finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Quarta-feira, Junho 29, 2005

 



Este sentimento de desmedida que me ocupa o espírito e turba a clareza das minhas ideias é acompanhado por outro, difícil de explicar. Sabes, caro amigo, reduziste-me a uma espécie de peregrino laico, sem santo ou demónio a quem me devotar. Por isso, ando pela cidade a sacralizar os locais onde habitualmente me encontro contigo. Aos pouquinhos, e secretamente, vou erigindo aqui e acolá uma pequena ermida, um minúsculo oratório ou uma discreta capela sem imagens santas. Locais de tempo consagrado: a praça inundada de verde, a cadeira ao meu lado no cinema e a minha mão sobre a tua, na mesa da esplanada do sol.

- e tu ainda me falas de viagens no futuro.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:19 Comentários:

Sexta-feira, Junho 24, 2005

 



É amanhã!

Estaremos todos lá: LGBTH (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e heterossexuais) e somos mais do que as siglas podem sugerir: somos seres humanos e a nossa condição essencial é a diversidade, nunca somos um, somos todos. Estaremos lá por outros motivos também: porque lutamos pelo mito da igualdade: o mais bonito deles: estaremos lá porque somos animais políticos: o zoon politikón de Aristóteles, e tudo o que se refere ao destino da pólis é do nosso interesse: estaremos lá porque queremos leis iguais: estaremos lá porque queremos nos unir de facto: porque queremos adoptar crianças: porque queremos ter os mesmos direitos: estaremos lá porque não temos mais medo: temos a liberdade: sabem o que é isso? Estaremos lá por teimosia também: e vamos cantar, dizer palavras de ordem e dançar. E vamos converter a nossa afeição em actitudes contra aqueles que nos agridem com o seu verbo afiado de preconceitos: vamos estar lá, nós os imigrantes, nós os negros, nós as mulheres, nós os gays, nós as lésbicas, nós os bissexuais, nós os trangéneros, nós os militantes anti-racistas, enfim NÓS OS SERES HUMANOS!



Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:04 Comentários:

Quinta-feira, Junho 23, 2005

 



Lendo Mikola Vorony



Eu não sabia que a nossa amizade era um palimpsesto - e que por trás de todas as declarações de afeição, das pequenas cortesias no café e dos comentários após o cinema ou uma exposição, havíamos escrito um outro texto sobre o desejo.

Tu e eu somos feitos de pergaminho, e pela vida adiante vamos escrevendo, por cima da história dos nossos mitos, outros enredos. Mas depois de uma chuva, depois de lavados pela tempestade, o que resta de nós próprios é a nossa história primitiva.

Eu não sabia, que depois que lavássemos esse pergaminho que narra o Apocalipse de João encontraríamos uma peça de Aristófanes.

Eu não poderia prever, que à noite, ao meu lado na cama, depois do desejo, eu te falaria de toda essa poesia que chega do Leste.

E nunca, jamais, pensei que tu estivesses disposto a ouvir-me.


Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:11 Comentários:

Terça-feira, Junho 21, 2005

 



redescobrias os objectos
pelos traços de sua ausência
e então principiavas

a arqueologia do quotidiano
aonde tudo -
pelo seu discreto desenho

parecia indicar que ele estivera
por ali:
o barbeador sujo sobre o mármore

a t-shirt suada esquecida
no sofá

e um bilhete quase trivial
avisando-te que o gás tinha acabado
e que te amava

agora já sabes como a memória
converte os dias de sol
numa canção triste.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:55 Comentários:

Segunda-feira, Junho 20, 2005

 


O corpo do meu amigo é uma estrada de geografia
branca onde me é permitido habitá-lo
para o aprendizado de uma nova melodia

o corpo do meu amigo canta
com a voz de todas as possibilidades
"Eh! qu'aimes-tu donc, extraordinaire étranger?"

