceu-me, na época, uma espécie de epopeia minúscula, particular, um mundo inteiro que poderia morrer naquele coração doente deveria ser salvo e pronunciar o seu discurso heróico sobre o triunfo da vida, era mágico e aterrador aquele documentário. À dada altura, mostram o momento em que o peito é aberto, usam um instrumento metálico para afastar os ossos e de lá saltou o coração doente, que batia tão fraco. Sabes, meu amor, reproduzo em mim, literalmente, no meu corpo, a dor de estar com o peito aberto. Eu sinto aqui, agora mesmo quando escrevo, o frio dos metais e o vazio que vai ocupando o espaço à volta do meu coração sadio. Se abrirem o meu coração, és tu que estás lá: tu e a tua história, Sbeïtla a tua cidade natal, os teus amigos e essa tua maneira tão especial de pronunciar o nome de Place de Barcelone. Ontem, uma conhecida disse de mim que eu era um estrangeiro sempre, estivesse onde estivesse. Eu lhe respondi que não, que o único lugar onde eu não me sentia estrangeiro era dentro do teu coração. É isso, meu amor, eu não quero outra terra, nem outra nacionalidade, nem nada: eu só quero voltar para aí dentro, para o teu lado, esteja esse aí onde estiver. O amor desarticula o meu saber, desaprendi a dizer adeus, a abandonar uma cidade, a não olhar para trás. Eu não quero te dizer adeus, eu não quero abandonar a tua cidade e não quero deixar de te olhar, e eu estou longe, muito longe para me sentir protegido. Se não vier de ti, o amor não me protegerá. Ninguém mais pode.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:50
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Sexta-feira, Julho 14, 2006
Habito a cidade onde morrem os amores
porém há o calor e as andorinhas
roteiva em árabe
ando pela cidade
onde um poeta dela disse ser
a cidade dos desaparecidos
caminho pelas suas ruas
como um fantasma que mora
na contra-face do espelho
e prisioneiro
vê do outro lado da retina
a sua imagem cristalina
a andar de mãos dadas
pela rua da Palestina
a branca e reta rua da Palestina
na cidade inversa
naquela onde nascem
os amores.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:47
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Quinta-feira, Julho 13, 2006
É Tunis ainda, e atrás daquela porta eras tu, Ridha, que me esperavas. É por isso que eu vou voltar, porque é Ridha ainda: tu és a minha porta mais preciosa. Nunca me doeu tanto deixar uma cidade, nunca desejei tanto voltar, já nem sei mais escrever. Não é importante, escrever não é importante. Hoje de manhã eu soube disso. Inch'Allah Setembro chegue logo.
Até logo Tunis!
Escrito por OSCAR MOURAVE às 11:05
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Segunda-feira, Julho 10, 2006
Convergências Três: diálogo dos pássaros
Lembro-te inatingível
pela brisa navegavas
sem direcção
os pássaros alterados
chocavam
e comovias-te
com o que ainda existia
alimentavas-te
e saboreavas a dor
Madalena Ávila
**********
eu sei do segredo que habita
o intestino do pássaro nocturno
eu sei de uma história triste
contada à beira-mar
e sei também
que diante dos teus olhos castanhos
oitenta mil sóis exibiram o esplendor
dos dias vindouros
e das tardes de chuva que tudo lavam
e no final das contas
sim, tivemos todos
a felicidade que nos coube
e nunca maltratamos ninguém.
O.M.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 22:04
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Domingo, Julho 09, 2006
Ítaca
Quando você partir, em direção à Ítaca,
que sua jornada seja longa
repleta de aventuras, plena de conhecimento.
Não tema Laestrigones e Cíclopes
nem o furioso Poseidon;
você não irá encontrá-los durante o caminho,
se você não carregá-los em sua alma,
se sua alma não os colocar diante de seus passos.
Espero que sua estrada seja longa.
Que sejam muitas as manhãs de verão,
e que o prazer de ver os primeiros portos
traga uma alegria nunca vista.
Procure visitar os empórios da Fenícia
e recolha o que há de melhor.
