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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Segunda-feira, Outubro 31, 2005
O tempo presente e o tempo passado
Estão ambos talvez presentes no tempo futuro
E o tempo futuro contido no tempo passado.
Se todo o tempo é eternamente presente
Todo o tempo é irredimível.*
(T.S. Eliot)
No banco, o rapaz do caixa olha para mim e diz "É a tradução brasileira dos poemas de Eliot ?" Respondo-lhe que sim, que conheço a tradução portuguesa, e que voltei à tradução brasileira em busca do tradutor, e que sempre gostei de Eliot. O caixa me sorri - os seus olhos brilham - e me diz uma boa tarde, depois de me entregar o dinheiro. Corro a pagar as contas. Uma chuva cai (in)esperadamente assustando os pássaros e fazendo com que todas as pessoas nas ruas se comportem como se estivessem a representar um papel no teatro da vida: o homem de negócios que passa correndo com a sua pasta e gabardina, uma mulher atenta à saúde do seu cão e duas adolescentes com ar de apaixonadas compõem um cenário na Avenida da República. Chove, eu protejo o livro e penso no que é a vida afinal, um rio sem começo e fim, de fluxo único numa direcção somente ou um lago amplo, profundo e silencioso, aonde cabem todos os tempos e todas as eras. Seja o que for, a vida é água; essa água que ora cai lavando Lisboa das suas iniquidades de cidade grande. E vejo-me triste, e vejo-me alerta: e pela segunda vez nesses anos tantos de Europa sinto aquela necessidade ancestral de abraçar alguém de modo especial. Porque sei, seja rio seja lago, a travessia será minha e só minha, mas quero ter alguém no cais para poder dizer adeus.
* Tradução de Ivan Junqueira
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:26
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Quinta-feira, Outubro 27, 2005
Aprofundavas-te com delicadeza em direcção ao abismo descrevendo uma recta severa de despojamento. Era belo, era magnifico, como deixavas para trás os fragmentos do falso espelho que te identificavam no mundo. Morriam ali, sem desespero algum, a mão da tua irmã em teu socorro e a canção de ninar mais antiga, o primeiro erro de aritmética e o desapontamento do pai. Desapareciam na voragem daquelas águas o prelúdio & fuga (as notas da tua comoção) e o quadro cubista da juventude - mortos, todos.
E descias, Flebas, e ias te esquecendo do teu idioma, e serenavas, até que o livro que mora no interior da tua cabeça ficou completamente vazio. "O mundo sem interrogações." foi o teu último lampejo de consciência.
- dorme no infinito, Flebas.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:35
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Terça-feira, Outubro 25, 2005
A primeira vez que naufragaste tiveste de nadar sozinho até a margem mais próxima. Levavas contigo dois ou três livros que julgavas importantes, algumas memórias de amor e a roupa do corpo, somente.
Desta vez não levarás livros (eles não são importantes) e nenhuma memória de amor que valha a pena.
- Mas pensando bem, Flebas, é muito provável que não queiras mais nadar.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:09
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Segunda-feira, Outubro 24, 2005
O assassinato do militante pelos direitos humanos (direitos sexuais são também direitos humanos) Cláudio Alves dos Santos não é somente um crime que envergonha o Brasil, mas um terrível sintoma da homofobia disseminada na sociedade brasileira. Como crime que é, deve ser apurado e os seus responsáveis julgados e penalizados por essa barbárie. Isso poderá ser fácil ou difícil de acordo com a investigação e a velocidade da polícia e da justiça brasileiras. Mas há outra dimensão mais difícil de superar, que é mudar a mentalidade das pessoas e sensibilizá-las para a diversidade das orientações sexuais. E essa mudança é responsabilidade de todos e todas nós, da sociedade civil organizada. Não é fácil, mas também não é impossível.
Numa sociedade de perfil machista como a brasileira, onde a imagem da homossexualidade (masculina e feminina) é estereotipada, vulgarizada e banalizada através de programas televisivos ditos de humor, a responsabilidade de crimes desta natureza deve ser repensada, e o ponto agudo da reflexão deve ser enunciado da seguinte maneira: "até que ponto existe ou não um ambiente que favoreça a homofobia?."
