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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Sexta-feira, Abril 29, 2005
Как белый камень в глубине колодца,
Лежит во мне одно воспоминанье.
Я не могу и не хочу бороться:
Оно - веселье и оно - страданье.
Мне кажется, что тот, кто близко взглянет
В мои глаза, его увидит сразу.
Печальней и задумчивее станет
Внимающего скорбному рассказу.
Я ведаю, что боги превращали
Людей в предметы,не убив сознанья,
Чтоб вечно жили дивные печали.
Ты превращен в мое воспоминанье.
Como Pedra Branca
Como pedra branca no fundo do poço
dentro de mim está uma memória.
Nem quero afastá-la, nem posso:
é sofrimento e é prazer e glória.
Julgo que quem olhar-me bem de perto
dentro em meus olhos logo pode vê-la.
E ficará mais triste e pensativo
que alguém que escute uma anedota obscena.
Eu sei que os deuses metamorfoseavam
os homens em coisas sem tirar-lhes alma.
Para que o espante da tristeza dure sempre,
em coisa da memória te mudei.
Anna Akhmatova
(Tradução de Jorge de Sena)
Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:27
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Quinta-feira, Abril 28, 2005
O Inverno se foi
e com ele o quarto aquecido
na cidade de arquitectura branca
sabias que não eras um bom aluno
para decifrar o futuro no interior
de um pássaro
prometer o mundo
esperar e depois partir:
sozinho.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:59
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Segunda-feira, Abril 25, 2005
Ontem como hoje
os teus olhos são os mesmos:
nós é que mudámos.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:48
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Domingo, Abril 24, 2005
Amanhã é o 25 de Abril: e a revolução que conduziu Portugal à democracia será cantada nas ruas, nas praças, será matéria nos noticiários da televisão e da rádio. Aqueles que a viveram na sua intensidade irão recordar os momentos mais tensos, os poéticos, e certamente cantarão as músicas. Alguns de meus amigos darão festas, e bêbados de tanto prazer erguerão os seus copos ao 25 de Abril. É bonito isso, é comovente. Eu, que vivo em Portugal há quase seis anos, sempre fico sensibilizado; e sempre vejo o filme que Maria de Medeiros realizou - uma grande homenagem à revolução e aos seus heróis na figura de Salgueiro Maia: aqueles olhos tristes de Maia!
Eu estava preparado para escrever um texto poético sobre a Revolução dos Cravos - com o espírito mobilizado e as ideias em ebulição. Mas às vezes - como disse Ferreira Gullar - a realidade não cabe no poema. Um poema sobre o 25 de Abril, hoje, por força da realidade, deveria conter palavras e expressões como: "residência para todos e todas que vivem em Portugal", "direito de ir e vir", "direito e facilidades à reunificação familiar", "equiparação jurídica das uniões de facto (homem x homem, mulher x mulher, homem x mulher) ao casamento", "despenalização do aborto"... entre outras porque actualmente em Portugal o número de excluídos aumenta consideravelmente, muitos são os que estão de fora das conquistas revolucionárias: os estrangeiros e estrangeiras com e sem documentos, as minorias étnicas, e aqueles que procuram refúgio político e não o encontram em Portugal. O 25 de Abril, para esses, ainda é uma data no calendário do outro.