Vá às cidades do Egito,
e aprenda com um povo que tem tanto a ensinar.
Não perca Ítaca de vista,
pois chegar lá é o seu destino.
Mas não apresse os seus passos;
é melhor que a jornada demore muitos anos
e seu barco só ancore na ilha
quando você já estiver enriquecido
com o que conheceu no caminho.
Não espere que Ítaca lhe dê mais riquezas.
Ítaca já lhe deu uma bela viagem;
sem Ítaca, você jamais teria partido.
Ela já lhe deu tudo, e nada mais pode lhe dar.
Se, no final, você achar que Ítaca é pobre,
não pense que ela lhe enganou.
Porque você tornou-se um sábio, e viveu uma vida intensa,
e este é o significado de Ítaca.
Kostantin Kavafis
(Tradução de Paulo Coelho)
Acho que a tradução é do Paulo Coelho, fiz duas pequenas intervenções no texto. E creio que ele não se zangará comigo. Queria uma tradução brasileira do poema, que conheci pela primeira vez numa edição espanhola da obra de Kaváfis. Queria uma tradução com a "voz ortográfica, fonética e rítmica da minha Ítaca". Hoje falo na primeira pessoa e tenho uma dor de cabeça terrível. Ontem foi o dia mais feliz da minha vida porque estava com Amor (é meio imitar Dante, meio Vita Nuova, admito), mas era com ele que eu estive todo o dia, um dia inteiro para nós. No restaurante, um pouco acanhado, confessei-lhe que não era um crente, e tentei-lhe explicar porque é que alguns homens não têm fé. E ele, Amor, respondeu-me que não compreendia, que eu estava errado, porque eu tinha um bom coração e um bom coração é sempre obra divina, "wallah". E expliquei-lhe em seguida que sim, que o compreendia e que o amava mais por isso, e que estava a ler Ibn-Arabî por causa dele. Mudei de assunto e lhe perguntei quais eram as coisas que ele mais amava na vida: "O mar, Oscar, o som das ondas quando arrebentam na praia, o azul e a solidão do mar." E naquele instante, preciso, tive a noção de que com ele vou caminhar muito tempo, e chorei, e me lembrei de Flebas, que ele não conhece. E vi qual é o sentido desta minha viagem, deste meu percurso de volta à Ítaca. E fiquei a pensar que quando eu morrer, no momento mais terminal da minha consciência, naquele segundo anterior que antecede o grande silêncio e que apaga todo o fenómeno da vida, será o sorriso do Ridha, o meu Amor, que virá em meu socorro e iluminará a minha descida ao obscuro. Agora eu sei porque é que vivi até aqui, foi para conhecê-lo e para poder contar que há no mundo generosidade e amor, Wallah!
Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:21
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Sábado, Julho 08, 2006
L'histoire, un éternel recommencement
Une femme française engagée et croyant à plusieurs causes lors de sa jeunesse dans les années soixante-dix se promena un jour à Paris portant une écharpe palestinienne. Deux extrêmistes l'ont croisée, chacun des deux a attrappé un bout et a tiré. Ils l'ont étranglée avec...La femme n'en était pas morte pourtant, leur but n'étant pas de la tuer, mais de l'effrayer.
Cela s'est passé alors que la femme, jeune fille alors, n'a jamais vu un pays arabe, elle croyait seulement à des causes. Cette même dame épousa par la suite un jeune homme tunisien...
Elle est venue vivre avec lui sur notre sol et, professeur de français, elle enseigna des années ici, mais aussi apprît à parler, à merveille et avec un accent du nord ouest, région natale de son mari, le dialecte tunisien. Un jour des collègues voulant la provoquer lui ont dit : " Vous parlez de la France comme du pays des droits de l'homme, qu'avez-vous fait pour la Palestine ? ", elle répondit alors : " Avant de me poser cette question, demandez-vous plutôt ce que vous, vous-avez fait pour elle... ".
