finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Quarta-feira, Novembro 30, 2005

 


" E de lua a cidade espessa se ilumina..."
Ossip Mandelstam



Eu estava preparado para escrever sobre Ossip Mandelstam e a importância da sua poesia. Mas enquanto corrigia o meu livro que nem sei se sairá publicado algum dia, bebi um pouquinho, e me lembrei do meu amigo Marcelo, e de Porto Alegre, e de como, numa noite de bebedeira, andei com ele perdido pela cidade e vimos, juntos, as estrelas enganadoras no céu do parque da Redenção - e nos perdemos na noite vazia, preenchendo-nos um do outro. E não era preciso verbo, não era preciso falar, e com Marcelo aprendi uma nova língua baseada no silêncio.

Enquanto escrevo isso, no momento em que falo da minha memória já antiga, me recordo da biografia de Mandelstam, do seu exílio na Sibéria, do frio e da fome experimentados, da troca que ele fazia das únicas coisas que tinha (sapatos, roupas) por um punhado de açúcar. E fico comovido, e compreendo perfeitamente porque é que alguém pode trocar o pouco que tem, por aquilo que jamais poderá ter: trocar a poesia por um pouco mais de vida.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:32 Comentários:

Terça-feira, Novembro 29, 2005

 


TREZE VERSOS

E finalmente pronunciaste a palavra
não como quem se ajoelha,
mas como quem escapa da prisão
e vê o sagrado dossel das bétulas
através do arco-íris do pranto involuntário.
E à tua volta cantou o silêncio
e um sol muito puro clareou a escuridão
e o mundo por um instante transformou-se
e estranhamente mudou o sabor do vinho.
E até eu, que fora destinada
da palavra divina a ser a assassina,
calei-me, quase com devoção,
para poder prolongar esse instante abençoado.

Anna Akhmatova

(Tradução: Lauro Machado Coelho)



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:29 Comentários:

Quinta-feira, Novembro 24, 2005

 
Questo core
Quante volte morirà!

[Mozart/Varesco]



A minha irmã, minha amante,
anuncia pelo sms "este sol é para ti,
adoro-te"

e o inverno toma outra configuração
na península devastada pelo intervalo
inescrupuloso da vida

esse vai-e-vem frenético
da cidade sem afectos

na praça maior, debaixo do sol,
tu passas em marcha apressada
bonito, decidido

se fosse no tempo dos mitos
eu pensaria "é Idomeneo a caminho
de Creta"

os mitos,
os mitos somos nós

- e cruzo a avenida noutra direcção.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:32 Comentários:

 
Pais e Filhos

Estatuas e cofres. E paredes pintadas.
Ninguém sabe o que aconteceu.
Ela se jogou da janela do quinto andar.
Nada é fácil de entender.

Dorme agora.
É só o vento lá fora.
Quero colo. Vou fugir de casa.
Posso dormir aqui com você?
Estou com medo. Tive um pesadelo
Só vou voltar depois das três.

Meu filho vai ter nome de santo.
Quero o nome mais bonito.

É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.

Me diz porque o céu é azul.
Explica a grande fúria do mundo.
São meus filhos que tomam conta de mim.

Eu moro com a minha mãe
Mas meu pai vem me visitar.
Eu moro na rua, não tenho ninguém
Eu moro em qualquer lugar.
Já morei em tanta casa que nem me lembro mais.
Eu moro com os meus pais.

É preciso amar as pessoas como se
Não houvesse amanhã.
Porque se você parar para pensar,
Na verdade não há.

Sou uma gota d'agua
Sou um grão de areia.
Você me diz que seus pais não entendem.
Mas você não entende seus pais.

Você culpa seus pais por tudo.
E isso é absurdo.
São crianças como você
O que você vai ser, quando você crescer?