Eu ainda acredito que é possível uma revolução para a igualdade - que é uma bela utopia, um vento que sopra na direcção da justiça. Enquanto não formos iguais nas oportunidades, jamais poderemos expressar - com liberdade - a riqueza das nossas diferenças. Mas o vento ainda sopra e nos mostra o caminho, e para lá vamos em marcha, como fizeram no passado, como aconteceu em 25 de Abril de 1974.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 22:53
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Sábado, Abril 23, 2005
Nem tudo está perdido: ainda é possível a revolução para a igualdade.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:44
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Sexta-feira, Abril 22, 2005
Falar é difícil
a escrita é o gesto dos inadaptados à fala, daqueles que, de alguma maneira amputados, não conseguem expressar-se pelas delicadezas do verbo, pela boa música de uma ideia ou desejo pronunciados. A escrita é a salvação dos desesperados: e é tão imperfeita. Tu não sabes falar, não sabes dizer, e quando não podes escrever dependes das imagens como um ortodoxo precisa dos ícones. O que se passa contigo rapaz? Tens uma nova casa, o teu novo bairro é acolhedor, visitas mais frequentemente os teus amigos, estás agora no umbigo do mundo, o que te falta? Ontem, depois de uma conversa ligeira com alguém, descobriste as tuas imperfeições, mas e daí? Todos as têm. Estás mesmo perdido, não estás? Tão perdido que nem sabes ao certo o que querias escrever aqui.
- Era para falar da tua nova solidão:
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:08
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Quinta-feira, Abril 21, 2005
"Somos infalíveis na nossa escolha de amantes, particularmente quando precisamos da pessoa errada. Existe um instinto, uma força magnética ou antena que busca o inadequado. A pessoa errada é, obviamente, certa para determinadas coisas - para nos punir, oprimir ou humilhar, para nos desiludir, abandonar ou, pior ainda, para nos dar a impressão de não ser inadequada, mas quase certa, mantendo-nos assim presos no limbo do amor. Não é toda a gente que é capaz de fazer isto."
[ Hanif Kureish, in: Meia-Noite Todo o Dia, Teorema, Lisboa, 2000 ]
Escrito por OSCAR MOURAVE às 11:27
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Quarta-feira, Abril 20, 2005
O inimigo
Se houver um Deus, ele certamente brinca com o seu rebanho. Somente isso iria explicar o motivo de o mais conservador dos conservadores ocupar aquilo a que chamam de trono de Pedro. Joseph Ratzinger é, e sempre foi, o nosso inimigo. Não se esqueçam: ele foi contra o Maio de 68, contra o marxismo, contra o comunismo, contra as revoluções, contra a Teologia da Libertação, contra os latino-americanos, contra as igrejas reformadas, contra as igrejas ortodoxas, contra o islão, contra as mulheres, contra os dissidentes sexuais (lésbicas, gays, bissexuais, transgéneros), contra a liberdade, contra o diálogo, contra... sempre. Isso faz dele alguém contra mim. Se eu fosse um católico apostólico romano, crente e praticante, esta seria a hora de eu dar entrada no meu pedido formal de apostasia; se eu fosse um crente com dignidade, essa era a hora de pedir o meu divórcio irrevogável de Deus.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:24
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Terça-feira, Abril 19, 2005
" Ter vindo a Manaus foi meu último impulso de aventura; decidi fixar-me nessa cidade porque, ao ver de longe a cúpula do teatro, recordei-me de uma mesquita que jamais tinha vista, mas que constava nas histórias dos livros de infância e na descrição de um hadji da minha terra."
[ Milton HATOUN, in: Relatos de um certo Oriente, Cotovia, Lisboa, 1999 ]
Hora de buscar a memória, mesmo que seja a memória roubada a um outro. Mas tens a tua Manaus, e os anos lá vividos: e sempre te parece que tudo começou lá: entre as águas e a floresta.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 11:52
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Segunda-feira, Abril 18, 2005
Canta lo gallo la sera çascum
ora
col dolce dexio ch'altru' inamora
se l' ochio çira là dove sospira
Canta lo gallo la meça note
assai
torna i' pensero nel stato di
guai
tal fruto porta di cosa ch' è
morta
Canta lo gallo çoioso a la
maitina
alora più forte non punçe spina
e li milanta aço ch l' gallo
canta
Canta lo gallo soave nel mio
cuore
Che me l' promise madonn'
amare
d' amor costreto m' à gallo
galletto.