Loin de nous l'idée de semer une haine raciale ou religieuse entre musulman et chrétien ou juif. Il est établi que dans une société civile, la tolérance religieuse est primordiale et que l'acharnement dans le refus de l'autre est néfaste non seulement pour cet autre, mais aussi pour le groupe. On parle alors d'une société civile libre et vivant en paix et en harmonie.
Il y a quelques jours, une jeune fille irakienne vient d'être violée par un soldat américain qui l'a ensuite tuée ainsi que toute sa famille et a mis le feu dans leur maison. En fait, il ne s'agit pas d'un simple viol, mais de la violation d'une société civile entière. Ce n'est pas simplement une famille qui fût assassinée, mais tout un peuple qui est en train de l'être ainsi que son droit à la dignité et à la liberté. Le feu n'a pas seulement dévoré une superficie étroite d'une petite maison, mais saccage depuis des années un pays entier. Un historien tunisien révèle alors une histoire similaire qui s'est passée en 1943. Une jeune fille tunisienne fût violée et son père tué par des soldats americains. L'histoire se répète ou a-t-elle jamais cessé de se dérouler ? A-t-on jamais fini de se " se faire violer " ? Le terme semble dur, mais cela devrait inciter à la réflexion. En Irak, des Irakiens ont ouvert les portes à l'armée americaine. Presque un siècle en arrière, la Palestine fût l'objet d'un " Business " qu'on n'a pas fini de payer. Il ne s'agit pas de détester les Israéliens ou les Juifs ou les Americains alors, il s'agit de se raviser et de se raviser profondément. Quand cesserons-nous de nous vendre pour ensuite " pleurnicher " ? Il ne s'agit pas de politique, mais d'une vraie question sociale. Notre société civile continue à dormir ou à danser : une danse au rythme des balles et des feux. Il ne s'agit pas non plus de sortir manifester dans les rues et de brûler notre " chez nous ", chose qui se répète souvent dans nos pays arabes et à laquelle succède un silence de mort. Il s'agit de se tirer de son sommeil et de redonner à notre civilisation et identité leur ancien éclat, dans le respect de l'autre, différent dans sa religion et dans sa façon d'être. On renie notre identité, on fait du " copier coller " sur celle de l'autre, puis on lui nourrit une haine farouche l'accusant d'opprimer notre patrimoine et l'on riposte alors par la violence émotionnelle, verbale ou radicale. On l'accuse de nous maintenir dans l'ignorance alors qu'on avale à grandes gorgées ses découvertes et ses inventions, tout simplement, car, nous, on ne produit rien. Entre-temps, nos élèves battent le record dans le fait de " sécher les cours " pour aller se " mouiller ailleurs " et nos employés dans l'absentéisme...Est-ce vraiment une solution ?
Dans toutes ces affaires de viol et de violations, la société civile française revendique se qui se passe actuellement en Palestine, la nôtre continue à dormir et à s'offrir en corps alléchant dans son sommeil. De temps en temps, elle ouvre les yeux, sourit aux gouvernements qui la défendent et blâment ceux qui la violent. Elle ne fait rien pour se défendre, rien pour arrêter de se faire violer...
Hajer AJROUDI
E precisamente ontem eu discutia a causa palestina com um jovem tunisino, nascido no Kwait, inteligente, educado com conforto e num mundo protegido. E a sua opinião sobre a causa palestina? Ah... artigo é para ele e para todos os outros que pensam que o problema não é nosso.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:03
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Sexta-feira, Julho 07, 2006
Um certo modo de dizer até logo:
de todas as minhas imperfeições, o acto de escrever é o que me custa mais caro. É também a mais difícil das tarefas porque as palavras, em qualquer língua, quando são escritas, perdem a sua liberdade ancestral. Mas mesmo assim escrevo. Ensinar e aprender uma nova língua é recriar o exercício original de dar nomes às coisas, de triunfar sobre o caos que é a vida no Universo. Ensinar e aprender uma nova língua equivale experimentar, por uns momentos, a vida no Paraíso, aquele lugar onde tudo precisa receber um nome para poder existir. Todas e Todos vocês me ajudaram nesta tarefa de dar nomes (em português) às coisas que existem na vossa e na minha vida.
