finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Quarta-feira, Maio 31, 2006

 


- Foge comigo, rapaz!




Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:31 Comentários:

Quinta-feira, Maio 25, 2006

 



- Quando eu não tenho nada para dizer, ele diz por mim.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:36 Comentários:

Quinta-feira, Maio 18, 2006

 



Godard filmou a Commedia do nosso tempo: a guerra e o seu estúpido exercício de extermínio da vida. No purgatório, ele colocou o poeta dos vencidos, a voz que Tróia não teve - Mahmoud Darwich, o poeta palestino. Estou emocionado, não sei explicar o porquê, já chorei duas vezes ao rever este trecho do filme para a transcrição, acho que algo vai me acontecer, uma tristeza grande, daquelas que Darwich falará mais abaixo em entrevista à jovem protagonista da história, a senhorita Lerner:

Lerner: Mahmoud Darwich, o senhor escreveu que aquele que impõe a sua história herda a terra dessa história. Não minimiza a relação dos israelitas com essa terra? E quando acrescenta não existir mais lugar para Homero e que tenta o senhor ser o poeta dos troianos e que gosta dos vencidos, devia tomar cuidado, começa a falar como um judeu!

Darwich: Espero bem que sim. Isso hoje é muito bem visto. A verdade tem sempre dois rostos. Tivemos a versão grega e até ouvimos a voz da vítima troiana na boca do grego Eurípedes. Mas eu procuro o poeta troiano. Tróia não narrou a sua história. Um país que tem grandes poetas terá o direito de vencer um povo que não tem poesia? A ausência de poesia num povo é razão suficiente para a sua derrota? A poesia é uma proposta de futuro ou instrumento de poder? Pode um povo ser forte não tendo poesia? Eu era filho de um povo até lá não reconhecido, e quis falar em nome do ausente, em nome do poeta de Tróia. Existe mais inspiração e de riqueza humana na derrota, do que na vitória.

Lerner: Tem a certeza?

Darwich: Há enorme poesia na perda. Enorme poesia na perda! Se eu pertencesse ao campo dos vencidos participaria nas manifestações de solidariedade com a vítima. Sabe porque somos nós, palestinos, célebres? Porque são vocês o inimigo. O interesse pela questão palestina emanou do interesse pela questão judaica. Sim, é por vocês o interesse, não por mim. Nós tivemos o azar de ter por inimigo Israel, que tantos simpatizantes tem pelo mundo fora. E nós temos a sorte do nosso inimigo ser Israel, visto os judeus serem o centro do mundo. Deram-nos vocês a derrota e a fama. [...] A vitima ou a derrota não podem ser medidas em termos miliatares. [...] Eu carrego a língua obediente como uma nuvem... Um povo sem poesia é um povo vencido.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:56 Comentários:

Quarta-feira, Maio 17, 2006

 


Pas de poésie aujourd'hui

no momento em que, do gume desta minha angústia, não é Íria, penso concretamente na minha volta para o Brasil, no exacto instante em que penso na possibilidade de deixar a Europa com as suas contradições, o Magrebe com os seus problemas, a África com o seu destino, neste exacto momento em que começam a aparecer os primeiros sinais da minha exaustão, do meu cansaço (e digo mesmo, da minha náusea em relação à vida), o senhor Bush chega-me com mais uma das suas novidades. Os meus alunos e amigos norte-americanos, gente de bem que busca a justiça, ficam todos embaraçados à minha frente porque eles conhecem a minha história, e sabem do meu pensamento. Aqui neste momento em que o que mais queria agora era ver a minha família, quem sabe arrumar um namorado, quem sabe ainda, constituir família e adoptar um filho ou uma filha (quantos e quantas não acharão ridículos estes meus pensamentos) e lutar pelos direitos humanos no Brasil, essa terra vasta onde o ser humano e a natureza também são desrespeitados, neste ápice - não é Íria - nesta acmé, vem-me o sr Bush a convidar-me a furar a fronteira, a saltar como "un tigre, un tigrazo" aquele muro erigido à estupidez humana que separa os Estados Unidos da América da Humanidade em geral e da sua humanidade mais profunda. Penso nos americanos de bem, penso nos seus poetas que cantaram a liberdade, nos seus visionários, nos seus negros que construiram esta riqueza gigantesca e sinto uma náusea maior ainda, e vejo que neste mundo árido onde a poesia não tem vez, só me resta querer sobreviver no deserto levando na algibeira uma causa justa. As fronteiras servem para humilhar os homens. E nós, brasileiros muito conscientes, não nos esqueçamos da exploração vexatória que os paulistanos fazem aos bolivianos sem papéis, aos nordestinos em busca de melhor vida - a fronteira, essa besta, está plantada dentro de nós como um espinho atravessado na nossa consciência: "voilà mon coeur!"



