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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Sábado, Dezembro 31, 2005
era unha noite de chuvia
era unha mañá de primavera
con vento morno.
era o cumio dunha montaña
a neve comezaba
e derreterse.
era un solpor lento
era L.A.
era cedo á tardiña.
chovía.
empezara a chover.
foi hai moito tempo.
estaba silencioso e escuro.
ocorría
á nosa volta.
empezara máis cedo
ese mesmo día.
e fora medrando
co tempo.
comezara coma outro
día calquera.
Foi co voo
dun paxaro.
de árbore a arame.
era tanta a calor.
foi hai tanto tempo.
estábase fraguando
e ninguén o podía controlar.
empezara había
moito tempo
tiña que ocorrer
ninguén o podía impedir.
era coma se non estivese a ocorrer.
era un espazo branco,
unha perda de consciencia -o mar-
o son das ondas -
movemento infinito. Era
a Terra que respiraba,
o son do aire -
o coche que pasaba -
o tráfico.
empezara
coma outro día calquera.
poema de Jim Hodges. Slower than this, 2001 traduzido para o galego e oferecido num folheto pelo Centro Galego de Arte Contemporánea, 2005.
Encerro o ano com a traduçãoo de um poema de Jim Hodges (numa de suas colagens) que encontrei numa exposição aqui em Santiago. Tocou-me o poema, tocou-me a tradução dele, toca-me tudo no momento: a chuva, a oliveira solitária que encontrei na Ruela de Xerusalen, o meu futuro impreciso, a minha imprecisa permanência na Europa, a voz da minha mãe ao telefone, a voz do meu namorado perguntando-me se estou bem. Tudo o que me cerca me comove: a notícia dos imigrantes sudaneses mortos pela polícia no Cairo, o aumento da xenofobia na Espanha e na Europa, o meu futuro imponderável, a chuva de Santiago, o quarto silencioso do hotel. Toca-me tudo. É fim de ano, em Fevereiro farei 40 anos, eu aqui... sob a chuva de Santiago. E na rádio há uma cançao que diz algo como: "quiero escuchar tu voz". O post de hoje era para falar que tudo é traduzível, que sempre é possível encontrar uma palavra equivalente, era um post para desdizer Whitman... Mas só consegui falar de mim... falar sobre mim me comove, sobretudo quando se encerra um ano.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:28
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Quinta-feira, Dezembro 29, 2005
"Pinochet, fichado por primera vez por la policía como un delincuente más"
Leio num jornal em Santiago de Compostela uma notícia que acontece noutra Santiago, a do Chile, e concluo que afinal este ano trouxe mesmo coisas boas. Os companheiros e companheiras que lutam pelo restabelecimento da justiça no Chile podem comemorar o 2006 com uma pequena vitória. Eu sei, é pouco, mas é o começo. Em Santiago de Compostela eu amo sob a chuva fina de inverno, e penso que ainda é possível reorganizar a minha vida: tenho amigos, tenho amigas, uma história de amor que pode começar, o sol, a lua e os astros, tenho o meu conhecimento acompanhado de todas as minha dúvidas, tenho as minhas memórias, tenho tanta coisa, me sinto rico. E transbordo, de alguma maneira, de um sentimento novo. Mesmo assim, sinto-me um pouco triste - mas é de uma tristeza para eu pensar sempre que a riqueza e alegria que tenho sao (onde está o til do teclado?) tao passageiras, estou triste quase profissionalmente... Na verdade nao posso reclamar, tenho amigos, tenho amigas e uma nova história de amor que pode começar... em Santiago de Compostela.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:20
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Terça-feira, Dezembro 27, 2005
Se no final de 2005 estiver assim, ora, camarada, sempre te restará a poesia. Bom 2006 para todos e todas, afinal ,só se vive vivendo..."
Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:17
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Sexta-feira, Dezembro 23, 2005
À noite, a cidade branca é amarela e fria com as luzes de Natal. Para além da pressa das compras, ninguém repara em ninguém na cidade branca de Ulisses. Ulisses da Silva, porque outro não é seu nome, toma o café sozinho num café qualquer, e pensa na aurora, nos dias que ficaram e num retorno impossível à cidade abandonada. Renunciar às cidades, o seu talento: abandonar os corações depois de habitá-los. Ninguém entende isso, ninguém compreende que a vida é feita de movimento. Ulisses olha a xícara do café e pensa "amei aquele homem porque ele era triste e sabia contar histórias sobre o mar, amei aquela mulher porque ela trazia o sol dentro do coração, e das suas mãos saíam vórtices de estorninhos que cobriam de asas a cidade dos desencantos, amei aquele outro homem porque trazia os olhos verdes numa caixa de ónix, e sempre me dizia que tinham sido um presente do seu avô palestino, amei aquela outra mulher porque quando criança, à noite, segurava na minha mão e me dizia que queria que eu fosse faraó, para poder ser minha... Amei tantos para ficar sozinho".