[ Canta lo gallo, anon., Roma, Ms. Vat. Rossi 215, Framm. Greggiati ]
Manuel porque ontem à noite falamos sobre os galos:
canta lo gallo
çoioso
nel mio cuore.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:29
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Sábado, Abril 16, 2005
A barba de Che
Tenho um amigo que actualmente usa uma barba. Fica-lhe muito bem, além de deixá-lo mais bonito. Todas as vezes que o encontro com a tal barba - ele nem sempre a usa - penso em personagens como que saídas de algum poema de Walt Whitman, num pioneiro da Califórnia ou no bandeirante Anhangüera. Sua barba funciona para mim como uma porta de entrada para a minha memória mais antiga. Estranho isso, não é? Mas o mais estranho é o que o capitalismo está fazendo com os pelos dos seres humanos. Já não são mais aceitáveis, são identificados com falta de higiene e sua eliminação é hoje um grande negócio (cremes e substâncias de toda a sorte, cirurgias etc). A verdade é que os pelos estão desaparecendo. A publicidade já não aceita modelos peludos, falo dos homens, claro. O pelo é, para muitos seres humanos, a marca da vida adulta, e sua aparição assinala a despedida da infância. Ainda me recordo de uma das aulas do professor Alfredo Margarido (sim, eu tive essa sorte) que falava que um dos estranhamentos maiores que os homens do século XVI tiveram em relação aos índios e índias era a ausência de pelos (sobretudo os pelos pubianos) e que esse encontro no início era verdadeiramente perturbador. Se acontecesse hoje acredito que seria compreendido de outra forma. Os pelos desaparecem da publicidade, do cinema e até dos filmes pornos. A moderna produção deste tipo de cinema privilegia hoje os sem-pelos, homens e mulheres. A depilação passou a ordem do dia. Interessante, não? Quem diria que usar uma barba hoje pode ser uma forma discreta de dizer não ao consumo de produtos de depilação e higiene. De qualquer das formas, espero que pelo menos esse meu amigo mantenha ainda, por mais algum tempo, a sua barba; pois, quando saio com ele para beber uns copos sempre posso pensar na poesia de Whitman.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:08
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Sexta-feira, Abril 15, 2005
Reflexões sobre o exílio
"O exílio nos compele estranhamente a pensar sobre ele, mas é terrível de experienciar. Ele é uma fratura incurável entre o ser humano e um lugar natal, entre o seu eu e seu verdadeiro lar: sua tristeza essencial jamais pode ser superada. E embora seja verdade que a literatura e a história contêm episódios heróicos, românticos, gloriosos e até triunfais da vida de um exilado, eles não são mais do que esforços para superar a dor mutiladora da separação. As realizações do exílio são permanentemente minadas pela perda de algo deixado para trás para sempre."
Edward Said, in: Reflexões sobre o exílio e outros ensaios, Companhia das Letras, São Paulo, 2003
Refugio-me no ensaio: Said fala de nós, não das nossas paixões individuais - não menos importantes, é verdade -, mas da nossa categoria mais abrangente. No passado dia 20 de Março as organizações anti-racistas, de imigrantes, sindicais e outras fizeram em Lisboa, no Martim Moniz, uma manifestação para exigir a regularização e integração de todos os imigrantes. Estávamos todos e todas lá, encontrámos os amigos, estávamos no epicentro do exílio e lutávamos pela nossa aceitação e integração. Não é facil quando se fala a mesma língua, falando outra se torna ainda mais difícil. Mas vamos indo. Enquanto eu fazia a coleta de doações para a manifestação encontrei-me com um jovem brasileiro, bonito, moreno, simples, digno e "sem nada". Mas ainda assim me deu uma moeda. Estava com uma bicicleta e eu lhe disse: "que bom ter uma bicicleta, assim você pode passear por Lisboa", e ele me disse: "Tenho a biclicleta para não me sentir sozinho". Esta não é uma história piegas da imigração, é a declaração mais veemente e acabada que pude encontrar sobre o medo que nos atinge a todos, principalmente os deslocados, o da solidão: esse monstro insidioso que