Eu já sou um ser humano melhor, porque tive a oportunidade de compartilhar convosco esta aventura que foi ensinar português num novo território, numa nova realidade. E porque aprendi muito mais, infinitamente.
O meu muito obrigado,
vocês já me conhecem,
eu nunca digo ADEUS,
eu sempre digo até logo!
Oscar
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:06
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Terça-feira, Julho 04, 2006
Moderna antropologia dos Apache
Para as pessoas da minha geração, a palavra apache nos fazia recordar os índios, os primeiros habitantes dos actuais Estados Unidos da América. Era uma antropologia fácil de ser compreendida por causa das imagens do cinema, do pouco de história que sabíamos e da imaginação que usávamos para preencher as lacunas. No Carnaval, era de índio apache, e não brasileiro, que a minha mãe me fantasiava. Claro que era por causa do cinema e depois porque os índios brasileiros não usavam roupas. Ser um apache para mim era ser livre, viver nas pradarias e caçar búfalos. Qualquer criança sabia disso.
Hoje, na Palestina ocupada, qualquer criança de sete anos sabe o que é um apache: é um helicóptero mortífero, fabricado pela Boeing Integrated Defense System, usado pelo exército israelense para missões de ataque ao solo, tripulado por dois homens, equipado com metralhadora automática de corrente 30mm e mísseis cujos nomes são uma combinação fatal de letras e números: AGM-114 Hellfire, AIM-92 Stinger, AIM-9 Sidewinder, Hydra 70, FFAR. As crianças sabem quem os fabrica, quem os compra e para que finalidade são usados. Não há búfalos, não há liberdade e não há índios nas pradarias da Faixa de Gaza, qualquer criança palestina sabe disso.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 23:40
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Segunda-feira, Julho 03, 2006
Mahdia
Estávamos tu e eu na esplanada frente ao mar e, enquanto à volta tudo era vida e movimento, tu falavas da sorte do homem à nossa frente que tinha a melhor mesa, aquela mais próxima do Mediterrâneo e gozava o seu tempo. Imediatamente pensei, e te disse, que não concordava contigo, que o melhor lugar era sempre aquele onde tu te encontravas, e que o homem mais feliz ali não era o outro, mas eu porque estava exactamente ao teu lado. E a partir daí, porque a minha língua, como disse o poeta, é disciplinada como uma nuvem, disparei com a minha interpretação das coisas da vida: pensei em Ibn-Arabi e a produção dos círculos e interpretei-o tão à minha maneira que já era de outro que eu falava, e pus-te no centro da forma mais perfeita, e disse que para mim o mundo se organizava a partir de ti, em círculos. Mais próximos de ti estão aqueles que te amam, depois o sol e a lua, mais adiante as estrelas, pensei em todas aquelas com nomes árabes, pensei em Altair, depois as coisas que se movem por vida própria, os animas que tu gostas, mas não tocas e não sabes explicar porquê, pensei na boa literatura, nos filmes egípcios que aprecias, nas canções que vêm dos países do Golfo, e fui organizando mais esses círculos que quanto mais próximos de ti mais perfeitos ainda. Então, achei que eu podia pôr coisas minhas nos círculos mais afastados de ti e da tua beleza, e pus The Waste Land, um livro triste onde aparece um fenício afogado e que reconheço como sendo eu na minha primeira morte, pus duas ou três sinfonias e mais alguns quadros, e contemplei com tristeza o quanto este meu mundo não tem mais interesse para mim. E nesse movimento de pensar as coisas a partir de ti, constatei que na periferia do mundo, longe de ti, a tristeza, a injustiça e o abandono tinham governo: e vi Gaza reocupada, e vi a fome que mata, a desilusão e a dor, longe de ti o mundo é assustador e ninguém pode iluminar um poema como só tu sabes fazê-lo, meu habib.
Olhei para o homem à nossa frente e pensei na minha sorte. Na minha sorte de ter sido, naquele dia, o primeiro ser humano que viste ao despertar.
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