Renato Russo




1989, Glasnost, Perestroika, o mundo dava cambalhotas no ar e nós ainda sem as nossas feridas, aquelas marcas que hoje nos identificam e nos posicionam no mundo. Na Universidade Federal Fluminense, em Niterói, eu achava que ia morrer no dia seguinte, e amava ainda mais os meus amigos e amigas. Foi isso o melhor que aprendi na vida: amar, amar mais, amar melhor.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:33 Comentários:

Quarta-feira, Novembro 23, 2005

 
TOUS LES GARÇONS ET LES FILLES
(Françoise Hardy)


Tous les garçons et les filles de mon âge
Se promènent dans la rue deux par deux
Tous les garçons et les filles de mon âge
Savent bien ce que c'est qu'être heureux
Et les yeux dans les yeux
Et la main dans la main
Ils s'en vont amoureux
Sans peur du lendemain
Oui mais moi, je vais seule
Par les rues, l'âme en peine
Oui mais moi, je vais seule
Car personne ne m'aime.

Mes jours comme mes nuits
Sont en tous points pareils
Sans joie et pleins d'ennui
Personne ne murmure «je t'aime» à mon oreille

Tous les garçons et les filles de mon âge
Font ensemble des projets d'avenir
Tous les garçons et les filles de mon âge
Savent très bien ce qu'aimer veut dire
Et les yeux dans les yeux
Et la main dans la main
Ils s'en vont amoureux
Sans peur du lendemain
Oui mais moi, je vais seule
Par les rues, l'âme en peine
Oui mais moi, je vais seule
Car personne ne m'aime.

Mes jours comme mes nuits
Sont en tous points pareils
Sans joie et pleins d'ennui
Oh! quand donc pour moi brillera le soleil?

Comme les garçons et les filles de mon âge
Connaîtrai-je bientôt ce qu'est l'amour?
Comme les garçons et les filles de mon âge
Je me demande quand viendra le jour
Où les yeux dans ses yeux
Et la main dans sa main
J'aurai le coeur heureux
Sans peur du lendemain
Le jour où je n'aurai
Plus du tout l'âme en peine
Le jour où moi aussi
J'aurai quelqu'un qui m'aime


Outra canção, e a primeira vez que a ouvi foi em Manaus, na Aliança Francesa, mais precisamente na cave, onde morava um rapaz que sempre me pareceu perdido no mundo. Eu tinha o quê? Uns 13 ou 14 anos e achava que viveria toda a minha vida naquela cidade perdida no meio da Floresta Amazónica. E aquele rapaz, ouvindo uma música de uma língua estrangeira, era para mim a materialização de que sim, de que era possível eu me evadir de mim próprio: o rio, a floresta, a arquitectura de uma cidade em seu sono quase eterno, assim Manaus me pareceu naquele instante. E hoje, eu me pergunto: "Evadi-me o suficiente? Há algum lugar em mim a ser habitado somente por mim próprio? Em que território ainda me desconheço? Mas enquanto não me conheço o suficiente, vou pela rua, sozinho, com a minha alma suspensa.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:00 Comentários:

Terça-feira, Novembro 22, 2005

 
Floricanto

(Lhasa de Sela)


Mi corazón sufre y se llena de enojo
Sólo una vez se nace, una vez se es un hombre
Una vez se ama, pues de una vez por siempre
Este es mi destino, vivir según su antojo

Si aún por breve tiempo estuvieras a mi lado
Envuelto en mi rebozo suspenso en mi beso
Dejando tu cuidado entre flores olvidado
Si aún por un momento estuvieras a mi lado

Del todos nos vamos y desaparecemos en su casa

Mi corazón sufre porque él también se acaba
Suspira por la vida y marcha hacia la nada
Su dominio es dudoso, su deber peligroso
Sus nervios y su voz y su órbita prestados

Allá se hacen los cosas ondulando donde vida
No hay

Outra canção, para se ouvir um dia desses, quando finalmente eu der o passo decisivo.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:25 Comentários:

Segunda-feira, Novembro 21, 2005

 
Apenas um Rapaz Latino Americano

(Belchior)


Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes e vindo do interior
Mas trago na cabeça uma canção do rádio
Em que um antigo compositor baiano me dizia
Tudo é divino, tudo é maravilhoso
Tenho ouvido muitos discos, conversando com pessoas
Caminhado o meu caminho, papo o som dentro da noite
E não tenho um amigo sequer que ainda acredite nisso não
Tudo muda, e com toda a razão
Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes e vindo do interior
Mas sei que tudo é proibido, aliás, eu queria dizer que tudo é permitido
Até beijar você no escuro do cinema quando ninguém nos vê
Não me peça que eu lhe faça uma canção como se deve
Correta, branca, suave, muito limpa, muito leve
Som, palavras são navalhas e eu não posso cantar como convém
Sem querer ferir ninguém
Mas não se preocupe, meu amigo, com os horrores que eu lhe digo
Isso é somente uma canção
A vida realmente é diferente quer dizer, ao vivo, é muito pior
Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco
Por favor não saque a arma no saloon, eu sou apenas um cantor
Mas se depois de cantar você ainda quiser me atirar
Mate-me logo à tarde, às três, que à noite eu tenho compromisso
E não posso faltar por causa de você
Eu sou apenas um rapaz latino americano sem dinheiro no banco
Sem parentes importantes e vindo do interior
Mas sei, sei que nada é divino
Nada, nada é maravilhoso
Nada, nada é secreto
Nada, nada é misterioso não.

Nunca uma canção fez tanto sentido, nunca uma canção me traduziu tanto.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:13 Comentários:

Sexta-feira, Novembro 18, 2005

 

Do Ciclo de Polifemo

- III -


O historiador francês Pierre Vidal-Naquet no seu interessante livro O mundo de Homero apresenta, resume e define Polifemo nos seguintes termos, "o Ciclope Polifemo é um canibal comedor de homens. Devora crus vários companheiros de Ulisses e só a embriaguez o vence. É certo que é um monstro de um só olho mas sobretudo os Ciclopes não conhecem a agricultura, nem a vida em sociedade. São pastores, criadores nómadas."

Logo depois de ler estas linhas, ontem à noite, no meu quarto medieval, me senti invadido por uma espécie de angústia, acompanhada de uma sede súbita e uma terrível dor de cabeça. Era tarde, muito tarde, e já imperava o silêncio no meu bairro. Fui à casa de banho buscar uma aspirina. Acendi as luzes e entrei. Imediatamente vi a minha imagem reflectida no espelho, e para o meu espanto estava lá, impresso no alto da minha testa, a vermelhidão de um olho vazado, e antes de cegar completamente ainda pude gritar:

- Ninguém me feriu, Ninguém me fez mal.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:06 Comentários:

Quinta-feira, Novembro 17, 2005

 
Do Ciclo de Polifemo

- II-


Ontem no início da noite, enquanto caminhava pela Avenida da Liberdade, olhei para o céu e vi que a lua era um imenso prato de prata, um disco barroco fabuloso, o olho atento de Polifemo - a manifestação do seu olhar antes da cegueira inevitável.

A lua me acompanhava nas minhas interrogações. Cumpri as trivilidades do dia sem questionar muito a vida. Às vezes, é melhor assim, me sinto mais protegido e menos exposto. Não ter as responsabilidades de um deus, não ter os rigores morais de um herói, não ser especial. Apenas um homem que cumpre a sua agenda mesquinha. Um homem comum.

Homens comuns também querem coisas maiores; mas sonham o seu pesadêlo antes de possuí-las. Antes mesmo de verem o mundo que querem ter, vêem a sua perda e destruição total. E ficam aterrorizados, e se imobilizam perante a possibilidade. Homens comuns sofrem a sua normalidade e, às vezes, lêem na segurança dos seus quartos, poemas sobre a arte de perder.

- A lua no céu, a lua de Polifemo.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:56 Comentários:

Quarta-feira, Novembro 16, 2005

 

Do Ciclo de Polifemo

- I -


Eu não sou um bom contador de estórias. O meu discurso, geralmente, descreve uma elipse, por demais longa às vezes, e posso me perder em algum ponto da narrativa. Quando isso acontece, quem me ouve, experimenta comigo a sensação terrível de estar à deriva, de ter perdido o fio à meada, de estar desamparado. Talvez fazer uma viagem comigo traga ao companheiro algum perigo, ou talvez não.

Recomeçar sempre do mesmo ponto? Será esta a minha condição essencial? Nunca finalizar um projecto, nunca construir por inteiro uma casa? Nunca escrever um livro? Onde estarei mais seguro? No início ou no fim? Seja como for, aceito a generosidade da tua companhia e conto-te estórias para dormir.

