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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Quarta-feira, Agosto 31, 2005
Ausência
Por muito tempo achei que ausência é falta
E lastimava, ignorante, a falta..
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
Ausência é um estar em mim.
E sinto-a tão pegada, aconchegada nos meus braços
Que rio e danço e invento exclamações alegres.
Porque a ausência, esta ausência assimilada,
Ninguém a rouba mais de mim.
(Carlos Drummond de Andrade - Com o pensamento em Ana Cristina)
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:26
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Terça-feira, Agosto 30, 2005
The Brazilian Canon
Macunaíma: somewhere in Brazil, 2005
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:56
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Segunda-feira, Agosto 29, 2005
The Western Canon
Narrative of the Life of Frederick Douglass, an American Slave: Houston, 2003
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:48
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David and Jonathan Make a Pact
King Saul's son, Jonathan, loved David and gave him his sword, shield, bow, and belt. They promised to be friends for ever and to help each other. The head of the wolf on the belt signifies that Jonathan is from the tribe of Benjamin, whose symbol is the wolf.
É uma história de amor bonita.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:06
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Domingo, Agosto 28, 2005
Eis-te aqui, no topo da montanha, sozinho. Sem projecto político, sem o beijo e o peito do amante, momentaneamente sem o passado e sem o futuro. Eis-te aqui pleno de ti e mais ninguém. Pensas: "tenho de escrever aquele ensaio, tenho de arrumar o meu quarto, tenho de actualizar os meus papéis em Portugal." Chegaste à era dos desenganos. A vida é assim mesmo, vais crescendo e aprendendo que aquilo que magoa passa - vai-se com o tempo. Fica a memória da dor dispersada pelo corpo, na geografia outrora partilhada do corpo. Abres a janela e vês que Lisboa está linda de azul. Então, telefonas à tua amiga e a convida para ir ao cinema, hoje, Lisboa azul, tu tão triste, e tão forte. Mas amanhã... recomeças o trabalho com os teus alunos, e na terça-feira terás um jantar importante.
Tu tão triste, e tão forte.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:31
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Sábado, Agosto 27, 2005
[ the rest is silence... ]
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:19
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Sexta-feira, Agosto 26, 2005
The Western Canon
It Can't Happen Here: Phoenix, 2005
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:46
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Quinta-feira, Agosto 25, 2005
The Western Canon
Angels in America: San Francisco, 2005
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:21
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Quarta-feira, Agosto 24, 2005
The Western Canon
Pride and Prejudice: London, 2005
Escrito por OSCAR MOURAVE às 22:39
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The Western Canon
Odyssey: Gibraltar Straight, 2005
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:27
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Terça-feira, Agosto 23, 2005
The Western Canon
A Hero of Our Time : Grozny, 2000
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:53
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The Western Canon
Gerusalemme Liberata: Jabalya, 2004
Escrito por OSCAR MOURAVE às 01:24
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Segunda-feira, Agosto 22, 2005
The Western Canon
The waste land: Gaza, 2004
Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:46
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Domingo, Agosto 21, 2005
Terra Estrangeira
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:01
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Sábado, Agosto 20, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o trigésimo primeiro dia
Em todos os trinta e um dias da tua ausência, a minha vida se transformou numa plataforma de espera, uma gare caiada que crescia e decrescia conforme a intensidade da falta que eu sentia: exercício de escrita branca sobre tela branca. Escrever era não esquecer. "Como sou tão frágil com a minha memória?" No caminho perguntei a quem podia sobre o que fazer das horas vazias ou como completar o arco da vida não perdendo o estímulo na curva da descida. Interroguei também o pêssego e sua existência, o meu fruto obsessivo, porque até agora nunca compreendi como é que ninguém fica maravilhado diante do mistério profundo que esse fruto encerra "(fructum) persicum - persica - Pfirsich - pêssego". E descobri que tenho o talento para as perguntas sem respostas, nem as pessoas e nem o pêssego sabem - talvez a vida seja isso mesmo, manter o mistério das coisas; e deixar no coração do pêssego aquilo que é dele, e no arco da vida aquilo que é dela.
