finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Sexta-feira, Setembro 30, 2005

 



Sonata de Outono: Je suis un Occidental


Ontem foste ao Instituto Franco-Português com teu professor de francês para uma conferência de Tahar Ben Jelloun, o escritor e poeta marroquino que escreve as suas inquietações em francês. Será que o francês passará a ser a tua segunda língua, a tua segunda casa? Para ti seria um encontro importante, afinal leste Ben Jelloun há muitos anos, nas tuas férias em Ilhéus - Ben Jelloun, a Bahia e tu chegando aos trinta anos. Ontem naquela sala do instituto ficaste com a sensação de um reencontro, mas com quem? Com Ben Jelloun ou com a ideia da tua mocidade perdida?

As plateias são organismos curiosos. Sozinho, um ser humano tem a possibilidade de duvidar-se sempre, acompanhado não. Não gostaste da plateia e da forma como ela alimentou no teu escritor favorito (um deles, claro) a inclinação para o riso fácil e o desvio da reflexão. Ben Jelloun, que tanta importância tem na luta contra o racismo, pela sua afirmação moral, pela busca da justiça, sim, esse Ben Jelloun que gostas tanto, disse "Je suis un occidental, un racionaliste" - E tu ficaste com um pouco mais da metade do que foi dito para descobrires que afinal, até Ben Jelloun acredita na farsa da dicotomia, naquela que afasta da razão o pensamento árabe. Será que, porque não tiveram o racionalismo, os árabes são irracionais? E um gosto amargo instalou-se na tua boca. Queres tu acreditar que foi tudo um erro de compreensão, que nem Ben Jelloun, nem aquela plateia riram do que consideram um détour da razão; não, Ben Jelloun é mais do que aquele que fez rir a todos com as piadas sobre "la pensée sauvage" dos marroquinos e outros povos; não, isto não aconteceu, é somente mais um caso de "Lost in Translation".


- Mais j' ai une question, M. Ben Jelloun, qu'est-ce que c'est être un occidental?



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:12 Comentários:

Quinta-feira, Setembro 29, 2005

 



Thinker four: " Esse tema nasceu em mim com a recordação de minha própria relação com os oprimidos do Brasil e com a diferença que descobri com a história cultural da sociedade chilena. Quanto mais eu me aprofundava no mundo do componês chileno, quanto mais eu ouvia os camponeses falarem, mais clara ficava para mim a relação de opressor e oprimido, de consciência opressora e consciência oprimida... e isso, constituía-se num objeto de curiosidade para mim. E então veio esse dia em que passei a acreditar que tinha que escrever o que me ocorria, mesmo como uma tentativa de fazer uma contribuição para aqueles que trabalham nesse campo. E também foi dessa forma que eu tive a idéia para o título. Pedagogia do Oprimido foi uma tentativa de compreender essa relação. E quando ele foi publicado, muitas pessoas, mais esquerdistas do que de esquerda, criticaram o livro dizendo que eu falava e usava conceitos muito vagos, tais como a noção de opressão. Aí eu peguei o livro e o li para contar quantas vezes eu havia falado de classe social. Você verá que eu falei de classe social 33 vezes no livro. O que é que eles queriam? Eu acho que a crítica já estava vindo de uma posição um tanto sectária."

Paulo Freire (1921-1997)



Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:15 Comentários:

 


Thinker three: "I have no wish to be the victim of the Fraud of a black world.
My life should not be devoted to drawing up the balance sheet of Negro values.
There is no white world, there is no white ethic, any more than there is a white intelligence.
There are in every part of the world men who search.
I am not a prisoner of history. I should not seek there for the meaning of my destiny.
I should constantly remind myself that the real leap consists in introduction invention into existence.
In the world through which I travel, I am endlessly creating myself."

Frantz Fanon (1925-1961)



Escrito por OSCAR MOURAVE às 11:02 Comentários:

Quarta-feira, Setembro 28, 2005

 



Thinker two: " Well, activism, strictly speaking, is what I do as a citizen and a human being. And that has nothing to do with being a writer. I would hope that I would have gone to Sarajevo and did whatever I did there without being a writer because I didn't go there to be a writer. I didn't go there to write about it. I went there to work in the city, to live and work in the city. So the activism remains, but that's my belief in righteous action. I think people... I believe in altruism. I think that once in a while you should do something for other people-- people you're not related to, with no interest in it for you -- just do something for other human beings out of a sense of solidarity. It's probably very arbitrary, but, you know, once in awhile that's part of, I think, a good human life. But, yeah, I want to have more color and more emotion in my writing, and so I think I'm a little braver. I think I'm actually a better writer than I used to be. I don't... I think pleasure is a wonderful thing. And also novels aren't just pleasure, I think they are an education of feeling. They extend your feeling. They make you... they should make you more compassionate, more... have more empathy with other human beings. They struggle against this dryness, this dryness that a lot of people feel.