- Amo aquilo que me ensinares a amar:

um livro de Walter Benjamin
o poema por escrever
e essa nossa amizade

plena de imprevistos.


Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:00 Comentários:

Sexta-feira, Junho 17, 2005

 



Jonas, o teu espírito abre-se em direcção a um novo território: e conheces tão bem essa disposição para a vida que começas a ouvir outras canções: Johannes Brahms. Como é que nunca lhe prestaste a devida atenção? E foi com este concerto que atravessaste as horas vazias da noite passada.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:29 Comentários:

Quinta-feira, Junho 16, 2005

 

A quadrilha: ou um outro fragmento de um discurso amoroso


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.



É possível que Roland Barthes tenha tido a infelicidade de não conhecer a poesia de Carlos Drummond de Andrade. Se assim o fosse, certamente ele teria incluído mais um verbete no seu conhecido livro Fragmentos de um discurso amoroso: o verbete quadrilha ou - eu o chamaria assim, ciranda, porque ambos tratam de um jogo dançado.

Drummond dançou estas inquietações no poema de forma magistral revelando a angústia - com alguma ironia - de se correr riscos quando se está apaixonado. Nessa quadrilha-ciranda, onde todos giram numa direcção, um parece ir à frente sem olhar para trás: "Lili que não amava ninguém..." Jogo estranho esse, não é? Aquele que não ama sobrevive na protecção do acaso porque não teve nada a esperar. Aquele que ama exercita o desgosto da espera, dos sinais aprovadores da aceitação do afecto dirigido.

João Cabral de Mello Neto deu-nos a consciência apaixonada dos três mal-amados do poema de Drummond revelando-nos a dor e o desespero que habita o peito de Joaquim, aquele que foi devorado pelo amor, aquele que se matou par délicatesse :João Cabral e Carlos Drummond num único grande poema sobre os desencontros do amor.

Talvez Lili encerre alguma verdade ao viver sem o amor: a dispensá-lo solenemente quando se está em jogo, quando se dança a vida com a música. Talvez Lili queira apenas a quadrilha, ou o desenho do movimento, não o movimento em si. Eu não...

Eu sou o Joaquim.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:21 Comentários:

Quarta-feira, Junho 15, 2005

 



Even Jenny Holzer
1993.11.01
altered printer paper on plywood
16 x 8.2 inches


Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:40 Comentários:

Terça-feira, Junho 14, 2005

 



4º Movimento: Interlúdio Português

"Estou de passagem: amo o efémero" escrevia Eugénio com obstinado rigor no seu caderno de apontamentos sobre a vida. Enquanto isso, atrás do espelho - da foz à nascente - um rio corria em direcção contrária, e contava histórias que poderiam ter sido, onde tu e o observador de pássaros, tu e Flebas, o fenício, tu e a tua sombra mais antiga banhavam-se naquelas águas ao revés, e regressavam ao tempo anterior às palavras, ao território da gramática mineral (cortante, ácida e concisa): o mundo sem enganos.

"Com palavras amo", vociferava Eugénio do outro lado onde os rios secam e os ventos varrem o que restou do cemitério branco das letras mortas."Com palavras preciso amar" respondias tu sem saber ao certo se o vocabulário que usavas tinha lugar no léxico da poesia. Pobre de ti, vives na intensidade do deserto e carregas no coração a memória da água em seu movimento.

- Não, jamais voltarás a frequentar aquele rio.



ps.: repito o post, porque foi para ele que o fiz.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:01 Comentários:

Quarta-feira, Junho 08, 2005

 
No interior da noite vazia
elaboras para ti uma nova paisagem

interna

e reabres o livro da vida
com outras ilustrações

o beijo da mãe
o peito do amante
nada está garantido

mas ainda assim
esboças um sorriso


antes de dormir.


Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:32 Comentários:

Terça-feira, Junho 07, 2005

 


Finale: expressbrown local

(na primeira pessoa)


I


A história real foi assim: ele entrou na livraria e me confundiu com o vendedor, pediu desculpas e partiu. Mas eu posso reinventar coisas, tenho sensibilidade, inteligência e posso usar a imaginação, por isso reescrevo essa história e dou-lhe um outro sentido, uma nova direcção; é a forma que tenho para triunfar sobre o caos à minha volta.

Na minha segunda semana no Rio de Janeiro, depois dos acontecimentos que se pautaram pelo reencontro com as emoções mais privadas, numa segunda-feira cheia daquele sol amarelo que se recusa a se pôr, fui à uma livraria no centro da cidade. O centro do Rio sempre foi o meu lugar favorito. Acho que nenhuma cidade do mundo tem um centro assim, que se parece com um decalque de metrópole colado em meio à natureza. Estreitado entre as pedras, as águas e o verde, o centro do Rio parece o cenário para um filme futurista sobre os paradoxos da civilização. Laboratório de arquitectura à escala tropical, nele encontramos os primeiros ensaios da nossa modernidade. As minhas ideias se perdiam entre os livros e a música enquanto eu ainda pensava no almoço com Omar e no seu convite para visitá-lo na chácara e ver as obras que lá fez.

- Por favor, onde posso encontrar os CDs de Wynton Marsalis?
- Perdão, mas eu não trabalho aqui.
- Me desculpe, sim.
-Tudo bem, mas mesmo não trabalhando aqui sei onde estão os CDs de Marsalis, por coincidência estive agora mesmo dando-lhes uma olhada. Sou apaixonado pela música dele.

Levei-o até aos CDs e estivemos conversando um pouco sobre como a vida se parece com o jazz, sobre a rapidez das coisas e sobre os encontros inesperados. No início ele me disse que queria comprar o CD para uma amiga, então eu lhe disse que a sua namorada ia gostar muito de "All Rise" e ele me respondeu prontamente, "não é namorada, é mesmo uma amiga".



II

O quarto azul da casa do Luís, a luz carioca precisa e impertinente pela manhã, os movimentos da cidade que vai trabalhar. As semanas voaram. O tempo é mesmo uma flecha sem direcção, e às vezes também pode ser uma bala perdida em busca de um lugar para se alojar.

- Sabia que você é parecido fisicamente com ele?
- Ele quem?
- O Marsalis.
- Acha?
- Desde aquele dia em que te vi entrar na loja, aliás, depois que você me perguntou sobre CDs do Marsalis fiquei um pouco embaralhado, achei tudo tão estranho.
- E você sabia que iríamos chegar até aqui?
- Claro que não. Mas desejar é saber? Se for, então eu sabia porque te desejei desde aquela hora. E você?
- Jonas, eu não sou um teórico convencido como você, não reflicto sobre os meus sentimentos quando os estou sentindo, mas gostei da franqueza do seu olhar. Nunca fui olhado daquela forma. Sabe, o meu sentimento naquele preciso instante foi o de ter reencontrado alguém que eu tivesse amado e que tivesse voltado para mim depois de uma longa separação. Uma espécie de amor reencontrado, compreende? Como pode ver, você não é o único a ter "sentimentos estranhos".
- Luís?
- Sim.
- Nada, não é nada.


III


Luís era bonito, de uma beleza que não se impunha através das exigências da forma, mas pela manifestação harmónica das pequenas subtilezas - o sorriso, a forma de voltar a cabeça para trás como se fosse atender alguém que o tinha chamado, os olhos negros e radiantes, o jeito de caminhar seguro como quem que vai abrindo sempre um caminho novo por onde passa. Luís poderia ter sido o meu convite para ficar no Rio de Janeiro, poderia ter sido o meu adeus à Europa, poderia ter sido - se eu não fosse tão covarde - a justiça e o amor que me reconduziriam à confiança nos sentimentos. Mas eu estava confuso, eu fugi.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:16 Comentários:

 

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