Daqui a pouco estarás aqui comigo, e me falarás das tuas viagens, das paisagens, dos acontecimentos, e ficarei olhando o interior dos teus olhos verdes - comovido - e sei que lá no fundo o meu coração te fará um convite para ires comigo em busca do mistério do pêssego e da vida.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:05
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Sexta-feira, Agosto 19, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o trigésimo dia
O sonho: a noite passada sonhei um quadro de Marc Chagall, nele, numa atmosfera verde, flutuavam todas as minhas inquietações dos últimos trinta dias. Havia uma mulher no ar que arrastava uma criança pelas mãos, havia os passageiros do metro, linha amarela, em atitude de espanto, jornais e pássaros voavam sem distição precisa, um turbilhão arrancava as árvores e as lançava de raízes para o alto, livros em línguas estrangeiras, uma gramática de urdu, postais antigos e quadros de uma exposição, tudo num voo frenético - eram os meus trinta a cinco segundos de imponderabilidade.
A realidade: amanhã é o teu retorno, e também é o dia da minha libertação. Estarei livre para não mais pensar em ti, porquê a tua presença física irá se impôr sobre a tua ausência. Estarei livre para estar com o meu amigo. Estarei livre para estar com o meu amante: estaremos os dois, novamente, em igualdade. Foi tempo demais, foi exercício duro para nós. Afinal, amar não se distingue em nada de outro exercício qualquer: amar só se faz amando.
A obsessão: marquei no calendário da cozinha uma cruz em todos os dias da tua ausência. Escrevi-te uma vez por dia, e pensei em ti pelo menos umas trezentas vezes por dia. A lua fez um ciclo completo, a História avançou, os crimes do mundo nem aumentaram e nem diminuiram, e eu me dediquei a uma ideia obssessiva: aproximar-te de mim através do texto. Ao fazer isso, afastei-te da realidade. É o companheiro real que reivindico agora, não aquele construído no texto:
o texto e as suas armadilhas infalíveis,
sê bem-vindo, meu amor.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:47
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Quinta-feira, Agosto 18, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o vigésimo nono dia
A noite cai sobre Lisboa, e tu, sozinho no teu quarto medieval, dás-te conta de que antecipaste em dois dias a volta dele, quinta-feira já não é, o regresso é no sábado. Na cozinha, o calendário é um cemitério de cruzes negras sobre lápides brancas, onde cada dia é a geometria das horas mortas. Ele faz falta no teu mundo. Hoje, enquanto te dirigias ao trabalho, os jornais destacavam a retirada dos colonatos da Faixa Gaza. Ariel Sharon deixa a Faixa e engana a todos, ele quer a Cisjordânia. Pensas como Ferreira Gullar, "a realidade não cabe no poema", e precisas mais do que nunca dele, do teu amigo.
Precisas de lhe dizer, de comunicar-lhe as tuas ideias, os jornais sensibilizam o mundo para o drama das crianças israelenses "as fotografias das crianças, inocentes, frente aos soldados da desocupação." E então todos descobriram que existem crianças israelenses. E as crianças palestinas? E a sua intifada?
Impossível esquecer Mohamed Jamal al-Durra, de doze anos, morto na Faixa de Gaza, frente às câmaras de tv; Yasser Adnan Al Ashkar, seis anos, morto por um míssil; Hussein Al Matwi, oito anos, Faixa de Gaza, morto quando saía da sua casa para comprar doces; Bassam Saadi, seis anos, morto em Jênin, atingido por um tiro de metralhadora disparado de um tanque; o número de crianças assassinadas na Palestina é grande, é maior do que o que pode caber num calendário de horas mortas. Pensas: "Onde está o meu amigo?"
As horas vão-se esvaziando, os calendários desaparecem e o tempo recircula: e tudo, absolutamente tudo, se mistura na tua cabeça, Ariel Sharon, Sabra e Chatila, Herodes, Faixa de Gaza, Cisjordânia, inocentes, mortes, mentira, intifada, o pêssego e o seu eterno mistério - o mundo é um turbilhão de dor, e tu só queres um peito para repousares a cabeça por alguns momentos.