Susan Sontag (1933 - 2004)






Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:08 Comentários:

 


Thinker one: "Remember the solidarity shown to Palestine here and everywhere... and remember also that there is a cause to which many people have committed themselves, difficulties and terrible obstacles notwithstanding. Why? Because it is a just cause, a noble ideal, a moral quest for equality and human rights."

Prof. Edward W. Said (1935-2003)

Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:45 Comentários:

Segunda-feira, Setembro 26, 2005

 
Sonata de Outono: lascia la spina, cogli la rosa


Ela busca a si própria reflectida no espelho, "sou eu, ali, para além daqueles olhos azuis". Ela compreende que os espelhos promovem a distorção da imagem, por isso nunca confiou naquilo que lhe foi mostrado ao longo da vida. E bem lá no fundo, ela sempre soube que era a mais forte dentre as amigas, e que sobreviveria depois que tudo à sua volta fosse ruína e destruição. É noite de Outono, ela em frente do espelho veste a sua t-shirt preta com mensagem política, põe mais um brinco na orelha esquerda e sai pela noite adentro à procura da sua rosa sem espinhos e sem ilusões.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:26 Comentários:

Quinta-feira, Setembro 22, 2005

 
Sonata de Outono: o coração na boca

É no Outono e não noutra estação que a melodia mais exacta atinge em cheio o teu coração desolado. Não sabes muito bem onde depositar as tuas esperança e a vida deixa de ser aquela vaga vertiginosa de acontecimentos. Assim, apaziguado das expectativas sobre o futuro, esperas sozinho na esplanada do café o gesto que te salvará da desumanização. Lês um livro, tomas um chá e escreves dois versos imperfeitos, e por um descuido qualquer mordes a própria língua

- é o coração na boca, é o Outono que chega.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:34 Comentários:

Terça-feira, Setembro 20, 2005

 
VII

ПРИГОВОР


И упало каменное слово
На мою еще живую грудь.
Ничего, ведь я была готова,
Справлюсь с этим как-нибудь.

У меня сегодня много дела:
Надо память до конца убить,
Надо, чтоб душа окаменела,
Надо снова научиться жить.

А не то... Горячий шелест лета
Словно праздник за моим окном.
Я давно предчувствовала этот
Светлый день и опустелый дом.

22 июня 1938, Фонтанный Дом

*********

7.

Sentença


Caiu a palavra de pedra
no meu peito ainda vivo,
não faz mal, eu estava pronta,
de qualquer modo sobrevivo.

Tenho que fazer: a memória
há que matá-la até ao ovo,
devo petrificar a alma,
é preciso viver de novo.

Ou... O verão, seu murmúrio quente,
é como festa além do umbral.
Minha alma há muito o pressente:
casa vazia em dia claro.


Verão 1939, Casa do Fontanka


- A tradução é do Arlindo Correia, o poema é dela, da Anna Akhmátova. É preciso retornar à poesia, é preciso desconstruir o mundo e essa máquina incessante de angústia que é a vida.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:39 Comentários:

Segunda-feira, Setembro 19, 2005

 
What a wonderful World

Às vezes ir ao cinema ou andar de mãos dadas com aquele que amamos é um acto político. Não há nada de heróico nisso, é somente uma pequena estratégia de sobrevivência daquele humano que me habita e que me diz que sim, que quer ter somente aquilo que todos têm.

O fim de semana passou e a manifestão da extrema-direita cumpriu com o seu objectivo; palavras violentas foram ditas e escritas, é verdade, palavras como "morte aos paneleiros", ou "os traidores serão mortos", palavras que transportam a morte, palavras de agressão à vida. E cada palavra dessa, cada locução violenta, cada gesto, com a anuência do Governo Civil de Lisboa.

