finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Segunda-feira, Maio 30, 2005

 



4º Movimento: Interlúdio Português

"Estou de passagem: amo o efémero" escrevia Eugénio com obstinado rigor no seu caderno de apontamentos sobre a vida. Enquanto isso, atrás do espelho - da foz à nascente - um rio corria em direcção contrária, e contava histórias que poderiam ter sido, onde tu e o observador de pássaros, tu e Flebas, o fenício, tu e a tua sombra mais antiga banhavam-se naquelas águas ao revés, e regressavam ao tempo anterior às palavras, ao território da gramática mineral (cortante, ácida e concisa): o mundo sem enganos.

"Com palavras amo", vociferava Eugénio do outro lado onde os rios secam e os ventos varrem o que restou do cemitério branco das letras mortas."Com palavras preciso amar" respondias tu sem saber ao certo se o vocabulário que usavas tinha lugar no léxico da poesia. Pobre de ti, vives na intensidade do deserto e carregas no coração a memória da água em seu movimento.

- Não, jamais voltarás a frequentar aquele rio.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 21:40 Comentários:

Domingo, Maio 29, 2005

 


3º Movimento: a caminho de Damasco



Omar - você repetia o nome dele sem parar - como estará, o tempo terá sido um aliado ou um inimigo com ele? Para você o tempo dispensou somente uma retumbante indiferença. Você não engordou nem emagreceu, não está mais inteligente, nem tampouco adquiriu alguma experiência relevante. Não, as desilusões amorosas não contam mais, nem somam e nem subtraem, parecem-se mais com um verso inadequado num poema importante. Omar sim, era um grande poema, talvez para você o maior de todos, dele queria saber tudo o que fosse permitido nas duas horas de almoço que teriam pela frente. Grande ironia das coisas, houve uma época que você o tinha tão completamente, tinha-o desde o café da manhã até ao jantar, tinha-o nas datas festivas, no 7 de Setembro e no 25 de Dezembro, tinha-o nas quatro estações, estava com ele nas chuvas de Março e quando amadureciam as mangas na chácara, acompanhou-o desde quando nasceu-lhe o sobrinho até quando este fez quinze anos, foi com ele a São Paulo muitas vezes e a Buenos Aires uma vez, vivenciou ao lado dele a redemocratização do Brasil, as directas já, as eras Sarney-Collor-FHC em parte, mas agora você só tem duas horas de um almoço - e isso o deixa feliz, "duas horas com Omar basta para lhe dizer que ainda o amo."

Definir os contornos precisos de Omar não era uma tarefa difícil. Você sempre usou imagens da arquitectura colossal para explicá-lo, para compreendê-lo; nem tanto por causa da estatura física, mediana para os padrões brasileiros, mas por conta da dimensão moral. Omar poderia ser uma daquelas colunas enormes que sustentam o templo de Júpiter em Baalbek ou a viga do vão central da ponte Rio-Niterói. Sobre homens como ele coisas importantes poderiam ser edificadas, com ele se podia inaugurar uma nova república ou fundar uma colónia em Marte. Omar tinha o talento de materializar uma virtude em um atributo estético - era muito bonito, e homens e mulheres nunca lhe eram indiferentes, em qualquer ocasião social flertavam com ele descaradamente, mesmo à sua frente, e você ria, porque ele era seu - do nascer ao pôr-do-sol.

Você chegou ao restaurante Damasco vinte minutos antes do encontro marcado. Queria ficar sozinho e observar a casa. Dez anos afastado, as estações, o ritmo e o tempo devem ter operado alguma mudança. Quase nada, a mesma decoração, uma ou duas novidades e a comida libanesa de sempre. "O que senhor deseja para o almoço?, Não vou pedir ainda, aguardo um amigo, Quer uma cervejinha? Claro, por favor." O garçon não se lembrou de você, o tempo é uma borracha poderosa e nem todos têm a sensibilidade de Argos.

Omar chegou em ponto, como sempre. Tinha se transformado na Coluna de Trajano, um arrojado monumento em mármore que ostentava a história das suas conquistas, as batalhas e os impasses, os perigos e as esperanças, Omar - mesmo envelhecido - mantinha aquele entusiasmo no olhar mediterrânico trazido de Beirute (herança do seu pai), aquela forma especial de ver o mundo - como um sobrevivente de um naufrágio - um convite à vida, olhar esse que fez com que você se apaixonasse por ele.