"Onde está o meu amigo?"
Escrito por OSCAR MOURAVE às 00:18
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Quarta-feira, Agosto 17, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o vigésimo oitavo dia
Vives o mundo no seu transbordamento
e vazas para a periferia o que te é possível
recuperar a palavra antiga
aquela que não foi tocada pelo
significado
humedecer o deserto
com a tua língua meridional
e não pensar:
desaprender tudo,
amar mais.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:57
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Terça-feira, Agosto 16, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o vigésimo sétimo dia
O campo da ausência é difícil de lavrar: nem toda a palavra vinga, nem todo o sentimento é capaz de florescer. Mas ainda assim mantenho o entusiasmo, e penso que no final das contas a vida é assim mesmo, o sujeito amado nem sempre está perto, é necessário construir a proximidade, aquela ponte edificada composta por uma arquitectura de intersecção: o teu mundo e o meu juntos. Eu quero recordar aqui os versos de uma canção de Renato Russo: "Venha, meu coração está com pressa/Quando a esperança está dispersa/Só a verdade me liberta/Chega de maldade e ilusão./Venha, o amor tem sempre a porta aberta/E vem chegando a primavera/Nosso futuro recomeça:/Venha, que o que vem é perfeição." O meu futuro recomeça na quinta-feira. É com alegria, e receio, que espero por este dia.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 22:03
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Segunda-feira, Agosto 15, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o vigésimo sexto dia
Há um anjo novo sobre Berlim, diz o teu amigo apaixonado, prisioneiro da caixa de correios, coleccionador de selos. "Anjos não existem", diz-lhe, recriminando-lhe nas suas ilusões, e completas, "são criações do intelecto humano, somente isso." Sabes mesmo plantar o amargo sentimento da dúvida no coração das pessoas. Em casa recordas-te de uma conversa com uma teóloga amiga:
Tu - Deus não existe, mas posso te fazer uma pergunta?
Ela - Claro?
Tu - Na tua opinião, porque é que Deus criou o homem?
Ela - Talvez não tenha uma resposta para ti. Muitas vezes Deus não é claro nos Seus propósitos.
Tu - Mas eu sei!
Ela - Tu? Mas não percebo! Tu não deverias te ocupar destas coisas.
Tu - Não queres saber a minha opinião?
Ela - Claro que quero!
Tu - Deus criou os homens por causa da solidão. Sentia-se terrivelmente sozinho pairando sobre o céu, a terra e as águas. E não fez o homem a partir do barro, como vem narrado na nossa mitologia. Criou o homem a partir de um pedaço do seu próprio coração imperfeito. Abriu o peito com a sua enorme mão azul, arrancou o coração, buscou o melhor pedaço e dai fez o homem imperfeito. Pois a imperfeição não pode gerar a perfeição.
Ela - Vai, continua!
Tu - Continuar o quê, tu já sabes o que veio depois: as paixões, as guerras fratricidas, a impunidade, a História.
Ela - És um caso perdido, como é que o teu namorado te suporta?
Tu - Não desvies o assunto. E já agora, sabes porque é que os homens criaram Deus?
Ela - Não, mas estou curiosa por sabê-lo.
Tu - Por capricho e vaidade intelectual, não por necessidade como Deus. Os homens sempre tiveram a companhia dos outros homens. Deus, para eles, é um jogo de montar. Como um enigma ou um grande quebra-cabeças, para passar o tempo.
Nem sabes o motivo de te lembrares desta conversa. Quinta-feira está chegando: admita, porquê queres admitir: anjos existem mesmo, são de carne e osso, não têm asas, e voam por ai em companhias aéreas. Um deles está agora em Berlim, e voltará.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:24
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Domingo, Agosto 14, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o vigésimo quinto dia
بعلبك
quando criança eu já sabia que o domingo era domingo em todo o mundo, e os habitantes de Manaus, Lisboa ou Baalbek experimentavam a mesma sensação de desgaste, abandono e solidão. O almoço com a família não era garantia de nada: sempre havia um momento onde eu me retirava para um lugar e parava de fingir. E era ali, naquele qualquer canto secreto, que eu me educava para o futuro, e pensava: "O que estará fazendo o Oscar de Baalbek?" Para anos depois responder "Ele agora vive a solidão dos domingos em Lisboa, e pensa em ti."
