finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Quinta-feira, Março 31, 2005

 


A categoria da memória

Professor: você conhece a literatura de Ingeborg Bachmann?

Aluna: Não, somente um livro que me foi oferecido no dia dos meus trinta anos.

Professor: Malina?

Aluna: Não, o título era outro... Mas julgo que é igualmente pertubador.

Professor: Conhece o leitmotiv de Malina?

Aluna: Sim, mas não o li.



Em Lisboa o Inverno ainda cumpria o sua missão de tornar tudo árido. Até parece que a Natureza decidiu secar tudo: as plantas, os rios e as relações. Sinto-me como se fosse uma pedra de aparência enganosa, porque à noite bate húmido o meu coração cujo núcleo tem a forma de um pêssego maduro. Não preencho as minhas horas-extras somente indo ao cinema. Tenho os meus alunos e habito com prazer a geografia dos seus sonhos. As aulas não são para ensinar da língua os seus enganos, mas ao contrário reconduzi-la às suas esferas utópicas, as aulas crescem quando falamos da vida. E as nossas discussões são feitas sempre à beira de um abismo. Aprender uma nova língua equivale e este salto fundamental.

Certo dia, indaguei uma aluna austríaca sobre Ingeborg Bachmann. Pedir a alguém uma reflexão sobre a sua própria cultura não é somente um gesto de delicadeza, mas sobretudo um passo, uma aventura formidável em direcção ao coração do outro.

Li Bachmann "em sua mais completa traducção" como dizia Caetano, nos anos 90 no Rio de Janeiro. Para mim ela me faz recordar os domingos luminosos no sítio em Itaboraí e os olhos libaneses de Cláudio. A sua escrita aprazada, urgente e mesmo dolorosa fazia com que eu me repensasse constantemente. Nunca entendi porque é que uma escritora austríaca tinha essa chave, essa capacidade de me deslocar.

Mas aqui em Lisboa, nesse Inverno "dry martini", Ingeborg é tema circunstancial de uma aula, e ao mesmo tempo um momento para a reflexão sobre a memória. Disse-me a minha aluna que o livro que recebera de presente falava de uma personagem que chegava aos trinta anos com a seguinte indagação: "Agora chegaste aos trinta anos, não terás mais nem o vigor e nem a beleza da primeira juventude, a força te abandona aos poucos e já não podes mais fazer algumas coisas que fazia antes. Mas uma uma nova categoria emerge: a categoria da memória. Agora podes falar do teu tempo passado."

Passei o resto daquele dia de azul frio pensando sobre a nossa conversa sobre Ingeborg Bachmann. Estamos todos no mesmo barco da memória, e navegamos em direcção ao futuro com o peso extra na bagagem: as nossas experiências, as nossas pequenas decepções e os amores que passaram tão rápidos como acaba de passar aquela gaivota em direcção ao Tejo.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:21 Comentários:

Terça-feira, Março 29, 2005

 
Suburbia VI

A chuva chegou aos subúrbios
e lavou-lhes a paisagem
dissolvendo as suas encostas

o rio suburbano voltou às origens
vazando pelas margens o despojo quotidiano
da existência

em águas que transportam os sedimentos
da nossa mitologia morta: lixo plástico
uma cadeira velha e um cão sem vida

com a fúria reconquistada
o pequeno rio corre em desespero
e reconduz o meu poema

à sua indagação mais ancestral:
morro com a chuva
ou floresço em Abril?






Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:02 Comentários:

Segunda-feira, Março 28, 2005

 
O fim-de-semana termina entre as quatro
paredes do quarto vazio assim se cumprem
as horas

à tarde antes de voltares para casa
consultas a agenda do teu telefone
números de Paris Londres e Estocolmo

números de solidão pensas
e segues a tua rotina indo ao cinema
- esse templo moderno

onde seres humanos da mesma condição
buscam solitários preencher de horas-
-extras a existência de enganos

de que é feita a vida.






Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:25 Comentários:

Quarta-feira, Março 23, 2005

 
no exíguo espaço do corpo ou da casa
tentas perpetuar a forma dos brinquedos acesos
por um misterioso cordel de poeira luminosa

sabes como é falso o tempo das imagens
dos gestos inacabados que te evocam o rosto
perdido no confuso sémen dos sonhos

e ao anoitecer adquires nome de ilha ou de vulcão
deixas viver sobre a pele uma criança de lume
e na fria lava da noite ensinas ao corpo
a paciência o amor o abandono das palavras
o silêncio
e a difícil arte da melancolia.

Al Berto, in: O Livro dos Regressos


Lisboa, segunda-feira, antes do início do documentário olhava à revelia, para a distracção e ocupação dos minutos, livros na pequena livraria do cinema. Os títulos ali, silenciosos - mortos mesmo - esperando pela ressurreição através das mãos de algum leitor desocupado. Os livros de poesia ali e eu com um tempo nas mãos. O livro e eu, um livro de Al Berto. Me pergunto: "Não era esse o autor daquele livro que vi tantas vezes na estante do João e que nunca li ?" Era ele mesmo. Finalmente cheguei pelas minhas próprias vias a este poeta tão pertubador. O meu primeiro gesto foi o de auto-censura: "Como! Porque é que não o leste naquela época ?", o meu segundo gesto foi o de respeito por mim mesmo: eu ainda não tinha vivido o bastante, agora posso compreendê-lo na sua mensagem, e responder:

- sim, a queda da laranja pode provocar o poema !