O crime foi cometido, o ser humano Cláudio Alves dos Santos está morto, o seu companheiro e os seus amigos estão tristes e indignados, e nós, que pertencemos aos movimentos sociais pela luta dos direitos humanos, estarrecidos. Os criminosos com a sua mente assassina e homofóbica estão soltos... A homofobia, essa sim, dorme tranquila em algum canto da consciência brasileira. É duro admitir, mas não seria arriscado dizer que todos e todas são responsáveis por mais esta morte indigente no Brasil.
* às vezes, a realidade de tão irreal não cabe no poema, Gullar. Mas ainda assim temos o grito, e gritar é todo o nosso protesto.
Para o Cláudio Alves do Santos, que nunca o conheci, mas que mesmo assim é o meu irmão.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:39
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Quinta-feira, Outubro 20, 2005
...mas assim amarradas a um tronco sem pés quem sabe onde começa e termina um novelo?
e porque não nos ofereceram nenhum novelo que nos salvará a alma, temos de continuar sozinhos na noite do labirinto, e conviver com a melancolia do Minotauro: sim, escrever dói e não há garantias.
- Mas, faz isso, escreve tu um outro novelo, e reinventa o jogo da vida.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:17
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Quarta-feira, Outubro 19, 2005
Mon petit Hérisson, le désir est un chemin étroit et bleu.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:53
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Segunda-feira, Outubro 17, 2005
Mundo mundo vasto mundo
mais vasto é o meu coração.
Carlos Drummond de Andrade
A poética da vastidão, a experiência do vazio ou o mundo incompleto sob o arco daquele céu cinza que se projectava sobre a praça do Rossio? E eu andava ali, a pensar na validade moral das decepções, quando aquele poema original, ao qual nunca prestei a devida atenção, apareceu-me comunicando a transparência da sua ideia. E fiz do coração vasto mundo de Carlos Drummond de Andrade a praça que mora em mim.
- não sei explicar o porquê, mas por algum motivo me sinto agora feliz.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:54
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Sábado, Outubro 15, 2005
Este é o labirinto de Creta. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra perderam-se tantas gerações. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra perderam-se tantas gerações, como María Kodama e eu nos perdemos. Este é o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra perderam-se tantas gerações, como María Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo, esse outro labirinto.
- Jorge Luis Borges -
Este é o labirinto de Creta onde estão aprisionados Borges e María Kodama, os meus azulejos da infância e o meu amor mais secreto, neste labirinto está também a palavra Cuiabá, a primeira que tenho a noção de ter lido. Palácio-labirinto onde dorme o seu sono eterno, o Minotauro. Este é o labirinto de Creta, mas às vezes o confundo com o meu coração.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:11
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Sexta-feira, Outubro 14, 2005
Organizas o espaço do quarto com a rectidão de um deus, como se criasse a partir do nada as esferas da tua parca existência: a cama simples com lençol e cobertor baratos, comprados aos ciganos; na parede os pôsteres que imitam a arte; na estante, em aparente desacerto, os livros de poesia e ao teu lado a fotografia dele na cabeceira. É assim a manifestação rigorosa deste teu Outono - e enquanto isso, sonhas acordado com o dia em que baterão à tua porta.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:47
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Quinta-feira, Outubro 13, 2005
Baalbek
Sob o teu travesseiro o sol e acima de ti o fulgor. O sol no espelho da casa de banho e nas paredes do corredor - luminescência; nas tuas ideias a claridade. O sol sobre Lisboa é a luz, o sol em Baalbek é a cidade. O sol e o seu radical s de sun, soleil, sole, sonne, sol: o disco que faz girar o mundo. O sol nos teus olhos, a arder-te de vida, quase te cega, quase te cansa. O sol da meia-noite, o sol dos desenganos, o sol daqueles que morrem no deserto, ele, o sol dos imigrantes.
Quem cegou Dante de tanta luz e despejou o seu calor sobre as asas de Ícaro: o sol.
Quem viu o nascer do homem e verá o seu desaparecimento: o sol.
Quem te ofuscou de tanta alegria numa manhã de verão: o sol.