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:24
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Sábado, Agosto 13, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o vigésimo quarto dia
Aos poucos vais redesenhando os percursos quotidianos, e descobres mais, que a cidade muda consoante uma palavra é pronunciada. Se disseres "amor" na Praça da Alegria, pões em andamento um concerto breve composto de asas de pássaros, um chafariz indeciso e dois homens abandonados que dormem à sombra de uma árvore. Se falares "tempo" enquanto sobes as Escadas do Patriarcal, corres o risco de um mergulho no abismo, como fazia Clarice, pois cada degrau daquela escadaria é a antecipação da queda inexorável, do dia em que não terás mais forças e nem entusiasmo pela vertigem da subida. E se já próximo da tua casa, no jardim das luzes verdes, pronunciares o vocábulo "ausência", é um nome próprio que surge trazendo com ele a história e o tempo consagrado, então o jardim deixa de ser jardim para se transformar na grande praça do mundo, no umbigo do universo, no olho que Deus nenhum jamais teve. E amor, tempo e ausência tornam-se numa única palavra, talvez aquela que a tua voz hesitante não soube pronunciar.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 11:06
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Sexta-feira, Agosto 12, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o vigésimo terceiro dia
Por vezes encontro a palavra que traduz exactamente a busca empreendida. Então, o sentimento que em mim se elaborava no rigor do silêncio, no reino do impronunciável, ganha um desenho e se afirma. Nesse momento, floresce-me um jardim com precisão geométrica, composto de palavras e coisas, e chega-me o momento de dizer:
- É nesse preciso instante que a voz me falha ou a língua desdiz.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:14
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Quinta-feira, Agosto 11, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o vigésimo segundo dia
Hoje às 08h24 o Outono chegou ao Largo de São Mamede ao mesmo tempo que chegava ao teu coração: o indício externo, as folhas de plátanos amarelas no chão, o interno, a tua disposição para o amor. Cedo descobriste o quão rápido passa o tempo quando dividido em estações tão pronunciadas, nos trópicos não é assim: o tempo, lá, passa como em todo o lugar, mas nós vamos com ele. Aqui, o tempo passa e nós ficamos.
- às vezes temos a sorte de uma companhia, mas só às vezes.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:41
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Quarta-feira, Agosto 10, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o vigésimo primeiro dia
Orquidée papillon: as tuas cartas têm chegado no ritmo de uma melodia. Às vezes há três delas na caixa de correio, outras vezes uma somente, mas normalmente viajam aos pares.
Orquidée papillon é o selo que vem nelas, e me abrem uma pequena janela em direcção a ti. O carimbo sobre ele traz os nomes dos lugares por onde vais passando, nomes de uma geografia estranha para mim, Le Puys en Velay, Excedeuil, Limoges, Thiviers, Perigueux, Coubon, Dordogne, Haute-Vienne, Périgord - regiões, cidades, será que um dia as conhecerei?
Orquidée papillon: flores que voam? A arara talvez seja uma flor que voa ruidosamente, pássaro-flor, os beija-flores são flores que voam e beijam outras flores, há borboletas que atravessam o Atlântico e são como flores, e há as cartas-flores, destas que chegam até aqui, na Rua da Rosa, uma rua-flor.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:33
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Terça-feira, Agosto 09, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o vigésimo dia
A Ausência sempre nos provoca danos, é da sua natureza arquitectónica, que sendo muito pesada, é difícil de suportar. Ergue-se acima dos nossos outros interesses e pronuncia-se nos momentos mais inesperados: na conversa trivial com os amigos, numa cena qualquer de um filme, num verso preciso de algum poema concreto ou na letra de uma canção. Muitos adoecem, outros perdem o brilho e alguns, como eu, começam por reconfigurar o percurso pela cidade. Sei que a tua Ausência começa por me derrotar quando evito deliberadamente habitar aqueles espaços que reconheço como sendo da nossa cartografia pessoal. Não tenho ido mais ao parque, evito usar o metro com a sua estação sempre cheia, não compro mais o jornal no lugar de hábito e volto para casa por outro caminho.
