finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Quarta-feira, Junho 28, 2006

 
Olmert brandit la menace d' une opération de grande envergure


a Ridha



O soldado isralense Gilad Shalit
tem vinte anos passaporte francês
e foi sequestrado em Gaza

o mundo reza por ele mas ninguém
sabe quem é Houda Ghalia

O soldado Shalit deve ter alguém
que o ama profundamente e sua foto três por quatro
repousa no fundo de alguma carteira

à noite essa pessoa sofre e reza por ele
mas ela não sabe quem é Houda Ghalia

A França Israel e todo o mundo civilizado
fazem esforços pela libertação do soldado Shalit
porque ele tem uma família que sente sua falta

uma família que não sabe e nunca
saberá quem é Houda Ghalia

O soldado Shalit foi à escola
fez amigos estudou geografia história e línguas e
provavelmente escreveu algumas cartas de amor

à noite sem saber quem é Houda Ghalia
ele reza para ter a oportunidade de continuar
a escrever cartas de amor

O poeta não reza
é um homem sem fé
que não pode dormir como todos os outros

pois sente a dor e a solidão do soldado Shalit
mas sofre mais porque ele sim

- ele sabe quem é Houda Ghalia.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 07:25 Comentários:

Segunda-feira, Junho 26, 2006

 
Cartas de Sousse


[Sousse, 24 de Junho de 2006]



Querida Íria,

estou em Sousse com o Ridha e quando vínhamos para cá, no comboio à tarde, olhei pela janela enquanto cruzávamos um grande campo de oliveiras. Pensei então no país fantástico que é o dele, onde parece que construíram uma civilização no meio de um imenso olival. E houve um momento, Íria, durante a viagem, em que tudo passou a fazer sentido e a paisagem que eu via do lado de fora harmonizou-se de tal maneira com a minha paisagem interna que tive um insight e percebi o instante exacto que vivia como um "facto poético". E fui feliz, eu no topo da minha consciência e do meu afecto, contemplava o reordenamento das esferas que aquele sentimento me provocava - e havia música, e ele me olhou e antecipou-me, em árabe, a frase que estava na ponta da minha língua.




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[Sousse, 25 de Junho de 2006]

Íria,


já estamos a caminho de Tunis, no comboio. Ele está aqui ao meu lado e dorme. Penso que, assim como existe aquilo a que certa ciência social chama de facto social completo, podemos pensar em algo como "o facto poético", de dimensão subjectiva, mas igualmente, e tão absolutamente completo, que assusta. Ridha aprendeu o vocabulário do amor na minha norma e pronuncia na perfeição "eu te amo", "me dá um beijinho" e "qual é o número do quarto?". Noto que ele é querido por todos: pela vendedora de água, pelo porteiro do hotel e pelas pessoas no restaurante, e fico mais comovido ainda.

Ao lado dele, coisas estranhas me acontecem e quando saímos juntos muitos pensam que sou muçulmano, e perguntam-me se sou argelino quando percebem que não sou tunisino. Eu sei o significado destes acontecimentos, e conheço bem este caminho, querida Iria. É o percurso da minha morte simbólica, a anulação da minha personalidade em direcção a ele. Morro como Óscar e renasço outro, nos braços dele, à sua imagem e semelhança. Não há novidade na minha reflexão, acho que foi Barthes que disse o que acabo de escrever, é somente uma constatação.

Sabes, minha amiga, às vezes tenho receio de estar a procura de uma forma dolorosa para me despedir desta cidade. Ou é exactamente o contrário, uso o amor como um motivo para ficar, permanecer. E eu quero, quero muito.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:24 Comentários:

Sexta-feira, Junho 23, 2006

 