A noite fria de Natal na cidade da Península, as pessoas passam apressadas com as suas obrigações envoltas em papéis dourados e fitas vermelhas. Ulisses paga a sua conta no café, toma o metro em direcção ao subúrbio e desaparece no turbilhão da vida.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:51
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Quinta-feira, Dezembro 22, 2005
Eu me apaixonei por poucas mulheres na minha vida. Duas delas possíveis, sendo que uma esteve tão próxima de mim que nem havia uma fronteira precisa entre nós, nem sei onde eu começava e ela terminava. Outras impossíveis, mas nem por isso menos importantes. A primeira das minhas impossibilidades femininas foi Jessica Lange. Ainda hoje me lembro dela em King Kong, que passou num cinema em Manaus em 1977. Lembro-me perfeitamente daquele dia, da fila interminável para o cinema, dos meus pais aborrecidos por tanto esperarem e, finalmente, quando surge ela, a preencher a tela com a sua beleza. Foi a minha primeira noção de amor à primeira vista, ela a Jessica Lange. E havia aquele erotismo e sensualidade à sua volta, o banho, o beijo (que era um sopro) do gorila nela, e tudo isso agora na minha memória, tudo isso agora porque fui ver o King Kong na nova versão de Peter Jackson. Este post era para ser uma discussão intelectual sobre a nossa relação pervertida que mantemos com os animais, mas só consegui falar dela, da Jessica Lange.
Eu estou feliz, porque a revi em Broken Flowers, ela... A Jessica Lange.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:33
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Segunda-feira, Dezembro 19, 2005
... que es rosas la alba y rosicler el día,
leio de Góngora o verso acima e os meus pensamentos fogem para algum lugar não localizado no mapa. Eu sei, o Inverno envolve sempre algum tipo de ensinamento e nos indica que o recolhimento é também o tempo de sonhar as estações futuras no interior das nossas casas aquecidas: à espera do porvir solar. E queremos estar juntos e cumprir as escalas da vida, da nossa agenda prosaica. Eu leio Góngora e tu dormes apoiado em meu peito. E nesse preciso momento, quando a minha respiração e a tua fazem uma só, desejo mais do que nunca que o tempo não se cumpra, que pare tudo, que a Terra não circule e nem translade, que todos os voos nos aeroportos sejam cancelados, que a mãe não amamente e a criança não coma, que não amadureça o trigo no Sul e nem brilhe a estrela no Norte, que o galo não cante o seu canto ancestral, que o imigrante não salte a cerca e que o policial não saia para trabalhar, que as palavras fiquem em estado dicionário como dizia Drummond, que pare tudo porque o que eu quero é somente isso, interromper a minha leitura e ficar, para sempre, observando os movimentos do teu sono ao encontro do meu.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:50
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Sexta-feira, Dezembro 16, 2005
Exposição sobre a pedra para o Pedro
A pedra filosofal dos alquimistas, a educação pela pedra de João Cabral, a pedra no caminho de Carlos Drummond, a pedra fria e refractária de Ungaretti, a pedra dos desenganos, a pedra da Gávea, a pedra destruída de Tróia, a grande pedra coluna de Baalbek, a pedra que matou Golias, a pedra da intifada (o coração palestino), a pedra que me feriu duas vezes na cabeça, eu um Golias menor, a pedra de mármore que ainda dorme no coração da estátua (Moisés em San Pietro in Vincole), a pedra que rima de Dante, a pedra traduzida de Haroldo de Campos, a pedra no sapato que incomoda, a pedra escurecida pelos pecados dos homens, a grande pedra calendário dos astecas, todas as pedras do Egipto, a pedra onde repousa o nome do meu pai, a pedra, a pedra.