Hoje vi num café um homem muito parecido contigo. O meu coração deu um salto triplo mortal no escuro. A partir desse momento percebi tudo, que vou trocar a angústia provocada pela tua ausência pela ansiedade inevitável da tua chegada.
O que me deixa tranquilo é que a partir de agora a viagem, seja qual for o percurso, será menor e mais suportável. Eu sei que deveria racionalizar os meus sentimentos e não transformá-los em exercício da escrita,
mas ultimamente, o que me tem protegido dos efeitos da distância é escrever. Não é garantia de nada, eu sei.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:30
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Segunda-feira, Agosto 08, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o décimo nono dia
Hoje no décimo nono dia começo a desmontagem do mundo, a viagem à procura de ti. E como na infância, inicio o jogo da busca do dentro mais dentro. Não sei onde e quando comecei, mas dentro de Lisboa há o metro, dentro do metro está a vendedora triste de jornais, dentro do jornal a notícia da morte de um palestino, dentro da morte palestina, a intifada, e no fundo, lá no fundo da intifada, a esperança, dentro da esperança o verde, dentro do verde a praça dos nossos encontros, dentro da praça tu & eu falamos do futuro, dentro do futuro a Amazónia, dentro da Amazónia há um pássaro de muitas cores, dentro do pássaro uma fruta ancestral, que não é o pêssego, que todos sabem chamar-se "a maçã da Pérsia", mas é como se fosse, e dentro desse pêssego Amazónico há o coração duro e enrugado, dentro do coração ósseo da fruta, a noite dorme silenciosa, dentro dessa noite mais profunda desponta o dia luminoso, dentro da luminosidade surge o sol em opulência, e no interior do sol - a sua alma mais radiosa - estás tu, que me diz algo de incompreensível, e dentro de ti e do teu verbo, o teu coração:
chego ao último degrau da jornada e não dou mais nenhum passo, dentro do teu coração certamente está o significado das palavras que não existem no dicionário, mas existem em nós - dentro do mais dentro.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:08
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Domingo, Agosto 07, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o décimo oitavo dia
O dia flui: e nesse correr das águas que vai marcando o tempo e a sua inexorabilidade vou tomando a consciência de que parte do meu mundo se encontra habitado pelo vazio numa plenitude quase obscena. O parque, as estátuas de olhos vazados, os pombos de asas quebradas, os cães sem dono, o quiosque fechado aos domingos e um homem abandonado compõem uma suite triste que dança a ausência nas horas do mundo. Essa infelicidade atávica, talvez herdada dos primeiros hominídeos, narra o nosso desespero por afecto, o nosso medo de morrer na estupenda paisagem de solidão que nos oferece a Natureza: morrer em meio às árvores, num campo aberto ou numa caverna escura, morrer afogado num lago, soterrado na avalanche ou atacado por um animal, morrer no verbo, na sintaxe e sumir dos livros, morrer nos hospitais, dentro de casa ou abreviar a vida nas celas ou nos orfanatos, morrer sempre - e com o terrível medo de desaparecer da memória dos vivos.
Mas engano a solidão e encontro a felicidade:
aceito a generosidade, a sinceridade dos afectos, e recebo os amigos em casa onde me oferecem a sua confiança e me fazem aprender um novo idioma, um novo território linguístico para a amizade.