"Finalmente Omar, É verdade, O que a gente diz para alguém depois de dez anos de ausência?, Não sei, mas quero dizer que senti muito a sua falta, E eu a sua, companheiro, Verdade?, Você duvida?, Agora sei que você está sendo sincero, Então, por fim admite que sou sincero, Cada um tem o seu tempo, Jonas, Eu sei, também mudei em algumas coisas, Sério?, Sim, por exemplo agora penso que você tinha razão sobre o mundo, Eu o avisei, Mas eu precisava ir Omar, Também penso que você deveria ter ido, Omar, O que foi, Nada, Fala rapaz, in vino veritas, lembra-se?, Você me perdoa?, Perdoar o quê?, Ter saído tão bruscamente da sua vida, Jonas, isso já passou, o perdão não tem sentido aqui, fomos os dois felizes, o meu sofrimento se foi e guardei o melhor de nós, Omar, eu também guardei o melhor de você, a sua fotografia ainda está na minha carteira, Jonas, não vai me dizer que você ainda me ama?, Eu sempre vou te amar mas como você mesmo disse, é um amor que agora nos protege, como estão você e o Luciano?, Estamos bem, vamos fazer seis anos, Como o tempo passa, fico feliz que você tenha encontrado um companheiro como ele, diligente e atencioso, Você também é atencioso Jonas, Sei, mas não sou um construtor como ele, e sei que você precisava de alguém assim, eu sou mais questionador, os questionadores nunca têm nada, Não sei se concordo com isso, e você? Eu o quê? Tem alguém? não consigo imaginá-lo sozinho sem ter uma pessoa para te despertar dos pesadelos nocturnos, Não tenho ninguém Omar, para ser sincero só me restaram os pesadelos, Lá está você a ser melodramático novamente, É verdade, estou sozinho há muito tempo, mas não estou triste, leva-se tempo para nos educarmos para o egoísmo, Não acredito que você esteja falando assim, foi isso que você aprendeu na Europa? egoístas não fazem o que você fez Jonas, E o que foi que eu fiz de tão especial assim, amigo?, Deu o que não tinha, despojou-se, e talvez tenha aprendido alguma coisa, mas definitivamente nada a ver com o egoísmo, Omar, O que foi? Me dê um beijo."

Naquela tarde você não parava de pensar no tempo e sua validade transitória, estar ali com Omar a falar à sua frente cheio de entusiasmo contagiante, compartilhando a mesma comida de há dez anos, bebendo a mesma cerveja num início de tarde na Rua do Rosário, se houvesse alguma forma de parar o tempo e congelá-lo num frame seria agora o momento ideal. Afinal, a vida não passava disso mesmo, dessa transição vertiginosa das emoções sobre um tapete tecido com a linha das horas. Mesmo agora, quando escreve essa história, você é capaz de se recordar dos pormenores desse dia, e tudo, absolutamente tudo, se converte em música - como aquele quarteto que gostavam de compartilhar domingo à tarde na presença dos cães na chácara em Itaboraí.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:09 Comentários:

Sexta-feira, Maio 27, 2005

 