Naquela noite, a primeira, passada no meu quarto medieval, enquanto reorganizavas a arquitectura do meu peito, pediste-me que te contasse uma estória qualquer, porque querias dormir num novo bosque. Então, porque os meus olhos estavam tão próximos dos teus que faziam deles um só, contei-te uma estória antiga que falava de um herói (astuto) chamado Ulisses e de como ele tinha salvo os seus homens da fúria de um ciclope chamado Polifemo. Ouvias com atenção as minhas elipses, e não nos perdi em nenhum instante. No momento crucial, quando o herói astuto fura o único olho do ciclope, tu revelaste-me a dor e o terror sentido por Polifemo, e disseste-me "que estória violenta, o único olho e vazado". E naquele preciso instante vi o homem especial que tu és, pois nunca ninguém se compadeceu da dor mortal de Polifemo, que não mais veria o verde da sua ilha e nem a beleza do seu rebanho, que não mais poderia contemplar o pôr-do-sol e nem a aurora, Polifemo, cego para sempre, por astúcia de Ninguém.

A noite foi longa, e não dormi. Eu não podia. Mantive o meu olhar sobre o teu sono, e me perguntava, a todo instante, por onde é que tu andavas.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:03 Comentários:

Terça-feira, Novembro 15, 2005

 

Falas-me de futuro, é certo, como se o fluxo daquilo a que o nosso entendimento chama de tempo pudesse ser trivializado em categorias. Será que não te banhaste nas águas do rio Eliot? Já vivemos o nosso futuro desde a noite em que, protegido no meu quarto medieval, tu encontraste um ponto novo na cartografia do meu corpo e puseste nele o teu nome, e disseste-me com a tua voz mais íntima, "esse é o Monte A., e será daqui, dessa geografia tão específica, que contemplarei, silencioso, o teu ritual quotidiano" e redesenhaste em seguida o traçado do meu peito, transformando-o de áspera ágora em húmido bosque. As coisas e os nomes: contigo é provável que eu tenha de aprender um novo idioma e uma nova ciência.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:07 Comentários:

 
One Art

The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three beloved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

-- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) a disaster.

Elizabeth Bishop

*****

Uma arte


A arte de perder não é nenhum mistério;

Tantas coisas contêm em si o acidente

De perdê-las, que perder não é nada sério.

Perca um pouquinho a cada dia. Aceite, austero,

A chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:

Lugares, nomes, a escala subseqüente

Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero

Lembrar a perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Perdi duas cidades lindas. E um império

Que era meu, dois rios, e mais um continente.

Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.

- Mesmo perder você (a voz, o riso etéreo que eu amo) não muda nada. Pois é evidente

que a arte de perder não chega a ser mistério por muito que pareça (Escreve!) muito sério.


tradução de Paulo Henriques Britto





Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:04 Comentários:

Segunda-feira, Novembro 14, 2005

 


Vem comigo atravessar o deserto. A viagem não será fácil, mas estarei lá, sempre ao teu lado, vigilante.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:12 Comentários:

Sexta-feira, Novembro 11, 2005

 


Punica granatum, é assim que ele está agora, como uma granada vermelha (cartaginesa), o meu coração explode em várias direcções. Fragmenta-se em balas perdidas. E todos nós sabemos, as balas perdidas também se alojam em algum lugar.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:36 Comentários:

Quinta-feira, Novembro 10, 2005

 
Há algo que é preciso ser dito sobre a beleza perturbadora dos teus olhos: eles traduzem o arquipélago que trazes em ti, e todo esse imenso isolamento que vais, aos poucos, construindo à tua volta. Sim, eu também habito contigo na tua ilha mais secreta, naquela protegida do vento e do sol; na ilha minúscula onde as palavras permanecem, como dizia Drummond, em estado dicionário. E sabemos nós a espessura e o perigo que cada palavra mal pronunciada pode trazer: "eu te amo", "não me deixes", "preciso de ti", "vai-te embora". E mesmo sabendo dos riscos que corremos dizemos, invariavelmente, "eu te amo", "não me deixes", "preciso de ti" e "vai-te embora". Eis toda a nossa danação, dizer, e romper para sempre o delicado silencio que nos protege.

- ainda subirei contigo, o topo mais alto do teu arquipélago.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:45 Comentários:

Quarta-feira, Novembro 09, 2005

 


O pintor Paul Gauguin amou a luz da Baía de Guanabara
O compositor Cole Porter adorou as luzes na noite dela
A Baía de Guanabara
O antropólogo Claude Levy-Strauss detestou a Baía de Guanabara
Pareceu-lhe uma boca banguela...


