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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Domingo, Julho 31, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o décimo primeiro dia
A tua tristeza é inevitável. Nem o céu azul, nem a companhia do teu amigo romeno (com as histórias da imigração), nem a canção do dia são capazes de te orientarem: experimentas uma nova desordem, uma outra fragmentação e a realidade deixa de fazer sentido. "Vens comigo para Noruega, trabalhamos lá na pesca por dois anos e depois abrimos um bar em Manaus" diz o teu amigo sonhador, com os gestos largos de uma muralha humana. E tu olhas para o Tejo, entristecido, sonhando com outra paisagem e com outra língua.
Em casa, à noite, procuras coisas. Não sabes o quê. Reviras caixas, buscas pedaços de papéis guardados sem saber o motivo, relês bilhetes, olhas as fotografias que ficaram fora dos álbuns, o que procuras? Finalmente, encontras algo, um catálogo de uma exposição, ali esquecido num canto do quarto. Havia estampada a fotografia de um quadro de Eugène Fromentin que viste numa exposição, Une rue à El-Aghouat, de 1859: era todo o peso da luz da Argélia que caía sobre a tela. E te lembraste que naquele Outono, em Paris, também a tristeza era inevitável enquanto caminhavas sozinho na companhia de outros imigrantes, pela cidade real fora dos cartões postais.
Está difícil buscares um sentido para céu azul, Noruega, pesca, Tejo, Manaus, Paris, Fromentin, Argélia e tristeza. O teu coração hoje parece um pêssego sem o caroço, sem o núcleo que lhe dá forma e segurança, e que o justifica. Talvez mais à noite, no sonho, quem sabe?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:02
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Sábado, Julho 30, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o décimo dia
Há momentos na minha vida que tenho a nítida impressão de que os meus talentos, emoções e discernimento parecem entrar em conspiração e, silenciosamente, conduzir-me para um dado ponto, um único topos, e legitimá-lo como sendo aquele onde vale a pena morar, onde devo concentrar-me: já me conheço, eu sou capaz de assaltar um banco quando estou assim, e sou capaz de morrer no deserto, segurando com todas as minhas forças o objecto roubado.
Hoje decidi que deveria reler o famoso ensaio de Isaiah Berlin chamado "O ouriço e a raposa: um ensaio sobre a visão da história de Tolstoi". Já tive a oportunidade, uma vez, de conversar contigo sobre a importância das ideias contidas nesse ensaio. Nem todas as nossas conversas eram tão intelectuais, mas me agradava a sensação de que alguém estava disposto a me ouvir com atenção, e por isso eu até me esmerava na exposição. No ensaio de Berlin, ele o começa por citar um fragmento do poeta grego Arquiloco onde estava escrito "A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe uma coisa muito importante". E a partir de então, Berlin, com talento e clareza, busca através da interpretação desses versos, construir uma teoria para compreender os homens de pensamento dividindo-os em dois tipos, aqueles que são raposa (sabem muitas coisas, pensam o mundo a partir de várias janelas, são os pluralistas) e aqueles que são ouriço (concentram-se num único ponto, e a partir dele empreendem uma viagem de conhecimento, são os monistas). Berlin escreve esse ensaio para compreender a literatura (russa), mas aplica-o também para dividir os pensadores em raposas: Shakespeare, Heródoto, Aristóteles, Erasmo, Molière, Goethe, Pushkin, Balzac e Joyce; ouriços: Dante, Platão, Lucrécio, Pascal, Hegel, Dostoiévsky, Nietzche, Ibsen e Proust. A grande esfinge, para Berlin, é Tolstói: que segundo o autor, era por natureza uma raposa, mas que acreditava ser um ouriço. O ensaio busca compreender Tolstoi.
Sabes porque reli o ensaio? Não foi para fazer um trabalho académico, nem para escrever um artigo. Li-o como quem lê um horóscopo no jornal dominical, como alguém que busca organizar a sua semana a partir das indicações dos astros, o motivo prosaico porque o li foi para saber quem de nós é a raposa e quem é o ouriço: eu sou a raposa, e tu és o ouriço.