2º Movimento: glasnost


Os amigos servem para várias coisas. Há aqueles que gostamos de levar ao cinema e discutir sobre um livro, aqueles que convidamos a escrever connosco uma peça de teatro, aqueles outros para nos acompanhar ao jazz às terças e ao samba às sextas, alguns são excelentes companheiros de bebedeira, há aqueles com os quais fazemos sexo, outros somente para nos ouvir, alguns ainda para jantares sofisticados e outros para o bas-fond; com Rebeca você fazia todas essas coisas - e sempre ficava bem. Rebeca dos olhos grandes, semíticos, e dos silêncios elípticos. A amizade dela não foi nada planejada, talvez tenha sido por isso que ficaram amigos tão próximos " Você é a minha melhor amiga, Rebeca" dizia-lhe muitas vezes ao telefone durante o dia e também à noite, quando se encontravam para ir àquele restaurante mexicano no Humaitá. À mesa, no restaurante, não sabiam que o futuro lhes observava como um voyeur afoito, que escutava cada pequena palavra com a sede de um ex-presidiário que acabara de ser solto; o futuro já estava sendo vivido ali, na mesa ao lado. " O que você acha que estaremos fazendo daqui a dez anos, Jonas?, Não sei, talvez estejamos aqui mesmo, comendo texmex carioca e fingindo que somos de outro país, por quê, agora você se preocupa com o futuro?, Não sei, acho que estou ficando velha, deve ser alguma fase, Não é fase Rebeca, é transparência definitiva, chegamos à idade dela, a vida daqui para adiante será de uma transparência atroz, insuportável até, teremos menos enganos e surpresas o que significa dizer que a monotonia é capaz de se tornar numa virtude, uma espécie de porto sem navios, silencioso branco e arrumado como uma farmácia, onde de vez em quando algum náufrago vem em busca de atenção, Você acha? Desconfio, baby, Vamos tomar outra marguerita e depois falamos sobre isto, Boa!" Era sempre assim que vocês terminavam com um assunto quando este se tornava perigoso de mais, tinham um talento tão apurado para se desviarem das questões constrangedoras, e assim iam construindo um mundo que aceitava as imperfeições e acomodava as diferenças sem expô-las ao rídiculo de um debate ou de um plebiscito - gostavam ou não gostavam, sem explicações: o mundo era mais fácil dessa forma, o mundo antes da Glasnost.

Rebeca recebeu o seu telefonema com alegria mas pensava que você estava em Lisboa, que surpresa ela teve, um encontro inesperado no antigo restaurante "Rebeca estarei lá daqui a vinte minutos".



Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:02 Comentários:

Terça-feira, Maio 24, 2005

 

GO SLOW (but don't stop)


From the cradle to the grave everyone loves love. Getting it and giving it.

Wynton Marsalis




1º Movimento: a chegada


Jonas não sabia exactamente se tinha voltado somente para rever a família e os amigos, ou se pretendia ficar. Aliás, nunca teve mesmo talento para organizar e definir metas; a objectividade nunca foi o seu forte. De qualquer forma era o Rio de Janeiro novamente, a cidade como a sua casa. Não avisou a ninguém, tampouco ensaiou emoção alguma. Da janela do avião a mesma cidade, porque de cima e de longe pouco se nota as diferenças. No entanto, havia uma pequena ansiedade inexplicável, afinal, dez anos depois, algum sucesso profissional e duas histórias de amor no currículo fizeram-no acreditar que no fim das contas ter saído do Brasil não foi tão ruim assim. E depois, os amigos que ficaram iriam, invariavelmente, impor-lhe o jogo das comparações. Ter algo para contar, como um viajante distante, era o que dele esperavam.

Aquele pôr-do-sol demorado de outono e as amendoeiras da Malásia sem as folhas, transplantadas de longe, eram o seu ex-libris do Rio. Não os habituais cartões-postais da cidade, artigos de venda para os turistas mais afoitos de uma experiência exótica. E era assim que o Rio estava, amarelo e com algumas árvores sem folhas.

Tomou um táxi no aeroporto em direcção ao Flamengo. Uma conversa trivial com o motorista sobre política e violência puseram-no instantaneamente no ritmo da cidade. Afinal, havia coisas que nunca mudavam. Pela janela as favelas às margens da Linha Vermelha eram o aviso sempre permanente de que as coisas no Brasil ainda estavam por resolver, e a solução não estava em ocultar os problemas com grandes outdoors. Era o Rio sim, gostava disso, a cidade-problema, a cidade-violência, mas a sua cidade.

