finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Sexta-feira, Março 31, 2006

 



Se vens a uma terra estranha
curva-te

se este lugar é esquisito
curva-te

se o dia é todo estranheza
submete-te

- és infinitamente mais estranho


Orides Fontela


Em 2003, 2004, já nem te recordas bem, começavas o teu primeiro blogue, o "Cartas de Lisboa," com os poemas dela. Agora sabes o que eles significaram naquela época, eram a antecipação da tua lição mais fundamental, a de que sempre serás um estranho estejas onde estiveres, mesmo dentro de ti. A Maya, a do Véu, disse-te exactamente o mesmo. Foi como cair a cortina, não foi?



Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:27 Comentários:

Terça-feira, Março 28, 2006

 


É noite em Tunis e a voz de Nana Caymmi, que ouço num cd, cobre esta cidade como um manto. Organizo o espaço em branco da minha nova casa, demoro mais a preparar o jantar, ligo a TV para saber da marcha imigrante em Los Angeles e choro, pela primeira vez na vida, a minha condição de solitário.

A solidão é maior que a sua teoria. Obriga-nos às estratégias mais requintadas para preencher as horas. O preparo das refeições dura mais, a lavagem da louça também, um livro (que nunca substitui o ser humano) passa a ter relevância e a poesia transforma-se num imperativo.

Olho pela janela
é noite em Tunis
e de alguma maneira inexplicável


sei que outro faz a mesma coisa e pensa:

"amanhã vai ser diferente"




Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:34 Comentários:

Segunda-feira, Março 27, 2006

 

check point à HEBRON


DISPOSITONS POÉTIQUES


Les étoiles n' avaient qu' un rôle :
M' apprendre à lire
J' ai une langue dans le ciel
Et sur terre, j' ai une langue
Qui suis-je ? Qui suis-je ?

Je ne veux pas répondre ici
Une étoile pourrait tomber sur son image
La forêt des châtaigniers, me porter de nuit
Vers la voie lactée, et dire
Tu vas demeurer là

Le poème est en haut, et il peut
M' enseigner ce qu' il désire
Ouvrir la fenêtre par exemple
Gérer ma maison entre les légendes
Et il peut m' épouser. Un temps

Et mon père est en bas
Il porte un olivier vieux de mille ans
Qui n' est ni d' Orient, ni d' Occident
Il se reposer peut-être des conquérants
Se penche légèrement sur moi
Et me cueille des iris

Le poème s' éloigne
Il pénètre un port de marins qui aiment le vin
Ils ne reviennent jamais à une femme
Et ne gardent regrets, ni nostalgie
Pour quoi que ce soit

Je ne suis pas encore mort d' amour
Mais une mère qui voit le regard de son fils
Dans les oeillets, craint qu' il ne blessent le vase
Puis elle pleure pour conjurer l' accident
Et me soustraire aux périls
Que je vive, ici là

Le poème est dans l' entre-deux
Et il peut, des seins d' une jeune fille, éclairer les nuits
D' une pomme, éclairer deux corps
Et par le cri d' un gardénia
Restituer une patrie

Le poème est entre mes mains, et il peut
Gérer les légendes par le travail manuel
Mais j' ai égaré mon âme
Lorsque j' ai trouvé le poème
Et je lui ai demandé
Qui suis-je ?
Qui suis-je ?


Mahmoud Darwich



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:02 Comentários:

Sábado, Março 25, 2006

 


{Le cahier de Tunis: Mahmoud Darwich}

" Enfant, j'ai été marqué par les colères de ma mère, alors que mon père se lamentait en permanence sur la perte de sa terre. Leurs disputes me firent souvent prendre la fuit no notre maison; quoique je fusse du parti de mon père; car il était conciliant et extrêmement timide. Bien entendu, ma mère était toute férocité. Elle me baittait. Et sans raison. Souvent j'eus le sentiment qu' elle se défoulait de ses disputes avec mon père. Comme si elle m'en faisait endosser la responsabilité. J'acquis ainsi la certitude que ma mère me détestait. Presque un complexe. Je n'ai vu mon erreur qu' à l'occasion de ma première incarcération. J' avais seize ans. Ma mère vint me rendre visite, me portant du café et des fruits. Elle m'enlaça et me couvrit de baisers. Je compris alors qu' elle ne me détestait pas. J' ai composé alors mon poème "Je me languis du pain de ma mère", un poème de réconciliation avec elle. Et quand, plus tard, j' ai quitté ma famille pour vivre à Haifa, j' ai découvert que j' étais le fils chéri. Non que e fusse le meilleur, mais parce que j' étais l' absent."