nos degrada aos poucos. Ele tem uma bicicleta porque é muito difícil fazer amizades fora do seu círculo restrito ao trabalho. Ele tem uma bicicleta porque muitos não o vêem como ser humano, mas como uma trabalhador de obras ou um empregado de mesa, ele tem uma bicicleta... ele é um homem de sorte: há muitos que nem bicicleta têm. A declaração daquele jovem brasileiro cujo nome me esqueci (eu não deveria, sua história não me abandonou) me fez pensar sobre os meus privilégios, sobre a minha sorte. E me fez mais próximo dele e de sua bicicleta. Um dia gostaria de reencontrá-lo para poder dizer o quanto ele me foi importante, e o quanto o seu comentário me deu forças para pensar que sim, que vale a pena lutar.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:54
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Quinta-feira, Abril 14, 2005
Cartas
*
Escreves-me cartas, sou o destinatário
da tua solidão. E sempre compreendo
tudo, mesmo o que não dizes, o que tinge
as entrelinhas de um branco desespero
que é tanto teu como meu: não tens
quem te salve, envelheceste, trataste mal
de um jardim que não chegou a vingar.
Se nos cruzássemos nas ruas desta cidade
entre desconhecidos de toda a sorte, talvez
nos sentássemos a falar da nossa vida, isto é,
de como vamos ficando cada vez mais orfãos
de nós próprios. Ou, pensando bem, talvez não.
Rui Pires Cabral, in Longe da Aldeia
**
Talvez é uma palavra labirinto
pode-se a partir dela ir para qualquer lugar:
para as entranhas do Minotauro
para o impasse
ou para a luz azul da salvação
- Se eu te encontrasse na rua
nunca usaria a palavra talvez.
Oscar Mourave
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:43
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Quarta-feira, Abril 13, 2005
For sentimental reasons
Dexter Gordon no sax tenor, Wynton Kelly no piano, Sam Jones no baixo, Ray Brooks na bateria, tu no centro do universo e eu sozinho nesta sala suburbana em algum lugar da Europa, porque não estando contigo qualquer lugar deixa de ter nome, de ter relevância, for sentimental reasons. E ao ouvir esta música sou transportado para o meu apartamento no centro do Rio de Janeiro e o tempo já não é mais uma flecha com movimento e direcção precisas, mas um grande lago sem margens, sem fundo, onde 1997 e 2005 são a mesma coisa que flutua em sua superfície. Eu e Dexter Gordon no meu apartamento, eu sozinho, um livro de Silviano Santiago, uma garrafa de vinho, eu sozinho, o computador desligado, o telefone fora do gancho, os meus amigos à espera no bar, as luzes daquela cidade, eu no umbigo do mundo expandia o meu peito e cumpria uma educação sofisticada pela via mais dolorosa - sem o saber, eu me preparava para ti, for sentimental reasons.
Será que tu gostas de jazz? Se não conheceres nada posso te ensinar o que sei. Estas coisas se ensinam e podem ser aprendidas, sabias? O jazz me salva do desencanto, me faz companhia e me torna mais arguto. Por exemplo, depois de ouvir For sentimental reasons tive a ideia de escrever-te esta carta. Por questões sentimentais ponho de lado a razão, a minha consultora mais severa, e privilegio o improviso; se der certo fico feliz, se não der, tento de novo: assim é a vida.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:55
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Terça-feira, Abril 12, 2005
Os amigos e seus talentos secretos
sabes que não virão porque já previram
a tua nova história de desengano
e tens toda a noite
para pensares sobre
o significado da palavra espera:
grande estação de comboios
vazia dele
campo de aves mortas
livro sem a última página
resultado de um exame médico
e a voz de um morto
enquanto isso
no outro lado da cidade
- avessa ao teu eclipse -
a luz transborda daquela face
no exacto momento
em pagas a conta e voltas
para tua casa
e tudo o que querias agora
era fugir com ele para o deserto.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:18
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Segunda-feira, Abril 11, 2005
O Fragmento 27
...
di fuor mostro allegranza,
e dentro da lo core struggo e ploro.
