|
Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
|
Segunda-feira, Janeiro 30, 2006
Onze canções antes de dizer adeus: Isaac
"É uma canção antiga, aprendi-a em Haifa" dizias-me com o teu sorriso. Então, o nosso pequeno quarto ficava iluminado e Lisboa transformava-se novamente na praça do mundo. Mesmo não conhecendo o teu idioma, eu pressentia, adjacente, o significado daquela melodia, e ainda assim organizava a (nossa) vida com a determinação inabalável de que nada mudaria: pôr os livros na estante, comprar a comida do gato e pagar a conta do gás era reafirmar, através dos gestos simples da existência, que era possível evitar o abismo que se abria, silencioso, sob os nossos pés.
E daqueles dias de luz oblíqua me restou na memória a canção mais antiga aprendida em Haifa, e na secretária duas cartas de Budapeste que falavam de violinos e de tristeza.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:08
Comentários:
Sexta-feira, Janeiro 27, 2006
Eleições na Palestina, 2006
"eles não têm um estado, mas têm democracia", disse uma jornalista portuguesa.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:47
Comentários:
Terça-feira, Janeiro 17, 2006
Termina o teu ensaio, deixa o cão passear sozinho no parque e faz a tua barba, porque ele voltou. Arruma os livros na estante, telefona ao analista para cancelar a visita e faz café, porque ele voltou. Põe a tua melhor roupa, lê a correspondência da semana passada e dispensa a empregada, porque ele voltou. Lembra-te de uma boa piada, lê a crónica no jornal desportivo e telefona agora ao melhor amigo avisando que ele regressou.
É certo que a vida não precisa de explicações, mas necessita de poesia. Por isso, transforma o regresso em imagens: um quadro de Rembrandt, nuvens de estorninho, o metro cheio à hora do rush, o Tejo sob uma ventania, uma lareira no inverno e os quintais suburbanos.
- é isso, regressar é mover-se na imponderabilidade das coisas: carpe diem, disse um poeta latino.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:38
Comentários:
Sexta-feira, Janeiro 13, 2006
: il cuore trasmigra
e o coração transmigra, leio o verso isolado num poema maior de Quasimodo, um poema com título de instrumento de sopro que me faz recordar a casa da infância onde meu pai depositava, parcimonioso, as minúsculas notas do desespero familiar. Naquela época o meu coração já transmigrava, voava em direcção ao silêncio de um quarto derrelido, ou subia ao telhado e se aninhava como um pássaro desesperado, uma ave em fuga. E era assim, sem o saber, que me educava para o abandono.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:39
Comentários:
Quarta-feira, Janeiro 11, 2006
un lamento d'amore senza amore.
o dia principiou com a poesia de Salvatore Quasimodo, uma poesia que diz que no exílio a vida não é sonho, que "Più nessuno me porterà nel Sud." Ontem enterrei um amigo, hoje morreu-me uma relação. Uma avaliação ligeira da situação me diria que sim, que tudo corre mal e ninguém mais me levará ao Sul. O meu amigo morto agora repousa em solo estrangeiro e há nisso tudo algo de grego, como se de uma ofensa se tratasse, como se somente a sua terra fosse digna de receber o seu corpo. Mas havia um céu de um intenso azul, havia um sol magnifíco, estava frio, havia lamentações e havia uma paz. Quando o baíxavamos em direcção ao definitivo, algumas aves cruzaram o céu (lembrei-me de um poema) e chorei com um novo significado. Antecipei-me morto também, em terra estrangeira, e outros versos me aparecerem quase na forma de uma canção: if you had no name, if you had no history, if you had no books, if you had no family.
- o dia de hoje está assim, um lamento de amor, sem amor.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:18
Comentários:
Segunda-feira, Janeiro 09, 2006
Caro amigo, achei o poema da Anna Akhmátova para a tradução. Esta aqui ao meu lado, quieto, na sua língua nativa, esperando o empenho do meu entendimento. Mas sabes, ando tão triste. À minha volta as coisas correm mal, nem posso explicar, nem sei como fazê-lo. O que sei, é que às vezes queria poder acreditar na ressurreição, e na segunda chance para tudo. A cena acima é de Solaris, um filme que também fala de ressurreição, de segundas hipóteses, Guilherme. E o que dizes tu, que vives tão perto do coração selvagem, no centro da grande Babel?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 22:46
Comentários:
Domingo, Janeiro 08, 2006
Este é o esplendor
no que podo bañarme coma un Dionisos
e reproducir a valente destrución das follas...