- Eu sint Omar, eu vin di Brasilia, mie imi place persicile, eu plec Bucuresti.
improviso com o meu amigo romeno uma lição na sua língua, onde afirmo que gosto de pêssegos e que um dia talvez eu vá para Bucareste. Todos riem do meu empenho, e as horas da tarde vão sendo preenchidas,
mas às vezes levanto-me da mesa do almoço e vou à casa de banho, olho no espelho o que restou do desenho do meu sorriso e digo:
"Meu querido, ainda tenho doze dias para suportar a tua ausência"
Escrito por OSCAR MOURAVE às 23:55
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Sábado, Agosto 06, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o décimo sétimo dia
Hoje cumprem dezassete dias da tua ausência e estive a olhar o nosso "álbum de tudo", esse livro fantástico, em co-autoria, que todos nós vamos fazendo, quando decidimos compartilhar a vida com outro, um álbum mental composto por imagens e organizado segundo os imperativos do desejo pela sobrevivência, que toda relação em estado inicial ostenta com o vigor juvenil. Um álbum-rua, um álbum-percurso, um álbum-caminho que começou em: " Calçada do Combro, Les temps qui changent, André Téchiné, Pierrot Le Fou, Godard, Rua de São Marçal, Cinemas King, Minima Moralia, Malaposta, En contrucción, Walter Benjamin, Olhando o sofrimento dos outros, Susan Sontag, Berenice, Million dollar baby, Restaurante Paquistanês, política europeia, le Non, Ion Grigorescu, a generosidade com que me recebeste na tua casa, Jardim das luzes verdes, às 18h45, metro linha amarela, estação do Rato, Rua da Rosa, chocolate, o bar do Victor, Angélique Kidjo, política brasileira, revolução, imigrantes, Baudelaire, sms, a lua sobre nós, história social dos bairros, uma grande enchente no interior da França, la historia del increíble mono blanco, um pedaço do Tejo à tua janela, O espelho, Tarkovisky, Angels in America, uma discussão sobre micro e macro história, o dia de Santo António, segunda-feira, livraria Ler Devagar, terça-feira, esplanada do sol, Príncipe Real, quarta-feira, à noite, choro à tua frente, quinta-feira, o batman com Christian Bale, sexta-feira, jantar com a historiadora norte-americana, sábado, o meu coração é um sol e ao mesmo tempo um pêssego maduro, os teus olhos verdes, o teu nome pronunciado no meu quarto medieval, domingo, tarde, os intervalos da minha vida doméstica, dançar contigo no B.leza, funaná, dançar com a antropologia, sair com o teatro, namorar com a história, uma indelicadeza no supermercado, uma pequena cena de ciúmes, a cautela, o receio, o sentimento de não merecimento, psicanálise, a história do meu pai, um relato sobre Abdel, salada de frango, mousse de maracujá, tu a dançares, os teus gestos mínimos: quando pões os óculos para ler ou no cinema, o andar montanhês, a tua língua já mestiça, a forma inconfundível de pronunciares a palavra também, os deslizes da língua, a língua"
Álbum de aspecto interminável, breviário em andamento, sem o qual os seres humanos pouco podem fazer para desenhar o futuro. Os dezassete dias sem ouvir a tua voz, sem o contacto físico, os dias da minha travessia solitária, fecho o álbum de tudo, e penso: "Sim, é pouco, mas já temos alguma história."
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:30
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Sexta-feira, Agosto 05, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o décimo sexto dia
Jonas não sabia exactamente o que estava acontecendo, o que ele podia ver com a vivacidade dos seus olhos negros era que percorria um grande corredor feito de duas paredes de águas colossais, separadas, onde se via os peixes de cores bizarras, os navios naufragados e, vez por outra, um jovem afogado que aparecia com a fria agonia dos mortos estampada no seu rosto. Jonas atravessava algo, talvez as entranhas do mar, talvez o ventre de um gigantesco pássaro que engolira toda a cólera e todo o desejo do mundo ou talvez aquilo era somente um sonho aterrador sem significado maior. Mas era uma viagem aquela travessia, e aos poucos, as pessoas que - como ele - a cumpriam, iam abandonando pelo caminho os pesos adquiridos pela existência: a vaidade, a ambição, as pequenas iniquidades, as paixões e as outras irrelevâncias. A travessia era esse exercício do despojamento, essa redução do verbo até a sua imobilidade, o seu aniquilamento.