Eu fui ao cinema com os meus amigos e amigas. À noite, reunidos em nosso bar-restaurante, do nosso bairro (que é o bairro de todos) recebemos a visita de um grupo de seis ou mais, que intalados à mesa ao lado, vociferavam o seu descontentamento com o mundo dizendo "os paneleiros são todos pedófilos". O que pensar de toda essa agressão? O que fazer nestas horas? A quem responsabilizar? Eu somente pensava na morte daquilo a que chamamos de "a nossa civilização": eles, todos jovens, eles que teoricamente passaram pela escola, eles filhos e filhas de pais que os educaram, eles pertencentes à cristandade, também eles os filhos legítimos da democracia, eles... os skin heads, ali, entre pessoas, destilavam todo o seu veneno contra nós, os outros: nós as mulheres, nós os homens, nós os gays, nós as lésbicas, nós os estrangeiros, nós os negros, nós os muçulmanos, nós que, na sua opinião, não temos o direito de aqui estar. E veio-me uma náusea, terrível, uma vontade de sumir; e veio-me uma força maior que a minha náusea, e tão forte ela era que fiquei ali aonde deveria ficar, com as minhas amigas e os meus amigos. E como chegaram eles se foram, em grupo de seis ou mais, arrogantes e seguros, porque sabem que podem contar com o poder público:

- foram-se, mas vão voltar.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:10 Comentários:

Sexta-feira, Setembro 16, 2005

 
Anarquistas Contra a Homofobia e o Preconceito



Sendo o CCMA (Centro de Contra-informação e Material Anarquista) um coletivo libertário, nos posicionamos firmemente contra qualquer forma de preconceito e discriminação. Vemos a homofobia (aversão a homossexuais) como um desrespeito à liberdade, acreditamos na livre sexualidade e na livre manifestação da mesma. Não nos apegamos aos costumes e à moral burguesa conservadora. Respeitamos a diversidade, pois a entendemos como algo que deve ser preservado, pois ela representa o que as pessoas têm de mais precioso. Nos posicionamos contra qualquer tentativa de institucionalização da sexualidade, pois isso significa o controle da mesma e uma afronta à liberdade sexual. A sexualidade deve ser livre de tabus e imposições, e desvinculada de instituições.

Nas escolas, igrejas, meios de comunicação e na própria família, aprendemos que "a mulher é feita para o homem e o homem para a mulher". Mas porque temos que seguir essa regra? Qualquer opção sexual diferente dessa é tratada como doença ou anormalidade, e o amor espontâneo e livre é visto como um desrespeito à moral e aos "bons costumes".

Sendo a sexualidade livre de qualquer instituição, como as religiosas, a sua proibição e repressão não se legitima. Seja um individuo heterossexual, homossexual, bissexual ou transexual, cabe a ele, e somente a ele, a livre manifestação de sua sexualidade. Nos colocamos contra o preconceito dos dogmas religiosos. A religião não deve intervir na sexualidade e na liberdade dos indivíduos.

O CCMA julga por consenso que, qualquer forma de afeto recíproco é extremamente benéfico tanto individualmente como coletivamente e ninguém, tanto individualmente ou coletivamente tem o direito de interferir na opção de cada individuo. O amor é um sentimento ótimo que não deve obedecer a nenhuma regra ou imposição, é uma escolha pessoal de cada indivíduo que deve ser respeitada.

Sempre questione a validade de uma instituição que vá contra seu direito de livre escolha e não aceite de forma alguma qualquer imposição a sexualidade, independente de padrões morais sem fundamentos, tão questionados e mutáveis durante a história.


Centro de Contra-informação e Material Anarquista
CCMA - Cx. Postal 665, CEP: 01059-970, São Paulo - SP, Bra$il



Amanhã, aqui em Lisboa, será dia de luta. Mas pensando bem, quando são a liberdade e o amor que estão em jogo, todos os dias são dias de luta. Por isso, aos amigos anarquistas brasileiros, mando o meu abraço e agradecimento por ter encontrado na net este texto: as palavras têm força, já tenho o meu escudo.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:08 Comentários:

Quinta-feira, Setembro 15, 2005

 



Cansado de lutar, eu estou aqui, algures.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:01 Comentários:

Quarta-feira, Setembro 14, 2005

 
O Estado contra o Cidadão


Não é a primeira vez que o Governo Civil de Lisboa autoriza uma manifestação de extrema-direita, e parece que não será a última. No dia 18 de Junho, grupos de skin heads com a autorização do Governo Civil marcharam do Martim Moniz à Praça da Figueira numa manifestação racista e xenófoba contra os imigrantes. Para os espíritos mais avisados eram cenas pertubadoras: jovens sem cabelo vestidos de preto, marchavam com o punho fascista e gritavam palavras de ódio e ofendiam a dignidade de homens e mulheres trabalhadores, de imigrantes. Para quem não conhece Lisboa, o Martim Moniz é um lugar especial, é um espaço de encontro e convívio entre imigrantes de todos os lugares. Foi a primeira vez que o Estado ofendeu-me publicamente. Com o beneplácito do Governo Civil, os extremistas diziam que não me queriam aqui, que o trabalho que desenvolvo e que traz benefícios a este país nada significa. "Volta prá tua terra, pá !" é frase que qualquer estrangeiro conhece bem, e para muitos talvez seja a primeira que se aprende em português.