* Caetano Veloso


Acordo e ligo o som. Ouço Estrangeiro, do Caetano Veloso. É Lisboa lá fora, e em mim já pulsa, novamente, o Rio de Janeiro e a Baía de Guanabara.

1989 foi o ano de lançamento desse disco fabuloso. Vivíamos todos nós uma cultura de rescaldo dos anos 80. Nós, os estudantes de História da Universidade Federal Fluminense víamos o desmonte do mundo, o fim do século XX e a fragmentação das esquerdas. Agora vejo o fantástico que era tudo aquilo - nós todos, reduzidos a filhos e filhas da rua Arbat esperávamos a nova ordem das coisas, e o mundo que ainda viria por arder.

A Baía de Guanabara não era somente o cenário concreto a ser atravessado por nós, os cariocas, que íamos estudar para Niterói numa viagem diária de ida e volta; era outro tipo de viagem que experimentávamos nas barcas, naquele intervalo da vida. Não sabíamos, mas o percurso que fazíamos era para dentro de nós, para o labirinto dos nossos afectos, o mundo mudava e ainda não tínhamos as nossas feridas pessoais. Mas como gostávamos da nossa intervenção intelectual no mundo, e lá fora a Baía de Guanabara. Sempre nos sentávamos no lado da barca que apontava para a entrada da Baía: o Pão de Açúcar, as águas de cor indefinida, os outros barcos e os botos desavisados, perdidos em meio à poluição. Era a Baía de Guanabara, bela como uma boca banguela.

Não sei o que se passa comigo. Tomo banho, saio de casa, é Outono em Lisboa. Caminho em direcção ao trabalho. Desço o Príncipe Real, atravesso a Praça da Alegria, chego à Avenida da Liberdade e subo-a em direcção ao Saldanha. É Lisboa a minha paisagem externa, dentro carrego a Baía de Guanabara

- eu sei o que isso significa, é que já não estou mais aqui.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:11 Comentários:

Terça-feira, Novembro 08, 2005

 
Sonata de Outono: rio epifanos


I do not know much about gods; but I think that the river
Is a strong brown god - sullen, untamed and intractable...

* T. S. Eliot



Dele, do rio, já disseram quase tudo, que as suas águas nunca são as mesmas, sendo ele sempre o mesmo; que para além dele há a terra da promissão, com a abundância de leite e mel; que é um deus castanho, taciturno, indómito e intratável; que é uma lâmina solar atravessando o canavial, transporte severo da agonia: o rio. Olho a paisagem nocturna desta cidade e ele está lá, silencioso na sua superfície, eficiente no seu discurso, o rio.

Penso que à noite o rio não é mais um rio, não há lua a usá-lo como espelho, e as luzes enganadoras da cidade mais não fazem que mapear, discretamente, as suas margens. Mas o rio corre, interminável em direcção ao mar. O que será que as suas águas dizem ao mar? Nada, porque se olharmos bem, o rio já não está lá. E se mirarmos mesmo bem fundo, no lugar mais distante do nosso entendimento, veremos, para o nosso espanto e maravilhamento, que o rio não existe; lá, naquele obscuro reino da linguagem, o rio não é ainda, é somente a primeira chama do nosso intelecto.

E depois, vem-nos a nossa epifania concreta, desmistificada: "o rio, afinal, sou eu."




Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:34 Comentários:

Segunda-feira, Novembro 07, 2005

 
Sonata de Outono: o rio

Há um rio que se encontra com o mar, mesmo quase à frente da cidade. Há praças tão amplas que nelas caberiam toda a tristeza do mundo. Há o branco do mármore, retorcido em formas bizarras, imitando motivos marinhos e vegetais. Há os silêncios da história: os que foram mortos por crimes, os que foram escravizados, os vilipendiados. Há o som das aves e do vento, e dele dizia um antigo sábio que servia para emprenhar as éguas: as éguas lusitanas. Há estrangeiros (haverá melhor palavra do que esta?) de todas as partes, e eu sou uma parte deles. Há homens e mulheres que andam pelas ruas, e poucas crianças.