Era preciso paciência, algum discernimento e muita determinação para achar que algo estaria no outro lado da travessia. Talvez um país novo com um grande jardim ao centro, casas com aquecimento movido à luz solar, saúde sem medicamentos, bons salários e férias duas vezes por ano. Era preciso mais do que determinação, era mesmo necessária uma boa neurose para pensar que o paraíso existia. Jonas não era um imbecil:
a viagem que experimentava conduzia-o a um novo território. Jonas viajava não para um país, mas para o centro de um outro lugar, e movia os seus passos com solenidade e cautela. Era o assombro do mundo, como se chegasse ao núcleo de um pêssego; era como se finalmente o universo por trás do espelho se revelasse sem as distorções, e ali, naquele lugar, Jonas poderia encontrar não o paraíso, nem a bem-aventurança, não! O que encontrava ali era algo infinitamente maior, era um outro ser humano.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 04:40
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Quinta-feira, Agosto 04, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o décimo quinto dia
Ontem recebi mais uma carta de ti, com esta tenho sete, e já formam um conjunto epistolar. As cartas, estas minhas companheiras dos dias longos e das noites intermináveis. As cartas, clássicas, que chegam pelo correio normal, que passam de mão em mão com um destinatário preciso. As cartas são como nós, que também vamos passando de relação em relação em busca de um Destinatário para os nossos melhores afectos, as cartas e nós, e o nosso destino a cumprir.
Tu sabes que normalmente não saio com documentos de identidade, quase nunca, se calhar é porque aprendi a ser um sans-papier, tantos anos sem papéis neste pais deixaram-me algumas marcas. Ora, o dia estava lindo, fazia calor, eu caminhava para o meu emprego e na minha pequena pasta de trabalho havia somente sete cartas e um livro sobre poesia russa moderna, além de alguns papéis amassados. Nada mais. Eu caminhava pelas ruas de Lisboa mas a minha mente estava no teu país. Andava por entre os automóveis e as pessoas mas ficava a imaginar como deveria ser caminhar ao teu lado pelas ruas da tua pequena cidade cheia de história. Pelos cartões postais que vieram, vi que há muitos castelos na tua região, então pensei "como deve ser visitar um castelo na presença dele?"
Em seguida pensei em coisas mais fatais, e me imaginei como se fosse personagem de alguma canção de Morrissey "E se um camião de dez toneladas atravessasse agora o meu caminho", eu sem papéis, difícil de reconhecer. Alguém certamente iria à minha pasta em busca da minha identidade, de alguma indicação sobre mim, quem eu era, o que fazia ali naquela encruzilhada num dia exaustivo de Verão, no que eu pensava. Alguém iria ler as tuas cartas, e é muito provável que a partir de então essa pessoa passasse a ter por mim respeito e compaixão, me veria como um ser humano especial, não como uma vítima da desordem urbana, e num relance essa pessoa seria tomada por uma grande inquietação, e talvez, por causa das tuas cartas, pensasse: "sim, eu gostaria de tê-lo conhecido". E logo depois ela pensaria em ti.
Felizmente a vida não é uma canção de Morrissey, a vida é vida e eu estou aqui, agora mais do que nunca protegido, quieto, esperando, no interior silencioso de uma caixa de correios na Rua da Rosa, por mais uma carta que vem das montanhas.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:12
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Quarta-feira, Agosto 03, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o décimo quarto dia
As nossas conversas foram aos poucos tomando um outro rumo, uma nova direcção. Sabíamos que depois daquela noite, quase noite de Santo António, as coisas jamais voltariam a ser o que eram. E repentinamente, sem nos darmos conta, trocámos o registo dos nossos relatos da retrospecção (o nosso passado, as nossas relações anteriores, os sonhos abandonados pelo caminho) pelo da prospecção (viagens no futuro, a visita ao meu país, o encontro com a minha família); é sempre assim, chegou a hora de criarmos o passado, de começar a construir a nossa memória.