Hoje eu tive a noção de que por mais que eu queira não pensar na tua ausência, por mais que eu tente a distracção em actividades intelectuais, as disposições do meu espírito parecem convergir para o ponto da explicação do meu interesse por ti: eu não sou uma qualquer raposa, eu sou daquelas que se interessam por ouriços, e me encanto verdadeiramente por pessoas que sabem usar da sua inteligência centrípeta - eu gosto do teu perfil intelectual, e sinto falta das nossas conversas no jardim sob a luz verde da tarde,
exactamente hoje, no décimo dia da tua ausência.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:07
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Trinta e uma manifestações da tua ausência: o nono dia
As tuas cartas chegam, aos poucos, de lugares com nomes estranhos, em papel improvisado com a tua caligrafia pouco rigorosa e por isso mesmo tão bela. Na caixa do correio elas são uma nota de vida em meio às contas para pagar, às promoções de electrodomésticos e os folhetos de viagens que prometem brindes diferenciados para homens e mulheres. Quase todo o mundo cabe naquela caixinha.
Cumpri as horas do dia com determinação, e as tuas cartas e mais a mensagem que me enviaste por telemóvel fizeram-me crer por um segundo que poderíamos ainda nos encontrar para o café naquela esplanada sob a luz verde. O alarme é falso, tu estás a quilómetros de distância e eu ainda tenho um ensaio para reler.
O fim-de-semana começou. Não terei os meus alunos com os seus projectos, não terei a impaciência da secretária, nem o bom dia do jornaleiro da esquina do meu trabalho, não terei o metro cheio pela manhã e nem o despertar das máquinas das obras ao lado de casa, não terei muitas coisas, para as quais estou preparado para suportar a falta; desde criança aprendi a renunciar coisas.
- O que não sei fazer ainda é como minimizar os efeitos da tua ausência. E nem quero aprender.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 04:30
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Quinta-feira, Julho 28, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o oitavo dia
Existe em Lisboa um homem, de aspecto aparentemente abandonado, que circula pelas ruas da Baixa com cinco cães brancos, de diferentes tamanhos e raças. É uma imagem que me provoca um espanto poético: como se aquele conjunto formado pelo homem e pelos cães exigissem um enredo, uma tradução. Nem sempre o encontro, mas acostumei-me à ideia de que a sua aparição é uma manifestação do inexplicável em minha vida - quase uma espécie de arauto, a anunciar a guerra ou a paz.
Certa vez te falei sobre ele e os seus cães, e na ocasião disse-te que um dia talvez eu escrevesse sobre isso. Mas escrever o quê? Quando a própria realidade parece ser a sua concretização poética. Basta ver o homem atravessar com os animais por entre os consumidores apressados à porta das lojas para compreender que nada mais deve ser escrito ou referido. O único que sei é que aquele homem desconhecido (com os seus simbólicos cães brancos) é a garantia do meu desequilíbrio, e toda a vez que o vejo tenho de buscar em mim algum refúgio.
Hoje na Baixa novamente o homem dos cães fez com que eu me aproximasse do precipício. No entanto, havia em mim uma nova coragem , a vontade de guardar esta história para ti. Foi então que me arrisquei e vi o azul do abismo e os seres que lá no fundo se debatiam, vi a dor e os naufrágios, vi um livro de capa dourada com dois versos conhecidos de um antigo poema italiano, vi pássaros mortos e vi o meu pai tocando oboé: e chorei.
E assim, no oitavo dia da tua ausência, eras tu e mais ninguém quem me estendias a mão.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 22:55
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Quarta-feira, Julho 27, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o sétimo dia
Reconforto-me na rotina: tento acreditar na normalidade das coisas, que tudo à minha volta funciona mais ou menos bem como numa canção de verso simples e repetitivo. Saio da estação do metro sempre cheia de gente, e sei que vou encontrar a vendedora de jornais à porta da pastelaria antes de chegar à praça de luz verde. É tão seguro saber o que me vai acontecer no passo adiante. Acho que jamais seria um desbravador ou um viajante destemido. O desconhecido me assusta. Acelerei o passo hoje porque algo me incomodava, uma coisa inexplicável, cruzei rapidamente a rua e ganhei o passeio onde trabalha a vendedora de jornais. Lembras-te dela? Naquela tarde de domingo chegámos a conclusão de que ela era uma mulher muito antipática e péssima vendedora, uma vez que fez pouco caso da nossa reclamação sobre a falta do caderno de cultura que deveria estar encartado no nosso jornal, "Muito bem, então eu queria formalizar uma reclamação para que a senhora entregue aos distribuidores, o que não pode é comprarmos um jornal incompleto" e ela tão grosseira nos devolveu o dinheiro, dizendo que não ia fazer nada. Olhámos um para o outro, nós os estrangeiros nessa cultura, encolhemos o ombro e tivemos pena dela. Pois hoje ao passar em frente à banca onde trabalha vi-a beijar, delicadamente, uma fotografia de criança e desejar coisas boas, era a figura do neto estampada naquela imagem, e ela acariciava-o com tanto amor que me comoveu. Imediatamente aquela mulher mal-educada transformou-se na avó mais diligente que conheci, e recuperei-lhe instantaneamente a sua história, e a vi bela, amando ardentemente homens que a desprezaram, a vi com as dificuldades em criar os filhos que lhe foram nascendo, cada um fruto de um desengano e abandono, a vi lutar pelo seu direito de existir, até que vida lhe transformasse naquele cacto seco e sem vida que vende jornais numa esquina de Lisboa. Senti-me envergonhado com os meus direitos de consumidor burguês ferido, e vi a vacuidade das coisas da vida.