O rio muda de cor, consoante as regras da natureza. Sempre que isso acontece fico em estado de alerta, porque mudo também. É um Tejo Solaris, esse rio que se encontra com o mar. O rio somente é um rio porque discursa como rio. Narra sempre uma história linear (será?), aponta sempre na mesma direcção. O rio Tejo nunca volta. Eu venho de uma país aonde alguns rios voltam, enfurecidos e contra a sua vontade, mas voltam. Eu também sou de uma terra onde os rios enfrentam o mar (de tão grandes que são) e por quilómetros adiante vão adoçando as águas. Eu tiro o sal da água, e lavo as estátuas das suas iniquidades: o meu amor faz isso, e ao fazê-lo me salva da morte. Eu não sou um rio, eu sempre posso voltar à nascente. Mas eu não tenho nascente, tenho nascentes - e uma vez renascido aqui, também posso voltar para cá, aqui aonde os rios nunca voltam.

Os rios e os seus discursos inexoráveis:

- os rios e os enganos de Heráclitos.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:27 Comentários:

Sexta-feira, Novembro 04, 2005

 



Hoje este blogue faz um ano. Não sou exactamente um homem de comemorações, e não sei explicar o porquê, mas hoje faz um ano que retomei a escrita como exercício perturbador, e não somente como instrumento de trabalho. Já é o meu segundo blogue, antes eu tinha o Cartas de Lisboa que decidi pela sua destruição, é isso mesmo, a palavra é essa. Na época queria não mais escrever, mas os amigos do meu quotidiano virtual e real incentivaram-me a continuar, em especial, devo confessar, o MB do Musas Esqueléticas. Então voltei, reapaixonado (os analistas podem usar a palavra "causado") e motivado para escrita.

Escrever num blogue e mantê-lo não é fácil, e é, no meu entendimento, um constante acto de rebeldia e de inconformismo. O que vale é que nunca estamos sós, e por isso, o Finisterra é também uma obra colectiva feita por seus visitantes: Pequenos Nadas, Ao Longe os Barcos de Flores, Papel de Rascunho, Autoria do Feminino, As Musas Esqueléticas, Cigarettes & Vinyl, Coisas da Normandia, Nocturno com Gatos, Perto do Coração Selvagem, Linha de Cabotagem, ti_a_u, My Love Hotel, Ilha de Naxos, Exodus Brasil, Esquerda Republicana, Eugenia in the Meadow, Muita Letra, Navegar Impreciso, Dicionário Pessoal e muitos amigos e amigas, pessoas que vão passando pela minha vida e que permitem que eu as habite, que eu as acompanhe estrada fora.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:59 Comentários:

Quarta-feira, Novembro 02, 2005

 
Vai, vai, vai disse o pássaro: o gênero humano
Não pode suportar tanta realidade.*

(T.S. Eliot)



Não tenho o brilho da inteligência. O que me faz incandescer é a minha sede pelas coisas da vida, pelo aparentemente inexplicável, porque o meu impulso é sempre o de buscar algum entendimento sobre o que me cerca. Quando não tenho resposta, uso a poesia. A primeira vez que o notei na fila do banco estava com um ar um pouco perdido e lia algo. Parecia tão triste que me comovi. Vejo-o uma vez por mês, quando vem cá receber o salário - sei que é um salário por causa da regularidade, e do valor, sempre o mesmo. Ganha muito pouco. Hoje ele veio com um livro diferente. Não era daqueles livros de ensaio sobre a história ou sobre as migrações, era um livro de poemas de Eliot (o meu poeta favorito), não resisti e perguntei-lhe "É a tradução brasileira dos poemas de Eliot ?" e em seguida vi um brilho diferente nos seus olhos, e um pouco desconcertado ele foi logo dizendo que sim, que conhecia as traduções portuguesas, que voltava à brasileira em busca do tradutor, e notei-lhe que queria ficar mais tempo a conversar comigo. E retribui o mesmo desejo, e quis perguntar-lhe mais, mas não fui capaz. Paguei-lhe o cheque e despedi-me com uma ansiedade nova, desconhecida. Lá fora chovia, as pessoas corriam sem destino aparente em busca de protecção, e o meu amigo sumia dissolvido no cinza da multidão.


* Tradução de Ivan Junqueira



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:41 Comentários:

 

Powered By Blogger TM