- e a pedra onde agora construo uma nova morada.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:33
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Quinta-feira, Dezembro 15, 2005
Meu coração, seu coração, 1992
Leonilson
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:59
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Quarta-feira, Dezembro 14, 2005
É assim que cumpro os rigores de dezembro exibindo em praça pública a consciência do meu defeito: o sentimento de posse sobre o outro. E eu, que tantas vezes me vangloriei de ter resistido e protestado contra a educação machista latinoamericana dos meus ancestrais "o macho branco, católico, adulto, sempre no comando", agora me vejo na situação de desejar alguém só para mim - é o caminho do amor que liberta, o que busco, mas quero percorrê-lo contigo, Companheiro.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:18
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EM DEZEMBRO
É o mundo que nos desgosta
em Dezembro
ou a distância a que estamos
de um certo Verão?
Sublinhámos os velhos livros
por razões misteriosas. Éramos
outros, eram outras as coisas
que nos comoviam.
De resto, nada mudou.
Os dias ficaram mais curtos,
mas hão-de tornar a crescer
e serão ainda pequenas
as circunstâncias para a nossa
alma.
Rui Pires Cabral
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:33
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Terça-feira, Dezembro 13, 2005
Otto Greiner: Dante and Virgil visiting Hell (Inferno, canto 22), 1895.
Não conheço nada sobre a filosofia europeia dos século XI e XII, mas sei algo sobre a poesia de Dante Alighieri. Sei também que um século espiritual não é o mesmo que um século matemático: não começa em 0 e nem acaba em 99. Dante viveu entre 1265 e 1321, é legítimo pensá-lo, então, como o depositário de todo aquele ambiente cultural vivido nos séculos anteriores. Creio que a filosofia que tanto gostas está plasmada na poesia dele. Na sua obra maior, a Commedia, acredito que gostarás mais do Inferno, da sua arquitectura imbricada, que sobe quando parece descer, que apresenta o drama e a dor do sofrimento humano através dos exemplos de personagens históricas e mitológicas: Ulisses e o Minotauro, Cavalcante dei Cavalcanti e Mohammed: os que viveram e os que quisemos que vivessem, todos ali, prisioneiros para sempre, enquanto durar aquilo a que - muitas das vezes de forma pervertida - chamamos de a nossa cultura. É provável que agora eu saiba o real significado da prisão mencionado por Borges no seu texto que fala sobre o labirinto de Creta: aprisionados pela escrita. Eu divago, Companheiro, e penso que devemos iniciar pelo início mesmo das coisas. Se eu pudesse escolheria reaprender a falar contigo, e na tua presença chamaria de pedra aquilo que efetivamente é pedra. Mas já fomos os dois tocados pela nossa cultura, pelos nossos livros - portanto, recomeça comigo a Commedia de Dante (podemos fazê-lo ainda esta semana) e terminemos o ano em Florença. Quero te mostrar duas paisagens nesta cidade, uma exterior, acessível para todos que têm olhos e que vêem, a outra é uma paisagem interna, que dorme lá dentro da gente, eu divago, Companheiro...
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:56
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Segunda-feira, Dezembro 12, 2005
Autoestrada do Sul
O carro cumpria a sua rota de volta
e nós, silenciosos, habitávamos cada um
o seu hemisfério
não sei por onde teus pensamentos andavam
eu seguia, obsessivo, a ideia fixa de
que nem sempre podemos
depositar, como um manto,
um entendimento sobre as
coisas do mundo
minha convicção afectiva era tão simples
quanto uma equação primária:
bom era estar ao teu lado ali
na autoestrada
enquanto cruzávamos
a planície
e menos severa ficou a minha compreensão
daquilo a que obstinadamente chamei
de vida, e que ela poderia ser, afinal
- essa autoestrada em direcção ao sol, esse poema em aberto.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:45
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Sexta-feira, Dezembro 09, 2005
Sobre as afinidades: os anos 80
"And if a ten ton truck kills the both of us
To die by your side, well, the pleasure and the privilege is mine"
Ontem à noite na cozinha
enquanto preparávamos o jantar
ocupei o minuto
de silêncio entre nós
com a elaboração
de uma teoria
que me explicasse
e disse-te:
"quando estou longe de ti
Deus com um sopro
abre uma ferida
no meu peito
e em seguida
esfrega sal grosso
e deixa lá no fundo
a pinha incandescente
meu farol intímo
- tu chegas
saras minha ferida
e transformas o fruto
em sol."