Instalou-se num hotel (queria privacidade) simples e limpo. Tomou banho, consultou a agenda e fez o primeiro telefonema: Omar. Era para ele que queria ligar. "Alô, oi Omar sou eu, Olá rapaz, como vai?, Vou bem, E Lisboa como está? Acho que está bem, sabe onde estou agora? Sei, em Portugal, Não... não! Estou aqui, Aqui? Sim, no Flamengo na mesma rua onde moramos, na Correia Dutra, Não, seu maluco, vem e não fala nada, Quando é que nos vemos, tenho saudades, Não sei, você sabe que sempre vou para o sítio no fim de semana, Sei, há coisas que nunca mudam, É verdade, Está tudo bem contigo? Sim, E com o Luciano?, Também, Que bom Omar, fico feliz, Vamos almoçar na segunda-feira? Sim, seria óptimo, Ok, Seu maluco, Sou maluco por você, meu véio, Sei, É verdade!, E porque você foi embora da minha vida? Era preciso na época, há coisas que não consigo explicar, mesmo ainda hoje, Jonas, o que sei é que também gosto de você, de outra forma agora, de uma maneira que me protege, e estou apaziguado, você foi uma grande intersecção na minha vida, sabia?, Intersecção, como assim?, Você me pôs em contacto com o outro lado do espelho, me mostrou uma outra vida que eu nem sonhava que existia, aprendi muito contigo nos nossos quinze anos, Não foram quinze, Omar, foram catorze anos e dez meses, Você ainda sabe de cor? Sim, nunca vou me esquecer, Ok, Pois é, então nos vemos na segunda para um almoço, Sim, E como vai a sua mãe? Bem, você a conhece né, Sim, e como, Então até segunda, Até, Um beijo, Outro, Omar? O que é? Nada... até segunda." Jonas pousou o telefone. O Rio de Janeiro voltava a correr-lhe nas veias, era o passado revisitado, eram os antigos amores que faziam as mesmas coisas de sempre - então quanta segurança sentiu, e que sensação de reconforto. No dia seguinte telefonaria para Rebeca.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:10 Comentários:

Segunda-feira, Maio 23, 2005

 

" No meio do caminho havia uma pedra "

Carlos Drummond de Andrade


Lacrimosa

A parede branca nua e suja
não acolhe o teu lamento infantil
profundo e surdo

como a pedra no fundo do rio

tu poema inacabado
intersecção discreta e vibrante
em meio ao lixo da existência

como a pedra no fundo do rio

tu encontro prosaico
entre o pardal e a nespereira
abrigo vago no começo do dia

como a pedra no fundo do rio

tu corpo profanado já sem voz
repousa tranquila no silêncio
da pedra no fundo do rio

enquanto à luz do dia
arde a consciência vil e cúmplice
dos que são prisioneiros da vida.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:50 Comentários:

Sexta-feira, Maio 20, 2005

 



Guilherme


Ele não acreditava em simetrias, são linhas imaginárias, artificializadas pela consciência humana quando se confronta com a natureza, porque o mundo é assimétrico. Mas ainda assim, era possível achar que o mesmo lhe acontecia do outro lado do espelho, na outra margem do oceano, numa outra vida. Lá também há um quarto que precisa de reparo.


Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:05 Comentários:

Terça-feira, Maio 17, 2005

 


Os Três Mal-Amados

João Cabral de Melo Neto


Joaquim:

O amor comeu meu nome, minha identidade, meu retrato. O amor comeu minha certidão de idade, minha genealogia, meu endereço. O amor comeu meus cartões de visita. O amor veio e comeu todos os papéis onde eu escrevera meu nome.

O amor comeu minhas roupas, meus lenços, minhas camisas. O amor comeu metros e metros de gravatas. O amor comeu a medida de meus ternos, o número de meus sapatos, o tamanho de meus chapéus. O amor comeu minha altura, meu peso, a cor de meus olhos e de meus cabelos.

O amor comeu meus remédios, minhas receitas médicas, minhas dietas. Comeu minhas aspirinas, minhas ondas-curtas, meus raios-X. Comeu meus testes mentais, meus exames de urina.

O amor comeu na estante todos os meus livros de poesia. Comeu em meus livros de prosa as citações em verso. Comeu no dicionário as palavras que poderiam se juntar em versos.

Faminto, o amor devorou os utensílios de meu uso: pente, navalha, escovas, tesouras de unhas, canivete. Faminto ainda, o amor devorou o uso de meus utensílios: meus banhos frios, a ópera cantada no banheiro, o aquecedor de água de fogo morto mas que parecia uma usina.

O amor comeu as frutas postas sobre a mesa. Bebeu a água dos copos e das quartinhas. Comeu o pão de propósito escondido. Bebeu as lágrimas dos olhos que, ninguém o sabia, estavam cheios de água.

O amor voltou para comer os papéis onde irrefletidamente eu tornara a escrever meu nome.

O amor roeu minha infância, de dedos sujos de tinta, cabelo caindo nos olhos, botinas nunca engraxadas. O amor roeu o menino esquivo, sempre nos cantos, e que riscava os livros, mordia o lápis, andava na rua chutando pedras. Roeu as conversas, junto à bomba de gasolina do largo, com os primos que tudo sabiam sobre passarinhos, sobre uma mulher, sobre marcas de automóvel.

