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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Domingo, Fevereiro 26, 2006
Grandes pássaros negros falam comigo à noite
a noite e seu léxico
habitado por estrelas cadentes
última estação de viagem
era à noite
que os grandes pássaros negros
vinham me falar
da vocação do sol
e da violação provocada pela
luz
na memória
dos pássaros nocturnos
o dia era a estratosfera
de língua incandescente
percorrida em voo desesperado
em busca de abrigo
pássaros nocturnos
desabrigados pela luz
era à noite
que me cantavam em coro
um réquiem
para o que fora o dia.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 22:39
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Sexta-feira, Fevereiro 24, 2006
Explicação à Madalena
A vida sem sortilégios
consumida na voragem concreta
das coisas do mundo
essa máquina incessante
de fazer angústia
esse muro branco
intransponível
Eu sei tu sabes
da nossa regra mais
vital
- a de nunca ferir um pássaro
para buscar a explicação
das nossas aflições
Eu sei tu sabes
mas à nossa volta
a terra é isto
um vasto campo de asas mortas.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:29
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Sexta-feira, Fevereiro 17, 2006
I
Esventro o pássaro nocturno
em busca da sua luz interior
e como um sacerdote
interpreto (atónito)
os sinais da minha agonia
iminente
meticuloso
quase matemático
enumero
o espólio prosaico
saído do seu ventre
ferido -
oito sementes de sésamo:
a memória da infância ameaçada
três escaravelhos:
os amores perdidos
um pequeno molusco:
meu pai assassino
um ovo disforme:
meu leito de morte
II
Pássaro nocturno
sem vida
sem voo
sem canto
toma a minha mão
como a tua última
morada.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:59
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Quinta-feira, Fevereiro 16, 2006
ESTUDOS SOBRE O MELRO I
Mitologia do Melro:
e intrigado disse,
"que a pequena ave da noite
traga o sol no bico"
Primeira definição:
não é um pássaro;
é uma ideia que voa.
Arquitectura:
ave
de obstinada arquitectura
negra - um sopro no céu.
Segunda definição:
o melro
é um dissílabo que canta.
O encontro de Bach:
em Eisenach, aos cinco anos de idade, Bach encontrou um melro no meio do caminho; (Amsel, Amsel) nascia a ideia da fuga:
- o melro é a clave de sol na partitura.
Primeiro jogo:
o melro
é um anagrama latinoamericano
- Morel é sua identidade.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:56
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Terça-feira, Fevereiro 14, 2006
UN POZO QUE NON HAI
- Dáme auga, ña amiga
e ficarei aquí,
- Acolá hai un pozo
que reverque, meu habib!
- A auga que eu quero
está sorrindo a ti!
- Este pozo ten dono
percura outro, meu habib!
do Ciclo Semítico, de Álvaro Cunqueiro, Editorial Galaxia, Vigo,
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:52
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Quinta-feira, Fevereiro 09, 2006
Ela morreu no ano em que nasci, 1966, e amanhã faço quarenta anos. Como é que eu vou articular estas duas coisas? Explicar a morte da minha poeta favorita e a comemoração do meu nascimento. Não há nenhuma articulação, nenhuma explicação, para além do meu desejo de estar próximo dela, como um convidado do futuro. Não há nada, a não ser esse vazio angustiante que eu sinto dentro mim. Olho-me no espelho e gosto do meu aspecto físico, ainda me sinto atraente. Sou aquele tipo de rapaz que eu gostaria de conhecer. Para isso a explicação é simples: o espelho não reflecte o vazio, somente distorce a imagem. Olho mais perto, os meus dentes já não são bons (na verdade nunca foram), mas perder um ou dois será um golpe terrível na minha vaidade. Todavia o vazio não vem expresso no meu sorriso: ainda seduzo sorrindo, hoje mesmo aconteceu no comboio: eu, vazio, emitindo sinais enganadores com o meu sorriso.
Ontem à noite, antes de dormir, depois de uma conversa com o meu namorado: "sabes, agora me sinto como se tivesse acabado de saltar o abismo". O abismo é o vazio, é o buraco negro do meu sistema onde tudo morre, é o túmulo da luz. Sim, mas não tenho medo. O que me apavora é não saber "dizer", para conhecer o motivo que fractura o meu verbo e o reduz a pó sem significância: eu nunca convoquei a ideia de deus, porque admiti-lo em sua existência é pensar num mundo que nunca houve: um vazio ancestral que passou a ser preenchido com a angústia divina. Deus, se existir, é um pateta.
Há dois dias acordei sobressaltado [..................................]
e pensei que o amor não me salvará: foi assim um daqueles pensamentos rápidos e reveladores, daqueles que trazem uma verdade absoluta, inquestionável, "o amor não me salvará". A partir de então, os meus dias têm sido atormentados por esta canção: "o amor não te salvará" disse-me o rapaz do balcão, "o amor não te salvará" disse-me o rabino da sinagoga, "o amor não te salvará" disse-me a mulher a dias, "o amor não te salvará" disse-me o motorista do autocarro, "o amor não te salvará" disse-me, em sonho, o fantasma shakespeareano do meu pai (aquele morto), "o amor não te salvará" disse-me Abid Farook, o meu amigo paquistanês, "o amor não te salvará" disse-me eu mesmo, olhando para mim, no espelho da casa de banho.
Em 1966 morria Anna Akhmatova: eu nascia. Eu não era filho do amor, eu não era desejado, e já nascia derrelito - que longa e áspera é a via do abandono. E foi assim, aprendendo a fingir Amor, onde amor não existia, e foi assim, aos poucos e com talento cada vez mais apurado, que cheguei à verdade absoluta de que o amor não me salvará
- e a poesia é o meu único abrigo.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:03
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Quarta-feira, Fevereiro 08, 2006
Onze canções antes de dizer adeus: Cláudio
O tempo, esse lago profundo e escuro de superfície serena onde deposito, aos poucos, os resíduos da minha vida consumida. O tempo não me redime, e se transforma numa espécie de espelho que destorce aquilo que restou na minha memória, transformando o que é fruto em semente, o que é tijolo em barro, o que é palavra em pensamento. E de todas as canções que contigo ouvi, desde aquelas que falavam sobre a imigração da família até aquelas que incidiam sobre o desejo que nos unia, de todas, guardo uma, cantada por nós numa manhã de sol enquanto fazíamos a barba: nós, os homens do mundo, nós os argonautas da imponderabilidade - e nunca, absolutamente nunca, a frase "eu te amo" foi tão marcada pelo significado da sua precisão. E hoje, com o meu peito aberto pela faca do vazio, converto aquela melodia cheia de sol na jangada que ora me salva do naufrágio: mas sei (e o meu coração é um salto no escuro) que nestas águas em que me encontro, um abismo me espera para o seu discurso final.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:40
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Terça-feira, Fevereiro 07, 2006
Onze canções antes de dizer adeus: João
- Tu vais sentir saudades de mim?
- Não sei...
Às vezes uma palavra pronunciada tem a autoridade de uma lâmina que corta e seca o espaço que existe entre duas pessoas. Eu sei, não será por essa frase maldita que me lembrarei de ti, será pelas outras, aquelas que no início pronunciavas como se tivessem sido por ti inventadas; tu, um Adão acabado de ser criado, mostravas-me que o Paraíso era uma construção quotidiana feito de um vocabulário simples: "bom dia, amor", "compras-me o jornal?", "chego para o jantar às 20h30". Foi esse, e não outro, o mundo que perdi.
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