Certa vez um famoso arquitecto do meu país disse que por sermos uma nação nova tínhamos de construir o nosso passado, criar a nossa própria arquitectura - a nossa memória ainda era incipiente para nos fornecer os modelos ou os pilares que sustentariam a modernidade. Eu venho de um continente assim, condenado à modernidade. Construímos cidades no ar, criámos a alta tecnologia, inventámos o homem do futuro, aprofundámos as desigualdades, reinventámos a liberdade, condenámos os miseráveis, superproduzimos coisas, matámos os nossos irmãos de fome, reinventámos o capitalismo, mudámos a direcção da globalização, destruímos o planeta, vendemos os nossos corpos de várias maneiras, nossos laboratórios criaram novas doenças, amámos com paixão e desmedida - e matámos por isso, habitamos mega-cidades, sonhamos novas utopias - e vivemos a nossa neurose. Quem sou eu, meu amigo? Eu sou um homem das Américas,
mas também sou aquele que tu vais conhecendo, e que vais educando um pouco à tua maneira quando desvia o voo que o meu olhar projecta sobre a realidade, fazendo-me pousar no território mínimo, sensível, da rua e do bairro: tu me devolveste o afecto que a minha ciência pode e deve ter. Eu me sinto um pouco ridículo em me expor dessa maneira, em ter de falar na primeira pessoa; mas usemos agora a voz do poeta local, aquele que mais do que ninguém viu que todos nós podemos ser várias pessoas ao mesmo tempo, e também a voz do outro poeta, nascido no meu continente, que escreveu, "I too am untranslatable": somos assim, ao mesmo tempo várias pessoas, e intraduzíveis.
- contigo eu reaprendo a ser novo, não a ser moderno.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 03:57
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Terça-feira, Agosto 02, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o décimo terceiro dia
Já não consigo articular a minha noção do tempo com a realidade, apenas algumas zonas do meu entendimento põem-me habilitado a trabalhar no mundo concreto. Assim, consigo cumprir as tarefas mínimas, e ganhar o meu salário.
Agora há pouco fui ao meu bar favorito onde leio Ressurreição de Machado de Assis. Tu já sabes onde é, na Travessa do Conde de Soure. Tomei dois sumos, ainda não posso beber álcool. A cadeira à frente, vazia. Victor, o dono do bar, põe a minha música favorita, agradeço à distância com um sorriso, volto ao livro, a cadeira à frente, vazia. No romance que leio, Lívia e Félix, os protagonistas, ainda não se entenderam. Penso em nós e saio.
Começo a minha viagem desobediente e decido ir em direcção à tua casa, como se eu fosse lá te levar. Ando à noite pelas ruas do bairro reconfigurando os espaços nesta cartografia da ausência, tu não sabes a densidade que a tua falta provoca. Na Rua da Vinha vejo a parreira que cresceu tanto que cobre de tempo as paredes da casa nº 48, dali vi contigo uma das luas mais bonitas sobre Lisboa. Na Rua Nova do Loureiro a buganvília estica a primavera e, mesmo à noite, faz saltar as cores. Atravesso outras ruas para chegar logo à Rua da Academia das Ciências, dois arcos a principiam, um simples e o outro mais solene. Estes arcos têm um significado especial para mim, julgo que foi ali, numa das noites em que te levava para casa, que soube o que nos aconteceria. Fui até a esquina em que costumava te deixar, e voltei para casa carregando no coração a lua, a vinha, a buganvília, os dois arcos e tu - com este conjunto sou capaz de fundar uma nova mitologia, e recriar o mundo.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 03:41
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Segunda-feira, Agosto 01, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o décimo segundo dia
Toda a palavra (escrita) é uma fractura articulada que expressa os limites da linguagem. Dizer, às vezes, é estabelecer uma geometria. Eu posso escrever coisas com profundidade, algumas até com significados, mas não posso (agora) comprar-te chocolates, segurar na tua mão no cinema, sentir-me um homem das montanhas quando caminho contigo, beber água com gás no parque das luzes verdes, discutir a política europeia, "acusar" os teus privilégios, jantar no restaurante paquistanês e ouvir a tua voz. A ausência não é o contrário da presença, como se imagina, mas um exercício meticuloso, quase obsessivo, para manter presente aquele que está longe, in absentia .
- agora também habitas os meus sonhos.
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