- Quem te abriu nesta manhã cinzenta tamanha ferida no peito?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:37
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Terça-feira, Outubro 11, 2005
Le mot d'aujourd hui c'est l'angoisse.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:58
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Segunda-feira, Outubro 10, 2005
Petite leçon de geographie humaine: Melilla est située au Nord d'Afrique, mais les africains ne sont pas les bienvenues.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 11:59
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Quinta-feira, Outubro 06, 2005
Qu' est-ce que je peux faire pour mon coeur isolé?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:10
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Quanto tempo pode durar um dia? 24 horas ou muito mais. Ontem ainda não passou e vivo na expectativa de que este dia acabe logo. Ainda estou no ontem, e apesar de todo o meu empenho em me esquecer de mim, em fugir-me para bem longe de mim, nada consegui, ainda moro em mim, e dói esta morada. Ontem bebi, tentei beber mais, mas já não posso. O álcool me causa danos físicos, o meu corpo já não o suporta, nem mais uma gota, e eu ainda moro em mim: olho à minha volta, a cidade mergulhada nos seus afazeres, os amigos no ritual do trabalho, e eu aqui, em mim, neste dia interminável. E não há nenhum verso que me salve.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:19
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Quarta-feira, Outubro 05, 2005
Requiem: Der Himmel über Lissabon
Soubeste hoje que o teu amigo saltou pela janela e foi-se da vida. E o que te restou foi esse sentimento de soco no estômago, esse gosto amargo na boca. Nestas horas sabes muito bem como somos assaltados pelo egoísmo da nossa vida. Pensaste imediatamente nas coisas que te faltam, um companheiro para chorar contigo a tua dor, uma casa no fim do mundo para te esconderes ou uma religião forte o suficiente para te sentires abrigado. Não tens nada disso, estás sozinho com a tua vida para a cumprir numa terra sem deus. Deves cantar agora a tua canção mais triste, no escuro, e recordar o que ficou do teu amigo, no trabalho delicado dele, na sua arte. Pensa em todos nós, nos vivos, cuja única justificativa possível para a nossa permanência nesse barco à deriva que é a vida é a de mantermos a chama dos mortos, a sua memória. E diz ao teu morto que ele ainda vai continuar vivo por muito mais tempo, porque somos todos os animais da memória: Lux aeterna luceat eis, Domine, cum sanctis mis in aeternum, quia pius es.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:01
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Terça-feira, Outubro 04, 2005
J' aime beaucoup le mot hérisson et J'utilise mon français:
Hérisson mon amour
Hérisson ma vie
Hérisson mon soleil.
Voilà !
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:07
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Segunda-feira, Outubro 03, 2005
Rédaction 1:
Le livre Le Dernier Ami écrit par Tahar Ben Jelloun - écrivan marocain de langue française - est composé par quatre chapitres et raconte l' histoire et le conflit de Mamed et Ali, deux amis depuis longtemps. L' histoire se passe à Tanger vers la fin des années cinquante.
Le roman commence avec une letre écrite par Mamed et destinée à Ali. C'est une lettre pour finir leur amitié de longue date.
Ben Jelloun utilise dans ce romain le point de vue de deux narrateurs que se succèdent pour raconter l' histoire.
Ali fait la présentation de Mamed et le montre comme un garçon petit, avec des cheveux courts, avec le regard intelligent et complexé par son physique sec et menu...
É muito pouco, eu sei, mas é a minha primeira lição de francês. E preciso aprender essa língua muito rapidamente. O romance ainda vai no primeiro capítulo, mas Jelloun já tem a minha atenção. Quem diria, mas a verdade é que será através de Tahar Ben Jelloun e da ajuda do meu professor que aprenderei essa língua. O mais complicado para nós que não a falamos é verificar como o francês escrito é tão diferente do pronunciado. Voilà !
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:40
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Sábado, Outubro 01, 2005
Depoimentos: "Eu não quero envelhecer em Lisboa. É uma cidade muito ingrata para a velhice. Cheia de sobes e desces, prédios antigos sem elevador ou aquecimento e, depois, é uma cidade muito pouco solidária com aqueles que ousam envelhecer. Não, eu quero ir viver para a planície, com ou sem companheiro."
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