|
Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
|
Terça-feira, Abril 25, 2006
As minhas revoluções
Nunca fiz o que esperavam que eu fizesse: não me tornei o macho reprodutor latino-americano agressivo, que desrespeita as mulheres e é cruel com os animais. Brinquei de bonecas com a minha irmã, chorei em público, falhei nalguns exames mas não na vida. Não permaneci na minha classe social. Desconfiei sempre dos sacerdotes que preferem Deus aos homens, e dos cientistas que põem a ciência acima da Humanidade. Minhas revoluções, amar mais e melhor: amar as mulheres, amar os homens, escolher hoje um e amanhã, quem sabe, outra, amar o ser humano. Desconfiar dos líderes, dos homens e mulheres que têm opiniões formadas. Desconfiar dos homens que não sabem cozinhar (porque estes não têm, por completo, a compreensão do que significa a autonomia), desconfiar das mulheres que educam os homens de forma diferente das mulheres. As minhas revoluções: educar e ser educado ao mesmo tempo, ensinar a aprender. As minhas revoluções: construir uma casa sólida, confortável, engordar, conhecer alguém, apaixonar-me, abandonar a casa, passar fome uma semana, emagrecer, chorar e começar tudo de novo. As minhas revoluções: ler Marx, acreditar nele, para desacreditá-lo em seguida, superá-lo e voltar a lê-lo. As minhas revoluções: dizer não, dizer sim, dizer talvez e nunca ter certeza das coisas. As minhas revoluções: abandonar Caçapava, abandonar Foz do Iguaçu, abandonar Manaus, abandonar o Rio de Janeiro, abandonar Lisboa e abandonar no futuro Tunis - e no intervalo, amar mais e melhor. As minhas revoluções: amar os homens, os inteligentes porque são inteligentes, os feios porque são feios, os vaidosos pela sua vaidade, os inseguros pelas suas inseguranças, amar mais e melhor. As minhas revoluções, as minhas pequenas revoluções quotidianas.
- e acreditar que sim, que a igualdade é dos mitos, o mais bonito.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:54
Comentários:
Sexta-feira, Abril 21, 2006
A pergunta é tão simples que me assusta: " Para onde enviar agora, o meu coração?"
Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:14
Comentários:
Quarta-feira, Abril 12, 2006
Mais uma inevitável reflexão sobre a questão do uso do véu
A história é bem simples. Um jovem de sorte (!) tem a oportunidade de ir trabalhar como consultor para uma grande organização internacional, grande mesmo, em escala continental! Os seus formandos representam os quadros superiores que financiam projectos sociais, manipulam com os capitais, decidem onde, quando e como aplicar os recursos. Até aqui tudo bem, o jovem conhece o seu metier, e nenhum ambiente, por maior ou menor que seja, é capaz de intimidá-lo. Ah, o jovem é do tipo informal no tratamento pessoal, no modo de se vestir, na forma de se relacionar com os seres humanos, pois ele acredita que sendo assim há uma maior aproximação que favorece em tudo a construção do conhecimento. Ora, devo-lhes informar que o jovem não é tão jovem assim, ele tem 40 anos, mas parece bem menos. Ele começa o trabalho com os poderosos, os poderosos gostam dele, gostam da forma como ele ensina. Ele fica feliz, precisa desse feed back. Ele se esforça para a integração. Cuida da sua educação pessoal, estuda o país, vai ao teatro, lê os jornais quotidianos, anda pelo mercado, um exemplo a ser seguido, diriam uns! Mas um dia...
Ok, um dia a história muda. Ele chega para trabalhar e o seu colaborador (que está mesmo à sua frente neste momento) diz-lhe: "você não pode trabalhar assim, usando calça jeans. Pense que você tem entre os seus formandos directores, altos quadros, etc... e não fica nada bem". Ah, o jovem ficou um pouco triste, claro que ficou, afinal o que estava a ser julgado ali era a sua falta de sensibilidade para o traje, para a ocasião. Esqueceram -se de que ele é um bom profissional. O que ele fez? Aproveitou a hora do almoço, foi à uma loja e comprou um reluzente fato completo (no Brasil chamam adequadamente de terno) com os acessórios devidos. Foi para casa e vestiu-se. Olhou-se no espelho, era ele atrás de um outro, mas era ele sem dúvida. Saiu, e na rua todos o olhavam de forma distinta. Os carros paravam para ele passar, o jornaleiro lhe sorriu e lhe disse boa tarde, a senhora da loja de vídeo acenou-lhe, e os porteiros da grande organização internacional ficaram todos, absolutamente todos, encantados com aquele novo jovem consultor. O seu colaborador não quis acreditar quando viu e sorriu triunfante. Os formandos questionaram-lhe a mudança, mas depois todos e todas se acomodaram à nova imagem. Os astros, por isso, não deixaram de cumprir as suas órbitas e nem os pássaros de fazer as suas migrações, as doenças contagiosas continuam a assolar a humanidade - o mundo continuava, enfim, e o jovem consultor somente se lembrava de uma frase do travesti Amparo no filme Todo Sobre Mi Madre: "nada como um chanel para nos fazer sentir respeitadas", mesmo sendo o chanel em questão uma cópia barata.
Não se iludam, esta é, sem tirar nem pôr, uma reflexão sobre o uso do véu! E de como as roupas são codificadas e de como o nosso corpo, ao fim e ao cabo, é o suporte cultural a toda essa codificação. Onde pôr então o x da questão em relação ao uso do véu quando em nossa própria cultura nem sempre nos é "culturalmente permitido" usar o que quisermos sem que a nossa transgressão não seja punida? O jovem laico, ateu, democrata, herdeiro de essa coisa que no chamado Ocidente é valorizado como cultura humanista, teve de deixar o seu jeans e pôr o seu véu, perdão, o seu fato completo, o seu terno reluzente, para que pudessem ter dele uma outra opinião sobre o respeito. Complicado, não é? É mais fácil falar do véu alheio, e se aconchegar na dicotomia redutora do nós/eles.
Ah! O jovem consultor ficou mesmo muito bonito vestido assim, mas ele sabe que no fundo do fundo, depois de toda a roupa cultural que o seu corpo suporta em camadas geológicas sucessivas, em algum lugar protegido está ele com a sua humanidade, nu como uma Eva invicta, primordial.
- uma Eva que não tenha sofrido os danos provocados pelo seu encontro fatal com Deus: uma Eva que não usa nada, e que come uma maçã à beira-mar.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:42
Comentários:
Segunda-feira, Abril 03, 2006
- Hey, Condi, hey, how many kids did you kill today?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:52
Comentários:
" Je crois qu' un homme peut toujours faire quelque chose de ce qu' on fait de lui. C' est la définition que je donnerai aujourd' hui de la liberté: un petit mouvement qui fait d' un homme totalement conditionné une personne qui ne restitue pas la totalité de ce qu' elle a reçu de son conditionnement. Qui fait de Genet un poète alors qu' il avait été rigoureusement conditionné pour être un voleur. "
Jean-Paul SARTRE
|
|