O campo do amor é o espaço das hipóteses, nunca das certezas. A única garantia é a de que podemos amar; nada nos afirma que esse amor vá se reflectir no espelho em que miramos. Ainda cegos, vemo-nos a nós próprios. O outro ainda não existe: mas que hipótese maravilhosa já é a possibilidade da sua existência.
Se Dante tivesse vivido no tempo de Heráclito e dele, assim como do filósofo, só nos restassem fragmentos do que foi a sua obra - em pequenas máximas, trechos de textos salvos da corrupção do tempo, referências em obras de outros - provavelmente poderíamos reescrever a sua ideia e noção do que é o estado do amor e do seu desespero. Seria tão diferente assim? Não sei, querido amigo.
Uso a imaginação e chamo de fragmento 27 os dois últimos versos do soneto II de Vita Nuova. Dois pequenos versos que me desorientaram o espírito e fizeram com que eu escrevesse para ti. O poeta brasileiro Jorge Wanderley traduziu-os brilhantemente assim:
...
por fora eu sou a dança
mas no fundo do peito me deploro.
Longe de mim querer traduzir Dante em versos, longe de mim querer sequer pensar nessa possibilidade. Transporto, à minha maneira, as inquietações que me provocaram os versos em imagens. Se por fora eu sou todo alegria e vida, por dentro ardo num sentimento de desmedida; e o que sei, é que ando tolo, e tenho o meu pensamento prisioneiro numa espécie de redemoinho cujo centro é habitado pela tua figura. Eu estou excluído desse centro. Eu estou nos subúrbios, varrido pelo vento azul. Mas de lá posso observar os teus olhos em forma de ónix, incrustados na tua face branca de mármore. Eu não sei como falar do que sinto de outra forma se não for por imagens. Queria desaprender a escrita, porque assim te falaria.
Não gosto de ter que depender dos outros, sejam eles Dante ou o jornaleiro da esquina. Mas eu sou tão dependente, e ainda tenho um longo caminho a percorrer. Ontem depois do cinema, sozinho, eu cumpria os meus desígnios domésticos - andava pela cidade cruzei a Avenida da Liberdade com passos fortes, determinados, havia tanta segurança em mim que fiquei surpreso. Depois avaliei melhor o que sentia, e cheguei à conclusão de que eu não estava só naquela travessia; e pela primeira vez, em muito tempo, comigo ia um sentimento novo, de uma Vida Nova - e este sentimento era meu. E a minha fortaleza emergiu tão rapidamente que disse para mim: "Pronto, tens agora o sentimento do mundo, ele to ofereceu. Já és rico, sem mais nada receber." E tudo ganhou sentido e coerência.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:16
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Sexta-feira, Abril 08, 2005
Ele não sabia como escrever um poema de amor. Ele sabia apaixonar-se, e nesse percurso tortuoso que se impõe quando da paixão se trata, às vezes, conseguia chegar ao amor. Era forte nas pequenas fraquezas, sabia como se desvencilhar dos golpes mais violentos. Mas não sabia fazer poemas de amor, escrever cartas ou mandar bilhetinhos. Só tinha a seu favor o deslize da língua, acto sempre falho para dizer o incomunicável: "preciso de ti". Certa vez tomou coragem e decidiu escrever sobre o estado de seu espírito: così mi trovo in amorosa erranza foi o primeiro verso que lhe surgiu à cabeça. Porquê sempre invocar Dante quando quero falar de amor? pensou. Abandonou o amoroso engano. Não queria falar disso. Queria ser mais objectivo. Não era possível. Não tinha o talento da objectividade. Pensou em coisas, em imagens que comunicassem o seu amor, pensou pensou: " meu querido, hoje releio Orlando para provar que a tua testa é mais bonita; agora sei que foi para ti que Einstein chegou à Teoria da Relatividade Geral; reaprendo a geografia, tu és como uma península branca ora sobre o verde, ora sobre o negro; queria que