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:39 Comentários:

Terça-feira, Maio 16, 2006

 



"Voilà mon coeur",

quantos de nós não queria escrever assim? Abdicar da palavra escrita e voltar ao significado primeiro das coisas onde aquilo que é, é. Desdizer o poeta Drummond e reconhecer na palavra em estado dicionário, o poema já. Para mim, é como olhar o caroço seco do pessêgo e ver nele o pessegueiro em flor: "voilà mon coeur".




Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:15 Comentários:

Terça-feira, Maio 09, 2006

 




lletraferit, lletraferit
disse-me anjo asiático
um pouquinho antes

do recomeço da viagem
por este estranho dia

de chuva.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:53 Comentários:

Sexta-feira, Maio 05, 2006

 
Convergências Dois: Na Mesquita de Fez & A Rua da Palestina



Na Mesquita de Fez


A mesquita de Fez não tem
um de fora, uma casca;
as tendas que se apóiam nela
é que lhe são fachada.

É impossível a quem de fora
não só apreendê-la
ou antecipá-la, mas saber
onde mesmo começa.

Tem de entrá-la, pois só de dentro
inteira se revela
essa arquitetura que existe
só pela face interna.

Como em nenhuma, o seu de dentro
consegue se fundar
sem o seu de fora, e mais: esquecer
que o de fora é bazar.


João Cabral de Melo Neto



A Rua da Palestina


A rua da Palestina
em Gabès
começa discreta num dos ângulos

da moderna mesquita
e descreve uma recta ruidosa
pelo mercado que lhe é adjacente

Nas horas de oração
enquanto no interior do templo
os espíritos orientam-se em

direcção à misericórdia

no lado de fora
os homens desarticulam
o mundo

expondo-lhe o léxico
nos bazares da vida:

romã, tâmara
azeitona, alecrim.




Carlos Alvarenga



Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:19 Comentários:

Terça-feira, Maio 02, 2006

 
Convergências Um: A Lição de Pintura & Les portes


Quadro nenhum está acabado,
disse certo pintor;
se pode sem fim continuá-lo,
primeiro, ao além de outro quadro

que, feito a partir de tal forma,
tem na tela, oculta, uma porta
que dá a um corredor
que leva a outra e a muitas outras.


João Cabral de Melo Neto, poeta brasileiro.


Les portes

J'ouvre das mon corps une porte vers la mer
J'ouvre dans la mer un chemin sans retour
J'ouvre dans ma maison la taverne de mes vies
J'ouvre vers le cancer mon tropique
J'ouvre dans Thèbes un soleil noir
J'ouvre cinq citadelles dans le désert
J'ouvre le chemins de flûtes vers Samarcande
J'ouvre derrière les portes un huis secret
J'ouvre dans Kûfa la porte du Mihrâb
J'ouvre dans ce Mihrâb un sentier
Qui me hisse au paradis
Je creuse au paradis un passage souterrain
Qui me descend aux enfers
Je creuse en enfer un chemin
Qui me porte à la femelle
J'ouvre dans les corpes de la femelle
Une porte vers le monde invisible
Dans le royaume de l'Unique
J'ouvre une porte à repetition.



Mohammed Ali Chemseddin, poeta Libanês.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:08 Comentários:

 

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