Andei depressa, e pensei, resignado, por onde será que andavas naquele exacto naquele momento. Tentei imaginar-te no teu país com a tua família, o que será que falariam nessa língua tão cheia de melodia - e reflecti, "será que ele está pensando em mim?" Eu sei, o meu mundo é cheio de dúvidas.
Já em casa abri a caixa do correio: e lá estava uma carta do estrangeiro.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 19:47
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Terça-feira, Julho 26, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o sexto dia
"Sarajevo, Mostar, Jenin, Ramallah, Grozny, Cabul, Bagdad" repetia em minha cabeça, como um mantra, o nome dessas cidades ardidas, e de alguma maneira ligava-me espiritualmente à essa geografia da devastação, aos lugares esquecidos da humanidade. O que fazem os moradores dessas cidades? Vivem, seguir adiante com a vida é a sua maior resistência, o seu maior protesto. Em Sarajevo, durante a guerra, as mulheres iam ao mercado e à noite iam ao teatro assistir o A espera de Godot, de Susan Sontag, em Mostar as crianças cruzavam a ponte porque a escola ficava do outro lado, em Jenin Hassan, de onze anos, escrevia no seu pequeno quarto uma redacção sobre a história da palestina enquanto as tropas israelenses andavam sobre o telhado - era preciso ter cuidado, a professora era muito severa -, em Ramallah dois jovens descobriam o amor, em Grozny era possível alugar um vídeo, em Cabul as mulheres se reuniam para o chá e em Bagdad, Basheer, o barbeiro, estava preocupado porque Awal, sua filha, não lhe tinha telefonado, ele não sabia mas ela fora morta por um míssil. É assim que combatemos a destruição da nossa humanidade, vivendo.
Ontem à noite, na segurança do meu quarto medieval, já na cama, reli o teu ensaio sobre a história social das populações urbanas, a cartografia mental da cidade e as relações entre os indivíduos no espaço do bairro, na rua, na casa e no coração. Tens razão, tu com os teus olhos verdes, é aqui neste espaço diminuto das relações sociais que nós, os seres humanos, vamos tecendo a história como as mulheres iranianas tecem os seus gabehs. E mais do que nunca, antes de dormir, pensei nos outros seres humanos que também fazem o mesmo gesto quotidiano de sobrevivência, e como numa oração e o pensamento em ti, repeti três vezes antes de dormir:
"Sarajevo, Mostar, Jenin, Ramallah, Grozny, Cabul, Bagdad"
Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:08
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Segunda-feira, Julho 25, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o quinto dia
Quando eu era criança, inventei um jogo só para mim. Era fácil e se consistia em ficar olhando, deitado no chão frio da minha casa, para um espelho que apontava para a rua e reflectia o mundo ao contrário, o vai e vem das pessoas, os carros e a chuva que a todos surpreendia. Era assim que eu desmontava a engenharia do mundo. Tudo era diferente no reflexo, mas dava-me, por segundos, a ilusão de que não. Hoje, quando voltava para casa fiz exactamente o percurso do meu quotidiano: a saída do metro sempre cheia de pessoas apressadas, a vendedora de jornais à porta da pastelaria e a luz verde do jardim, tudo a mesma coisa, e já tão diferente. Voltei ao espelho da infância e busquei um reflexo que faltava, não o encontrei e, já na altura da rua de São Marçal, tropecei no meu espanto: a imagem que eu buscava era a tua. E dali em diante abateu-se sobre mim uma nova espécie de angústia nunca antes sentida. E houve um desmoronamento, e as minhas ideias foram caindo uma atrás das outras num silencioso jogo: ruiu o metro e sua saída cheia de gente, caiu a vendedora de jornais com a pastelaria, despencaram as árvores do parque sob o peso da luz, e pássaro algum voou e nenhuma criança saiu à praça, o mundo estava deserto, o mundo estava sem ti.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:10
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Domingo, Julho 24, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o quarto dia
Transmutation: eu queria ser aquele teu amigo argelino da infância: defender-te do mundo com a minha inocência: habitar ao teu lado as ruas de Le Puys en Velay, as ruas que jamais conheci: ser a palavra promessa: saltar do alto da montanha sendo a montanha, o salto, a trajectória e a queda ao mesmo tempo, na mesma escrita: queria ser Walter Benjamin, Baudelaire, para estar contigo agora: queria ser a semente no interior do pêssego e contar-te a história de um segredo: mudar a minha consciência: ser uma outra língua: despersonalizar-me até que de mim não reste mais nada e renascer puro nas tuas mãos: eu queria ser as tuas mãos: e queria ser o espanto dos teus olhos verdes diante do fenómeno, porque sei que te espantas com essas coisas: eu queria ser analfabeto agora, para não estar preso à minha escrita.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 11:58
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Sábado, Julho 23, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o terceiro dia
Ainda tenho uma relação intelectual com a falta que me fazes. Preencho os espaços com a leitura de ensaios, de alguma historiografia e sobretudo de poesia. Às vezes ouço música, e evito aquelas que me fazem lembrar de ti. Passei a ser um vigilante severo de mim próprio, um investigador policial apurado e atento aos menores gestos que denunciem a minha necessidade de ti, querido amigo. Eu quase já sou outro - aquele que me vai guardar até o teu regresso.