Mahmoud me revela a questão, é por isso que vou, sempre, para que gostem de mim.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:10 Comentários:

Quarta-feira, Março 22, 2006

 


[O caderno de Tunis: OEdipe le tyran]


Tu tinhas coisas tristes para escrever, não é? É melhor não: acorda amanhã às 06h30 e prepara-te para ir ao teatro. Sim, neste país que descobres pode-se ir ao teatro às 07h00 da manhã. E lá, porque outro não é o lugar, encontrarás o Édipo que trazes dentro de ti, e com ele a verdade final a qual te está reservada e que te privará para sempre da luz que te engana.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:00 Comentários:

Segunda-feira, Março 20, 2006

 



Avec mes amis à Lisbonne !


Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:08 Comentários:

Domingo, Março 19, 2006

 

Âmbar

Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
Como se eu fosse um morro iluminado
Por um âmbar elétrico
Que vazasse dos prédios
E banhasse a Lagoa até São Conrado
E ganhasse as Canoas
Aqui do outro lado
Tudo plugado
Tudo me ardendo
Tá tudo assim queimando em mim
Como salva de fogos

Desde que sim eu vim
Morar nos seus olhos

Adriana Calcanhotto




Domingo, cedinho, quarto de hotel, trabalho para fazer. E quem me canta uma geografia cada vez mais distante é ela, Maria Bethânia, que canta Calcanhotto, que me canta o Rio que irremediavelmente perdi, para muito além de São Conrado e das Canoas

- perder os meus rios...



Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:47 Comentários:

Sexta-feira, Março 17, 2006

 



[O caderno de Tunis: Rue d' EL Koufa]


O professor que ensina português perguntou ao jovem aluno árabe o significado do nome El Koufa, "É o nome de uma antiga cidade, professor, no actual Iraque, onde floresceu uma grande civilização". O professor (maravilhado), que não sabe muita coisa, logo respondeu ao aluno "Ah, é daí que vem a escrita cúfica?", o aluno sorriu, porque percebeu que mesmo não sabendo nada, o professor sabia aprender.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:26 Comentários:

 




[O caderno de Tunis: Edward W. Said]



"(...) Porém, Orientalismo é um livro muito preso à dinâmica tumultuosa da história contemporânea. Nele dou ênfase, portanto, ao facto de nem o termo Oriente nem o conceito de Ocidente terem qualquer estabilidade ontológica; um e outro são feitos de esforço humano, em parte afirmação, em parte identificação do Outro."

Edward. W. Said


Muito bem, és recebido com gentileza e atenção no círculo daqueles que têm o poder, daqueles que estando aqui nunca de facto estão, porque o que comem, o que bebem, o que discutem - se é que discutem algo - nunca está relacionado directamente com este país. E à mesa, depois de uma conversa qualquer sobre como se vestir bem ou adequadamente, ou uma apreciação ligeira e preconceituosa sobre as mulheres daqui, tu, que com a idade adquiriste um talento extra para a evasão, pensas em Said e o invocas. E então, como que protegido, consegues cumprir bem esse ritual tão nosso de encenar as aparências, enquanto lá fora se ouve o chamamento para o mundo real.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:47 Comentários:

Quarta-feira, Março 15, 2006

 
[O caderno de Tunis: Rue d' EL Koufa]

A Rue d' El Koufa tem uma posição geográfica discretíssima, nem os taxistas de Tunis a conhecem. Ela começa na Rue de Yougoslavie, cruza a Rue de Maousoul e termina na Avenue Farhat Hached. Em dois pequenos quarteirões os prédios de arquitectura colonial se espremem - num deles, o branco destaca-se de uma forma quase obscena de tão imaculado, enquanto que à noite, na rua, o cheiro à urina se mistura com os feios e esquecidos gatos de Tunis. E assim, na calada da noite, quando voltas exausto para o hotel, que começas a tua lição de amor, aquela que fará com que deposites nesta nova cidade, em armários embutidos em azuis, o despojo da tua memória mais exaltada. É Tunis, e não outra cidade, que te anuncia nas horas vazias, a direcção que deves orientar agora o teu coração.






Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:07 Comentários:

Terça-feira, Março 14, 2006

 



[O caderno de Tunis: Otages]


Não sabes, mas intuis, que de agora em diante a tua escrita te levará pelos caminhos do labirinto, aquele labirinto que resume toda a angústia de que é prisioneiro o Minotauro, e de que Borges também se fez nele um de seus encarcerados mais dilectos. Assim como o amor, a escrita também não te salva.

Sábado passado foste ao teatro e sabes bem o porquê, necessitas tanto de pertencer novamente, de te sentires incluído, de disfarçar a marca da hégira (que palavra árabe bonita para emigração) que ostentas em cada gesto quotidiano teu, como tomar um chá ou comprar um livro, que precisas de fazer as coisas que os outros fazem. Foste ao teatro em busca do outro, rapaz, e encontraste a ti mesmo.

No palco seis personagens, o desenho das luzes, a coreografia do desespero, a língua árabe e uma história que era contada. E tu compreendeste tudo porque é assim que funciona a inquietação ancestral do teatro, tu que de árabe não sabe mais que seis ou sete palavras, te comoveste com a história e olhaste para o teu lado: sim, a cadeira estava vazia, mas o teu coração transbordava:

- não temas, porque sabes por onde ir, já conheces esta história, já trilhaste por aí.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:36 Comentários:

Sexta-feira, Março 10, 2006

 



[O caderno de Tunis]

Estranhamente não chorei quando deixei Lisboa. Fiquei aflito, o coração entalado na garganta, o último discreto beijo no Pedro e foi essa imagem que ficou antes de entrar para aquela zona sem lei, sem afecto e seca, que é a zona internacional dos aeroportos de todo o mundo. Nuvens em Lisboa, um voo sobre o Tejo e pronto - tudo para trás. Gosto dos aviões, essas máquinas estupendas que podem me levar para qualquer lado, até para a morte. Algumas horas depois chegava a Tunis. Era noite e a cidade lá em baixo era o céu às avessas, o cosmos de revés. Iluminada, Tunis brilhava para mim: e então chorei - em meio aos turistas em algazarra - porque eu sei o quanto Tunis pode me oferecer, e também sei o quanto ela vai tirar de mim.

La porte bleue est ouverte.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:25 Comentários:

Segunda-feira, Março 06, 2006

 


The blue door, Tunis


" e aquela sensação imigrante
de chegar a um aeroporto aonde ninguém nos espera"


O autor deste blogue está de mudança. A partir do dia 9 de Março ele vai viver em Tunis. Os amigos dele têm uma opinião bastante distorcida sobre a sua personalidade, dizem "és mesmo corajoso, rapaz". É tudo mentira, o autor deste blogue é um medroso - mas daquele tipo que disfarça bem o medo. Ele já está imaginando o que lhe aguardará por detrás daquela porta azul que é a Tunísia. Os primeiros dias de solidão e trabalho, as novas línguas que se avizinham e as novas decepções também. E mais, o que lhe verdadeiramente assusta é que não terá, à noite, alguém que lhe socorra dos seus próprios pesadêlos. Ele não sabe o que escrever aqui, como carta de despedida, pois o seu coração se parece com uma bandeja de prata achatada, vazia e fria. O corpo reage e emite todos os sinais de desaprovação da mudança. Mas ele quer mudar, porque foi educado assim, para mudar: amar uma cidade, para depois abandoná-la. Ele sabe outra coisa também, quase secreta, que é ter a consciência do terrível gozo que é poder recomeçar sempre. E tal sensação, tal privilégio dos desgraçados, de tão forte que é dá náuseas e faz chorar. O texto termina aqui, porque não sei mais o que posso escrever sobre ele. O que sei, é que o Finisterra trocará de geografia, mas será sempre o Finisterra, esse lugar assombrado onde nunca sabemos o que começa nele, e o que termina.

- Lisbon Farewell

Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:29 Comentários:

 

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