X. L. Méndez Ferrín
À Íria,
que me ensina como ganhar o Mundo,
há um momento em que a língua na qual articulo o meu espanto pelas coisas deixa de ter qualquer significado; há um momento em que a minha origem, expressa no documento oficial que me posiciona no tabuleiro do mundo, deixa de ter sentido; há até um preciso instante em que a minha canção, a mais antiga e aquela, a que me fala o mais próximo do coração, não sai em sopro, e permanece em silêncio. E embriagado como um deus antigo, reproduzo a valente destruição das coisas, e desconstruo a árvore dos meus enganos.
Então, logo, parece surgir o breviário das minhas perdas: um trabalho, uma paisagem na janela, o vai-e-vem do elétrico anunciando o meu quotidiano e o convite dos amigos para mais uma sessão de documentários na cinemateca. Choro e acho que perco, e porque leio muito, acho que perco com mais talento ainda, e assim com o ensinamento de Elizabeth Bishop vou reconfigurando no mundo as perdas mais significativas, para descobrir enfim que ao perder uma cidade ganho o mundo, que se for um livro recebo uma biblioteca e se for um amor, ganho a humanidade inteira para amar - e amo mais, e melhor.
E logo em seguida, nesse jogo muito meu de fazer o balanço das perdas e ganhos, vejo à volta de uma mesa, num antigo bairro de uma capital europeia, a representação do meu mundo mais sensível - os amigos, a boa comida, a bebida e a poesia: e fico por saber mais, que se por fora o mundo é pólvora, por dentro ele é magnólia. Talvez seja essa a minha condição, perceber que a minha bioluminescência é esse misto entre o salitre, o carvão, o enxofre e uma flor branca dessas que "recendían por todo o xardín."
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:08
Comentários:
Quarta-feira, Janeiro 04, 2006
Poetas Galegos: Lorenzo Varela
O galo
1954
Vai na brétema o gando,
o rapaz vai na brétema.
Brétema arriba, brétema abaixo
o canto do galo.
Vai na iauga o gando,
o rapaz vai na iauga.
Pola iauga arriba pola iauga abaixo
o canto do galo.
Vai na noite o gando,
o rapaz vai na noite.
Pola noite arriba, pola noite abaixo
o canto do galo.
Vai no sono o gando,
o rapaz vai no sono.
Polo sono arriba, polo sono abaixo
o canto do galo.
o gando e o mozo o mozo e o gando,
sentían arriba, no hórreo do peito,
sentían debaixo, no valado da ialma,
a chirimía de cristal doénte
do canto do galo.
Vai na morte o gando,
o rapaz vai na morte.
Pola morte arriba, pola morte abaixo
o canto do galo.
In: Antoloxía, Edición de Xesús Alonso Montero, Edicións Xerais de Galicia, Vigo, 2005.
O galo, esse fenómeno composto de asas e canto, esse sacrífício branco nos fotogramas de Tarkóvisky, essa armadura guerreira de firme arquitectura que nos fala Gullar, esse animal que vai marcando o ritmo do quotidiano e da vida que nos fala Varela.
Há muito tempo (já posso escrever assim, sou um quarentão) lá nos perdidos anos 80, no burguês Leblon (bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro) , se não estou enganado, um galo, que vivia numa oficina mecánica, cantava à noite, pela madrugada adentro (dentro da noite veloz, no dizer do Ferreira Gullar), para o incómodo dos homens e mulheres do século XX que não conseguiam dormir. Houve reclamações, uma petição qualquer, duas ou três cartas em jornais e o galo nunca mais cantou, para o deleite dos burgueses do Leblon e suas noites vazias.
Nós os habitantes do Século XXI, os moradores das super cidades: São Paulo, Nova Iorque, Buenos Aires ou Cidade do México, perdemos por completo um mundo que existiu. Se não fosse a poesia, agora, quantos de nós saberiam que os galos cantam, e que ao cantarem trazem a aurora dos dedos rosados?
O galo de Lorenzo Varela abriu-me uma janela sobre a noite fria e húmida de Santiago de Compostela, e mobilizou o meu espírito em direcção à literatura e poesia galegas,
- E vou pola vida arriba, pola vida abaixo
Eu, Varela e o canto do galo!
|
|