Ontem à noite tive um sonho curioso. Nele eu visitava um estranho museu de paredes brancas, todas elas, galerias e galerias de paredes brancas, vazias, era tão angustiante a visita, e eu estava sozinho. Por fim, no final de um grande corredor, encontrei um quadro de Cézanne que explodia em cores. Era uma das suas famosas versões da montanha de Sainte Victoire. Fiquei diante do quadro observando-o enquanto vinha à minha memória a tua voz solar que me dizia "O que é que eu posso fazer? Eu sou montanhês, do centro da França, não tropical como tu." E a partir de então, o museu se transformara na cozinha de casa, e havia os convidados à nossa volta que se divertiam com as observações etnográficas que fazíamos um do outro, enquanto eu lavava a louça e tu as enxugava.
E agora de manhã, no momento em que organizo as tarefas que me ocuparão o resto do dia, volto a sentir aquela sensação branca do museu vazio. Eu sei o que isso significa: não é mais possível intelectualizar a tua falta
- é já a manifestação física da tua ausência.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:44
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Sexta-feira, Julho 22, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o segundo dia
Ontem à noite no passeio pelo bairro pensei na nossa última conversa antes da tua partida. Eu sei, havia os imperativos da lua que nos interrogava do céu, os nomes das ruas (substantivos de profissões, heróis ou datas) e os teus olhos que me inquietavam. A tua viagem e o teu regresso foram temas estrategicamente evitados - eis a minha educação, a minha nova forma de delicadeza.
E enquanto caminhávamos de mãos dadas eu começava - no silêncio mais profundo - o exercício da prospecção do futuro. Tu apertavas mais a minha mão, e sem dizermos nada, sem pronunciarmos uma única palavra, soubemos desde aquele instante que tínhamos decidido algo de valioso - então, tomado de um pudor inexplicável, falei-te da lua em termos científicos.
Olho pela janela e a lua - disco vibrante - em trajectória sobre Lisboa cumpre o seu destino: mas é sobre ti que se inclina o meu espírito.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 02:22
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Quinta-feira, Julho 21, 2005
Trinta e uma manifestações da tua ausência: o primeiro dia
A saída apressada do metro, a vendedora de jornais à porta da pastelaria e a luz verde da praça indicam a normalidade das coisas no meu mundo. Há pouco tropecei no passeio - tu conheces o meu talento para o tropeço - e arrebentei com a sandália. Pensei, se ele estivesse ao meu lado diria com aquele sotaque só dele: "impressionante, como é que tu consegues tropeçar com estas sandálias?" Bastou-me esta evocação, e agora sei que hoje é o primeiro dia da tua ausência.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:31
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Ama como a estrada começa.
Mario Cesariny
Escrito por OSCAR MOURAVE às 01:42
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Domingo, Julho 17, 2005
Traduzindo Anna Akhmátova
Avanço para onde ninguém vai
exactamente onde te encontras
querido companheiro - à sombra.
Do jardim sopra o vento surdo
e sob os meus pés um frio degrau.
Assim tu traduziras, às pressas e sem critério, um poema de Anna Akhmátova. Era preciso fazê-lo, era preciso deixares uma marca tua naquele livro que oferecias como presente, uma marca que o tornasse distinto dos outros; porias nele mais um poema dela (original) com a tua tradução descabida.