me ajudasses a assaltar um banco; preciso de um companheiro para cruzar a fronteira e morrer no deserto, para depois verdejar o deserto transformados em húmus; não tenho dúvidas, era em ti que Eliot pensava quando escreveu The Waste Land; tu sabes o segredo oculto no interior do pêssego; antecipaste-me a monção, lavando com o teu brilho a poeira seca do inverno azul; tu és o Inverno Azul; és também a minha lição mais ancestral de estética; és a desconstrucção do poema; és o motivo porque não sei escrever poemas de amor; tu és a bala que acabou de chegar ao centro do meu coração - e eu estou feliz por isso! "
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:18
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Quinta-feira, Abril 07, 2005
A consciência de se ter consciência não precisa ser, necessariamente, acompanhada da habitual angústia de pensar que podes perder, e não chegares a ter o que desejas. Pelo contrário, agora e talvez mais do que nunca podes medir a altura do voo e o tamanho da queda (se houver queda) - os danos, esses, sempre existem, e agora fazem parte do teu vocabulário.
É um outro erro pensares que a paixão é uma consumidora implacável de energia e esperanças, uma demolidora cruel. Talvez ela seja tudo isso também, mas às vezes a tomas como uma aliada, e segues o curso do seu fluxo como um explorador segue o caminho indicado por um rio. Será possível ainda acreditares na força aglutinadora desse sentimento?
Os indícios: tens falado sobre viagens e ontem, à noite, ouviste Chet Baker. Não brinques contigo, sabes muito bem o que significa voltar a ouvir jazz; sempre disseste aos amigos que gostavas de levar a vida assim, no improviso, e que as paixões te deixavam mais bonito e inteligente. Chet sempre foi o teu companheiro mais fiel de viagem. Lembras-te de Veneza? Daquela tarde em que andavas perdido em algum lugar e viste num canal um tapete que flutuava na corrente e um homem que corria a acompanhá-lo para tentar recuperá-lo depois... Era Chet que ouvias no teu "walk cd"... E aquela imagem colou-se de tal forna na tua mente que agora parece um exercício tolo tentar separá-la... Isso mesmo, Chet, o tapete, o canal, o homem que corria, tu e as tuas indecisões fazem parte de uma mesma substância a que damos o nome de memória, na falta de uma palavra melhor. As palavras, sempre tão inexactas. E agora andas a falar novamente da Itália e ouves jazz... os indícios, Oscar.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:55
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Quarta-feira, Abril 06, 2005
A casa de banho não é tua
nem os objectos que a compõem
és tão estranho a ela
quanto foste àquele corpo
agora extenuado
sobre a cama
no amplo espelho
daquele compartimento
reconheces uma imagem:
a tua com os teus
olhos exaltados
e o pensamento em declínio
e sabes que ainda
haverá muitas outras
formas de decepção
onde ponho agora
as expectativas do meu coração?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:03
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Terça-feira, Abril 05, 2005
Marina Tsvetaeva (1892-1941)
Abro as veias: irreprimível,
Irrecuperável, a vida vaza.
Ponham embaixo vasos e vasilhas!
Todas as vasilhas serão rasas,
Parcos os vasos.
Pelas bordas - à margem -
Para os veios negros da terra vazia,
Nutriz da vida, irrecuperável,
Irreprimível, vaza a poesia.
(Trad. Augusto de Campos)
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:54
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Segunda-feira, Abril 04, 2005
Era Lisboa acordando
eu na Calçada do Duque
e uma enorme interrogação:
a vida adiante
ou a vida detrás?
pensamento tão rápido
enquanto teus olhos
indecisos inclinavam
com a chuva.
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