O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, cortados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.

O amor comeu até os dias ainda não anunciados nas folhinhas. Comeu os minutos de adiantamento de meu relógio, os anos que as linhas de minha mão asseguravam. Comeu o futuro grande atleta, o futuro grande poeta. Comeu as futuras viagens em volta da terra, as futuras estantes em volta da sala.

O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:52 Comentários:

Segunda-feira, Maio 16, 2005

 


[ o ciclo das canções ]

" Onde estás meu amor, chegou a monção mas não apareceste, vem logo para amainar a dor da separação" Interpretada por Ratnabali Adhikari em hindi, no estilo Thumri". Bombay Sapphire, Electric Sitar, Marsicano, 2003.

O carro cumpria o nosso destino cruzando as lezírias sem uma direcção precisa, sem um objectivo aparente, simplesmente ia. Era bom, era a única possibilidade que tínhamos para sonhar com qualquer mundo onde pudéssemos estar incluídos, nós, os banidos desta cidade, os viajantes desta vida. Eu era o teu companheiro - e era provável que eu te seguisse pelo mundo com uma fidelidade canina e a obstinação de um revolucionário. Não era a Índia, eu sei, mas aquele sol desmanchava-se no horizonte, enquanto no carro ouvíamos um concerto de cítara.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:11 Comentários:

Quinta-feira, Maio 12, 2005

 



[ o ciclo das canções ]


"My ambition is to consolidate all aspects of the tradition so what I can really express what it means to be a jazz musician. I want to play jazz, not a specific style. I want to be somebody who plays the music." Standart Time Vol. 3 The Resolution of Romance, Wynton Marsalis, 1990.


I) Never let me go


as músicas que não mais ouvirás, os passos dele no corredor, sua respiração pesada à noite, os três toques na campainha, o banho matinal, a tosse súbita, o lamento mais profundo, a sua melodia favorita enquanto fazia a barba, os telefonemas imprevisíveis e a canção de despedida que ele cantou para ti.


II) Where or when


é noite profunda e uma canção inesperada chove sobre os telhados de Lisboa. A cidade dorme sem saber que amanhã será novamente o cenário quotidiano da comédia dos desenganos. E tu tão protegido e seguro no teu quarto medieval esboça um sorriso de satisfação. Cumpriste as tarefas intelectuais, não magoaste nenhum ser humano e lavaste toda a loiça do jantar. São 03h00 da manhã tens sono mas não queres dormir porque afinal a chuva em Lisboa é para ti.


III) How are things in Glocca Morra?


o sorriso de satisfação transforma-se em regozijo, agora parece que chegaste finalmente próximo de um entendimento sobre a experiência concreta da solidão esvaziada de seu misticismo - e o teu quarto medieval se transforma ora num intenso deserto em confronto com o anacoreta Marun, ora na abóbada azul da Terra onde devaneia Gagárin ou ainda no tapete lunar, rugoso e frio, onde pisa Neil Armstrong. E agora vês a ti próprio, aos dezasseis anos, à beira de um grande rio quase sem margens, a pensar: " o que estarei fazendo quando tiver trinta e nove anos?" E te respondes: "estarei tal como tu, à margem, esperando o momento de entrar no rio."




Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:07 Comentários:

Quarta-feira, Maio 11, 2005

 


[ o ciclo das canções ]


" On the other hand, obviously Jarret needed Bach in order to approach the art of Shostakovitch. There may be a certain logic in this. Jarret started from improvised music." Hans-Klaus Jungheinrich in: 24 Preludes and Fugues, Dmitri Shostakovitch, 1991.



Tens uma forma muito peculiar de elaborar uma explicação de ti para os outros. Não gostas de sair nas fotografias, não sabes dançar e reunir-se com mais de quatro pessoas para ti é insuportável. Não vais às manifestações políticas, não tens assinatura de jornal ou revistas nem TV a cabo. As tuas aspirações mais evidentes excluem o ser humano: gostas da solidão, dos animais domésticos e de observar as estrelas à noite. Mas às vezes, por um descuido qualquer, vens à tona como as carpas vermelhas no tanque ou o broto que irrompe com a Primavera, e vens com a fúria de quem busca na vida matar a sede dos desertos. Nessas horas, costumo pensar que a música é a única forma que tens para te comunicar com o mundo: e assim consigo te compreender com as cinco ou seis notas de um prelúdio.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:32 Comentários:

Terça-feira, Maio 10, 2005

 


[ o ciclo das canções ]

" The theme would offer itself up as a sacrifice "
Offertorium, Sofia Gubaidulina, 1980.