Nem te importou muito (será?) a recepção pouco entusiasmada. Talvez o livro não tenha sido lido, talvez nem gostem da Anna Akhmátova: mais provável que não a conheçam. Mas está lá, com a tua letra indecisa, perdido em alguma estante de Lisboa, um livro que traz um poema a mais, que os outros não têm.
A tua obsessão por aprendizado te conduz por caminhos pertubadores, é verdade. Aprendeste algo sobre o tempo consagrado. Agora já sabes que todo o minuto dedicado a alguém confere-lhe uma marca que o torna especial entre os outros. Era como se tu fosses chinês e dissesses: "entre mais de um bilião, és tu que recebes aquilo que dou e que não tem preço". Por isso, não te sintas ridículo e nem defraudado.
Invariavelmente, todos nós fazemos a nossa descida pisando os frios degraus da vida. Vamos sozinhos ou com alguém; mas é o tempo consagrado que vai dizer quem, dentre aqueles muitos, poderá ser o nosso companheiro de viagem.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 23:23
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Sábado, Julho 16, 2005
eu não posso parar a máquina do mundo e nem coagular o tempo. Tu me falaste sobre as minhas inquietações, definiste-me como alguém leve e ao mesmo tempo complicado, uma dualidade insuportável e interessante. Eu queria fugir para Beirute ou qualquer outra cidade, porque ali, ao ouvir o que me dizias, o mundo era aterrador e cheio de morte. Tu já sabes como funciona o meu cérebro amputado - gerador compulsivo de metáforas e desordenador da realidade - e naquela hora eu caía num turbilhão, consumido por imagens da guerra, eu era um protagonista indeciso à deriva num qualquer filme do Godard. E para nos salvar eu dizia "Não adianta dizeres isso, tu e eu não somos pessoas simples, sofisticámos demais os nossos sentimentos, já não habitámos o Jardim do Éden", e quase submergimos no mar de palavras que criávamos à nossa volta. Era preciso provar que as palavras de nada valem, e assim iniciámos o dia com tu aceitando o meu peito e eu a tua boca: e tudo se fez música, e voltei a dançar contigo naquele salão de estrelas.
Talvez o caminho que eu tenha escolhido seja assim mesmo, dói um pouco. Mas é só um pouquinho.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:57
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Quarta-feira, Julho 13, 2005
Tinhas a tua maneira de contar a história das civilizações e sempre dizias "podemos ver o mundo a partir da nossa janela, daqui desta rua se vai para uma avenida, da avenida para uma grande praça onde se chega ao rio, do rio ao mar e de lá se vai para o mundo, mas é na sua rua (esteja ela onde estiver) que o homem ensaia e vive a sua comédia ". Nem imaginas o quanto te iluminava o sol quando me explicavas o teu sistema. E à noite, enquanto eu cartografava a luz que desprendia do teu corpo, a lição aprendida no dia completava o seu significado mais universal: pois é no corpo e não na rua, onde localizamos o nosso drama mais existencial.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:51
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Terça-feira, Julho 12, 2005
Telhados no Martim Moniz
Eu nada sabia sobre a imprecisão da geografia desta cidade. A luz modifica tanto a afirmação das coisas, e às vezes a cidade quase não está lá: como aquele restaurante paquistanês no Martim Moniz. Ele só existe na placa, quase invisível, anunciando os pratos simples do menu. A sala mínima e os poucos clientes naquela hora eram as únicas testemunhas da nossa felicidade secreta. Eu sei, na tua presença os problemas do mundo perdem o seu significado e o drama da existência só se realiza no intervalo da nossa alegria. Na mesa ao lado, dois jovens imigrantes comentavam os crimes da ocupação em Bagdad - eu não, eu pensava em fugir contigo para a minha casa.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 01:56
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Sexta-feira, Julho 08, 2005
Rua de São Marçal
O mundo se desconfigurava à nossa volta enquanto caminhávamos em direcção à rua que te levaria para casa. Ao meu lado, o teu silêncio em movimento elíptico disfarçava a inquietação pelas coisas da vida: o quotidiano perdido da infância, a estrada branca que cortava o verde rumo à cidade e o coração à beira do abismo. Eu te olhava na busca de um sinal qualquer, o menor que fosse, que me resgatasse. Até que rompendo o silêncio tu me disseste "eu moro no final desta rua" - então, subtamente, compreendi como nascem os mitos que nos justificam, e antevi o futuro.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:22
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Terça-feira, Julho 05, 2005
Ficarei uns dias fora do ar: é preciso recartografar a cidade, e nessa viagem já não vou sozinho.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:00
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Sexta-feira, Julho 01, 2005
Foge comigo, rapaz!...
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