O Governo Civil avançou mais uma casa em direcção a agressão contra mim. Agora ele autoriza o mesmo grupo violento a ir à rua (numa manifestação prevista para o dia 17, sábado, no Parque Eduardo VII) dizer que a forma em que realizo os meus afectos, a minha orientação para o amor, é considerada errada e é um atentado à família e à "moral" vigentes. O Governo Civil não entende nada de amor, o Governo Civil não entende nada de pessoas e muito menos entende ele o significado da Ética e da Moral. Eu não o conheço, mas queria poder conversar com ele e fazê-lo descer à realidade da vida. Enquanto o Governo Civil brinca de governar e administrar uma cidade, os grupos extremistas atacam e passam do verbo à acção.

A país está triste, o país me entristece!

Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:46 Comentários:

Terça-feira, Setembro 13, 2005

 





Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:19 Comentários:

Segunda-feira, Setembro 12, 2005

 




O pêssego
é uma fruta misteriosa
discurso amarelo sobre a temporalidade
das coisas

excede-me com o seu brilho
o entendimento
que dele posso ter

concluo que não sei nada
sobre pêssegos

e sobre a vida
menos ainda.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:55 Comentários:

Sexta-feira, Setembro 09, 2005

 

Panteras-Rosa Abaixo Assinado

Abaixo-Assinado Contra a Manifestação de 17 de Setembro

A rede ex aequo - associação de jovens lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros e simpatizantes, as Panteras Rosa - Frente de Combate à Homofobia, o Clube Safo - Associação de Defesa dos Direitos das Lésbicas, a Associação Cultural Janela Indiscreta e numerosos cidadãos em nome individual decidiram expressar a sua preocupação e discordância perante a realização prevista de um protesto contra a pedofilia, o casamento entre homossexuais e a adopção de crianças por homossexuais, que decorrerá no dia 17 de Setembro de 2005, às 15 horas, no Parque Eduardo VII, em Lisboa. As entidades organizadoras da manifestação são o Partido Nacional Renovador, a Juventude Nacionalista e a Frente Nacional.

O evento, mercê dos seus objectivos e do conteúdo dos apelos emitidos por essas entidades, viola claramente direitos fundamentais dos cidadãos portugueses e incita à ofensa, à difamação e à discriminação das pessoas homossexuais. Nesse sentido, entendem os signatários que a sua realização deve ser impedida, tendo em consideração o absoluto respeito pelos princípios do Estado de direito democrático, o cumprimento dos preceitos constitucionais e o respeito pelos direitos fundamentais, pelo que se apela aos Exmos.

Senhor Presidente da República, Senhor Presidente da Assembleia da República, Senhor Presidente do Conselho de Ministros e Senhor Provedor de Justiça, que intervenham nesse sentido.

Para assinar, imprime por favor o documento em http://www.ex-aequo.web.pt/arquivo/abaixoassinado.pdf (o formato do ficheiro é PDF - para visualizar deve ser aberto com o programa Adobe Reader - o download do mesmo pode ser feito gratuitamente em http://www.adobe.com/products/acrobat/readstep2.html).

Pedimos a atenção que as quatro páginas do documento devem, sem excepção, ser impressas frente e verso ficando no total duas folhas de papel por cada impressão. Estas mesmas duas folhas devem ser sempre agrafadas uma à outra.

Reúne o maior número de assinaturas com a maior brevidade possível e envia todas as cópias, até dia 14 de Setembro (data de chegada do correio postal), para rede ex aequo, Rua S. Lázaro 88, 1150-333 Lisboa.
Em caso de dúvida basta contactar qualquer um dos colectivos signatários. O mesmo vale para outros colectivos que pretendam associar-se a esta iniciativa.
Divulga pelos teus amigos e conhecidos! Contamos contigo!


/ O Homem é a sua consciência! /



Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:16 Comentários:

 

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