E na sala
enquanto falo
é Morrissey
quem canta.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:13
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Quarta-feira, Dezembro 07, 2005
Sobre as afinidades: o espaço dos livros
Na tua casa a biblioteca principia
com os livros de filosofia e conclui
nos livros de poesia,
na minha é exactamente
ao contrário
e a felicidade é te encontrar
no meio,
a caminho.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:26
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Terça-feira, Dezembro 06, 2005
É o que normalmente acontece quando um urso sai da toca sem o seu companheiro !
* Uma nota: eu sei que este blogue tem um perfil sério de mais por vezes, mas o seu autor, no momento, passa por aquilo que Ortega y Gasset define como "estado provisório de estupidez", o que equivale dizer: "ele está apaixonado".
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:42
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Segunda-feira, Dezembro 05, 2005
"O mais nobre é a justiça e o mais desejável é a saúde; mas o que de mais doce há é encontrar o que se ama"
Epigrama de Delos
Aristóteles, Ética a Nicómaco
Então, meu rapaz, o que é que vais fazer agora que tens tudo em dobro? Duas inteligências e dois corações, quatro olhos e duas línguas, quatro membros superiores e quatro inferiores (o que faz de ti uma espécie de Shiva), dois sexos espelhados, dois vastos peitos, duas largas costas, dois aparelhos digestivos, tudo dobrado porque me tens a mim. O que farás agora que tens duas histórias para contar, e duas ordens grandes de problemas, e duas possibilidades de viver? Pergunto isso porque me tens a mim. Tens mais: duas famílias, dois países e dois continentes. Tens contigo a grandeza dos trópicos e dois céus distintos que à noite mostram duas ordens de estrelas. Tens agora o Pólo Sul - que todos sabem ser um continente gelado - a vastidão da Patagónia e a imensidão da Amazónia, o que farás? Pergunto mais uma vez porque me tens a mim. Duas realidades, duas profissões, e mais amigos também. Tens o céu e o inferno, a filosofia a história, e um pai, que nunca o conheceste mas que era músico e escrevia poemas quando ficava triste, o que farás com isso agora? Tu não sabes ainda, mas agora tens o dobro de cidades visitadas, tudo isso porque me tens a mim: conheces Florença de madrugada e já até lá choraste a tua solidão, tiveste em Teotihuacán e também lá estavas só. Tudo em dobro na tua vida, porque me tens a mim. E para complicar, agora tens duas normas ortográficas para a mesma língua, e tudo isso porque a minha língua agora é tua também, o que farás, rapaz, agora que somos um só?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:49
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Sexta-feira, Dezembro 02, 2005
O navio de espelhos
O navio de espelhos
não navega, cavalga
Seu mar é a floresta
que lhe serve de nível
Ao crepúsculo espelha
sol e lua nos flancos
Por isso o tempo gosta
de deitar-se com ele
Os armadores não amam
A sua rota clara
(Vista do movimento
dir-se-ia que pára)
Quando chega à cidade
nenhum cais o abriga
O seu porão traz nada
nada leva à partida
Vozes e ar pesado
é tudo o que transporta
E no mastro espelhado
uma espécie de porta
Seus dez mil capitães
têm o mesmo rosto
A mesma cinta escura
o mesmo grau e posto
Quando um se revolta
há dez mil insurrectos
(Como os olhos da mosca
reflectem os objectos)
E quando um deles ala
o corpo sobre os mastros
e escruta o mar do fundo
Toda a nave cavalga
(como no espaço os astros)
Do princípio do mundo
até ao fim do mundo
Mário Cesariny
No que toca a sua criação, alguns poemas de tão poderosos, de tão pertubadores, nos dão uma inveja danada. O navio de espelhos do Cesariny, quem não daria um braço por ele? Ficaríamos amputados mas felizes por trazer à realidade algo de tão sublime. Ajuda tanto a viver, depois de lê-lo. E eu não o conhecia até ontem, quando na tua casa puseste-o (dito numa gravação pela voz do próprio Cesariny) para mim, para ouvi-lo contigo enquanto lá fora a chuva desfazia o mundo dos subúrbios. Já não sei de mais nada, e entendo tanto este navio de espelhos. Mais à noitinha, na cama ao teu lado, meio-adormecido o que vale dizer meio-desperto, disse-te, julgo, que contigo me sentia como se estivesse te percorrendo pelas margens - é isso, agora me lembro, era como se eu te habitasse nas duas margens de ti, e meio-desperto, próximo da tua boca, pronunciei: "deixa-me mergulhar ". E lá fora era já o mundo em total reconfiguração.
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