Uma questão de orgulho


Vamos directo ao assunto para não perdermos tempo: dentro do movimento associativista português, e temo verdadeiramente que este conceito em Portugal não seja mais do que uma figura de linguagem, muitos dos activistas pelos direitos humanos têm uma certa dificuldade em compreender os movimentos de afirmação identitárias assentados na ideia do orgulho como orgulho negro ou orgulho gay. Os impacientes com a história da cultura política dos grupos minoritários norte-americanos, costumam dizer, na tentativa de desmontar mais essa importação desnecessária e alienígena, que não devemos promover uma cultura baseada nestas ideias porque aprofundaríamos ainda mais as diferenças. Não vêem estas acções como estratégias, e desconfio que não podem ver porque não são bons estrategistas. Eu estaria bem disposto para discutir este tema com os meus amigos e amigas portugueses, e gastaria com prazer tempo e espírito, mas amigos e amigas, eu estou apaixonado e descobri uma razão, uma boa razão para ficar aqui, em Tunis. O amor faz isso, não é. Estou com as ideias turbadas mas consciente do uso e integridade da minha razão. Não vou escrever o que eu queria, não agora porque quero ficar com o Ridha: é o nome da minha razão.

Amanhã é o Pride de Lisboa, aqueles e aquelas que acharem que vivem na melhor das democracias fiquem na santa paz dos vossos lares. "Sair para quê? Defender o direito à igualdade dos outros para quê? Já somos iguais entre nós, eles é que vão para outro lugar com as suas revindicações". Sim, não saiam de casa se acharem que a república é mesmo "res publica"; não, não saia de casa a esquerda confusa que acha que o direito às orientações sexuais (e nós, no Rio de Janeiro em 2003 gritávamos "Direitos Sexuais São Direitos Humanos") não são direitos de facto, não, esta esquerda não deve sair de casa. Sobre a direita nem vale a pena escrever:

agora vai ao pride, se tu és gay, lésbica, transgénero, bissexual, heterossexual, negro, imigrante, desempregado, mulher maltratada, muçulmano ou pertencente a qualquer outro grupo marcado pela exclusão social, ou que sofre as manifestações de preconceito e xenofobia - E também tu, tu mesmo que me lês na segurança burguesa das tuas três refeições ao dia, protegido pela cor da tua pele e pela roupa que usas, tu também deverias ir, e não sentires vergonha por isso. Faz como os paulistanos, os cariocas, os novaiorquinos, os madrilenhos, as pessoas de Haifa, os de San Francisco, os de Manaus (sabiam que em Manaus há pride?), vão às ruas, e não sejam homofóbicos, se tiverem coragem, porque no fundo do fundo, e não gosto de dizer isso, falta-lhes coragem, meus amigos e amigas, para abraçarem uma causa justa, e a justiça jamais pode envergonhar alguém.

Eu queria escrever mais, com mais coerência e discernimento, mas não posso, o meu coração é do Ridha que me ajuda com a sua generosidade, a escrever um novo poema na minha vida.


Se houver Justiça, "Toda luta, é luta toda"


Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:41 Comentários:

Sexta-feira, Junho 16, 2006

 
Fóra da cidade
o lugar chámase tránsito.
A paisaxe era iso, un lenzo de palabras
que ti erguías contra o vento
e eu usaba contra a fame.
Á noitiña as mulleres debuxan un círculo de voces
(o lume dentro, os homes fóra).
Non hai terra.
Hai historia procurando pel,
o sorriso do escorpión,
fillos e fillas que herdarán a túa sede.
Pero resístome a interpretarte como unha rosa do deserto.

Fóra da cidade as liñas rectas son imaxinarias.
Algún día confundirannos os nomes.

Íria Sobrino Freire



Íria,

não é fora mas dentro da cidade que o teu poema me põe em movimento, em trânsito, e com ele imagino a concretude substantiva das coisas invisíveis. E novamente, porque outros já o fizeram mais e melhor do que eu, tento conter, no intervalo de duas horas, o percurso de uma odisseia particular. Então, querida Íria, como um forasteiro (não seremos todos e todas?) refaço a geografia particular do meu bairro e ando pelas suas ruas como se fosse a primeira vez. Na rua Yahia At-Thourki chove-me andorinhas - pássaros com o futuro no ventre - e por um momento esqueço-lhes o nome em árabe, em seguida atravesso a linha do eléctrico e toda a rua Abou Roulamah cheira a pão fresco, é um cheiro ancestral (eu sei tu sabes), no final da rua viro à esquerda e já estou na rua da Palestina onde encontro o sorriso do jovem Bechir, então sei que sou capaz de me apaixonar por ele. Sigo em frente, contigo e o teu poema no meu coração, e a rua da Palestina converte-se num lenço de palavras: "andorinhas, pão, Bechir, Iria, poema, história, rosa, deserto". Agora sinto que sou capaz de fundar, com este léxico, um reino de justiça, amor e abundância:

tu e o teu poema, tu e o teu eterno movimento.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:50 Comentários:

Quinta-feira, Junho 15, 2006

 
Poema de Sete Faces


Quando nasci um anjo torto
desses que vive na sombra
disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
Não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
Pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.

Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.


Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.


Carlos Drummond de Andrade


Íria,

às vezes um poema é capaz tornar claro tanta coisa e assumimos perante ele uma relação tal que pensamos que foi escrito para nós unicamente, como uma espécie de breviário ou manual de explicação e sobrevivência. Muito se discute sobre o papel da poesia na vida contemporânea, como se a sua existência precisasse de respaldo ou de justificação. Para mim ela é importante porque num único poema, num simples poema, encontro uma possível explicação para a minha própria vida. Isto já é o bastante, a poesia é isso, lança luz sobre as trevas e abre uma perspectiva para pensar a própria existência.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:18 Comentários:

Quarta-feira, Junho 14, 2006

 
Carta ao Coração Selvagem

Olha, rapaz dos olhos castanhos, segunda-feira, para mim, também foi um dia muito estranho. E ainda não passou. Ando num compasso de espera... Não durmo bem, e choro de madrugada quando ninguém pode testemunhar. Mas vou tocando o barco. Hoje li uma coisa triste sobre a situação dos palestinos nos campos de refugiados do Líbano, e senti vergonha da minha tristeza privada, mesquinha. Se eu tiver de chorar agora, será por uma causa menos egoísta: e descobri uma coisa, a minha próxima cidade, se tudo der certo, será Ramallah.

Um beijo para ti,

Oscar





Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:01 Comentários:

Segunda-feira, Junho 12, 2006

 
Place de Barcelone


De onde vem essa música
de corte tão preciso que vaza as horas
enquanto esqueço

sobre a mesa de cabeceira
o anel que me deste?
"é para ti nunca o percas"

sempre desorientado
nunca consigo encontrar o outro
pé de sapato

e essa música
a tarde na cidade de geometria
branca

reflicto "a única arquitectura
que me interessa é aquela que de dentro
para fora ergue um ser humano"

e tu longe
não consigo pensar mais em nada
acho que perdi o meu passaporte

saio de casa
anoitece sobre as pessoas
na praça

é noite no mundo
e em mim um certo tipo
de tristeza:

essa música.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:23 Comentários:

Quinta-feira, Junho 01, 2006

 
Esse alguén de meu que nunca volve
á auga da infância
sem saber saír do labirinto.

Álvaro Cunqueiro




Era um dos palácios do Minotauro
- O da minha infância para mim o primeiro -

Sophia de Mello Breyner Andresen




E me perco aqui, Íria, nestas fragmentações cunqueiras - e cantamos todos nós a mesma e única canção que nos orienta na solidão escura do labirinto, e tudo o que foi luz e calor do lado de fora deste palácio converte-se nos sonhos a que chamo de memória.

Eu sei (tu sabes), não bebi da poção do esquecimento e a minha condenação é pensar que sei quem eu sou, mesmo que pela manhã no espelho da casa de banho é outro já, aquele que me olha com entendimento.

O labirinto? E o que é o labirinto, Íria, senão esse exercício quotidiano - quase mesquinho - de fazer a mesma coisa sempre: acordar, tomar o duche às pressas, pôr o fato cinza com a gravata azul e beber o mesmo café no balcão sujo da pastelaria da esquina:

não há saída, Minotauro
não há saída, Teseu
não há saída, Jorge
não há saída, Álvaro
não há saída, Sophia
não há saída, Íria
não há saída, Oscar


- O que nos resta é somente isso: sonhar durante o dia e cantar à noite.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:33 Comentários:

 

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