Os desajustes de uma vida dilapidada, a difícil lição sobre o desapego, a busca contraditória pelo irrevogável. Habitas o centro de outro universo para descobrires que não há mais centros, os sentimentos se espalham pela periferia, como esta música que agora ouves ocupa a desolação do teu quarto vazio, do teu mais recente quarto vazio. Construir coisas, partilhá-las com felicidade e depois abandonar. Será este o leitmotiv da tua existência? Não sabes de onde vem esta canção e seu estribilho

offertorium
offertorium
offertorium


e apesar da lucidez que te acompanha nos últimos meses, ainda não chegaste à compreensão daquela voz interna, e uma questão te incomoda como uma dor de dente: " afinal, o que me resta ainda a sacrificar ?"




Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:07 Comentários:

Segunda-feira, Maio 09, 2005

 


rosa
branca de mármore
rosa compacta

rosa copo de leite
cinco pétalas
rosa opaca

flor nocturna
de branco intumescida
rosa explosão

em noite de gala

rosa do desassossego
companheira fiel
no túmulo dos afogados


Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:41 Comentários:

Sábado, Maio 07, 2005

 



Não sei como
mas a vida se dissolve
perante meus olhos

quando dela preciso
mais do que uma declaração
de amor

e naquela tarde caminhar contigo
subindo a encosta do bosque
foi uma melodia

enquanto um gaio em fuga
descrevia o seu arco
sobre nós

dizias-me que me amavas
mas deixaste-me na paisagem
desamparado

sob
a trajectória azul
daquele pássaro


onde ainda estou.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:03 Comentários:

Sexta-feira, Maio 06, 2005

 



Toda palavra escrita instaura o pânico
impõe um limite
e queremos ir para além dela
para o reino do nada

do silêncio
da imobilidade
do irracional

o mundo anterior
ao dilúvio.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:49 Comentários:

Quinta-feira, Maio 05, 2005

 



Eu quis cantar
Minha canção iluminada de som
Soltei os panos sobre os mastros no ar
Soltei os tigres e os leões nos quintais
Mas as pessoas na sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

Mandei fazer
De puro aço luminoso um punhal
Para matar o meu amor e matei
Às cinco horas na avenida central
Mas as pessoas da sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

Mandei plantar
Folhas de sonhos no jardim do solar
As folhas sabem procurar pelo sol
E as raízes procurar, procurar
Mas as pessoas da sala de jantar
Essas pessoas da sala de jantar
São as pessoas da sala de jantar
Mas as pessoas da sala de jantar
São ocupadas em nascer e morrer

{Panis et Circensis, Caetano Veloso}



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:59 Comentários:

Quarta-feira, Maio 04, 2005

 


Let's take a ride
and run with the dogs tonight
in suburbia
You can't hide
Run with the dogs tonight
in suburbia...


(Pet Shop Boys)



Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:04 Comentários:

Terça-feira, Maio 03, 2005

 



A primeira lição
sobre estética
não é lição definitiva

cedo descobriste
a arquitectura aberta
da palavra azul

azul-céu
azul-mar
azul-bebé

e hoje algum azulejo esquecido
ainda cobre o que te resta
da infância consumida

enquanto experimentas
a angústia de viver
la vie en blue.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:56 Comentários:

Segunda-feira, Maio 02, 2005

 



A memória é o teu refúgio mais seguro. Ela sempre te absolve dos pequenos deslizes que cometes nesse exercício arriscado que é o de aproximar-se de outro ser humano. Ele, o ser humano em questão, é portador de memória, tem história e provavelmente medo também. Nenhum dos dois está disposto a ceder, e para quê? A solidão já se transformou em companhia, tem cheiro, vai contigo ao cinema e te acompanha nos intervalos da vida. Mesmo assim precisas dele para caminhar rente ao abismo, alguém que saiba o significado do ar que vem de lá, das profundezas da falésia, e diz " salta, se tiveres a coragem " .





Escrito por OSCAR MOURAVE às 00:30 Comentários:

 

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