Escrito por OSCAR MOURAVE às 16:13 Comentários:

Terça-feira, Março 22, 2005

 

Me lembro dele cambaleante sob o sol
nu a olhar o vazio do infinito

Teu pai está bêbado
diziam os vizinhos

Mas eu sabia que naquela
precisa hora

ele cavalgava o obscuro
dorso de Deus.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:45 Comentários:

Segunda-feira, Março 21, 2005

 


Apaga-te
O rio não está diante de ti
Como imaginas.
Há apenas o fosso
E a mesa inundada de papéis:
Conjeturas lassas
Sobre a aspereza das palavras.

O rio não está diante de ti.
Está além. Viaja.


[Hilda Hilst, Estar sendo, ter sido]



Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:21 Comentários:

Domingo, Março 20, 2005

 


Yom Kippur

Porque hoje falei de ti de uma outra forma, reescrevi, pai, uma história de abandono noutra de reconciliação: dizia eu, irreflectidamente, ele me abandonou três vezes. Já é hora de dizer, ele voltou para mim três vezes.








Escrito por OSCAR MOURAVE às 20:19 Comentários:

Sexta-feira, Março 18, 2005

 
[spleen]

Acordo noutra cama e saio para o trabalho. A cidade é a mesma e diversa ao mesmo tempo. Caminho pelas suas ruas como se fosse a primeira vez: bancos, a pastelaria da esquina e o jornaleiro se transformam em personagens de uma nova história. É Lisboa com outra voz.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 11:04 Comentários:

Quinta-feira, Março 17, 2005

 

[diálogo mínimo]

- Conhece-te a ti mesmo.
- Não! Eu tenho que me desaprender:









Escrito por OSCAR MOURAVE às 08:53 Comentários:

Terça-feira, Março 15, 2005

 



" Ele estava só. Estava
abandonado, feliz, perto do
selvagem coração da vida. "

James Joyce



Escrito por OSCAR MOURAVE às 08:52 Comentários:

Segunda-feira, Março 14, 2005

 


[directrizes para os tempos de solidão]

Não és o único nessa jornada
o caminho é longo e ao teu lado
está alguém como tu

jovem bonito e que também
chora na escuridão do cinema
enquanto no écran

um simulacro de vida
é encenado em novíssima
tecnologia digital.

Não te aflijas amigo
mantém a serenidade e a razão
e pensa no seguinte:

a partir de agora irás
aprender um novo idioma
de preferência urdu

já pensaste no mundo novo
que se esconde por trás dessa língua?
(e depois Abid Farook ficará feliz).

Nunca confundas solidão com egoísmo
sempre que possível prefere os seres humanos
aos gatos cães e outros bichos

a leitura e a música ajudam
mas não podem conversar contigo
por isso liga para o teu amigo

ou para um parente distante
e conta-lhe com emoção
os acontecimentos de tua vida.

Agora sabes o quão longa
uma noite pode se tornar
tendo como algoz o tiquetaque do relógio

o teu corpo tem solicitações?
chegaste ao momento de aprenderes
a esperar pela partilha

nessas horas não colhas em demasia
a rosa branca de Raduan
em sua angústia láctea


Lembra-te do aviso de Drummond
porque o peso do mundo não é tão grande:
e vive apenas, sem mistificação.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:00 Comentários:

Sexta-feira, Março 11, 2005

 



É luz o que buscas: no sol e nas estrelas
nos intervalos para o café e no cinema
entre as árvores do bosque e no poema.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:52 Comentários:

Quarta-feira, Março 09, 2005

 



Por dentro é assim, nada mais.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:19 Comentários:

Terça-feira, Março 08, 2005

 


Completamente blue

(na voz de Cazuza)


Tudo azul
Completamente blue
Vou sorrindo, vou vivendo
Logo mais vou no cinema
No escuro eu choro
E adoro a cena

Sou feliz em Ipanema
Encho a cara no Leblon
Tento ver na tua cara linda
O lado bom

Como é triste a tua beleza
Que é beleza em mim também
Vem do teu sol que é noturno
Não machuca e nem faz bem

Você chega e sai e some
E eu te amo assim tão só
Tão-somente o teu segredo
E mais uns cem, mais uns cem

Tudo azul, tudo azul, tudo azul
Completamente blue
Tudo azul

Como é estranha a natureza
Morta dos que não tem dor
Como é estéril a certeza
De quem vive sem amor, sem amor

Mas tudo azul, tudo azul, tudo azul
Completamente blue
Tudo azul


Tudo completamente barroco século XX. Cazuza sempre foi um artista assim, barroco, e as suas imagens inesperadas, suas metáforas pertubadoras, sempre completaram aquilo que faltava à minha imaginação vacilante. Ainda sou capaz de imaginá-lo no Baixo Leblon, inquietando-se. Sua música ainda me aquece nesse Inverno completamente blue que é Portugal.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:24 Comentários:

Segunda-feira, Março 07, 2005

 




Manuel, como é que eu devo fazer um muro no fundo da minha casa?






Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:13 Comentários:

 
Terceto Irregullar

Galo galo de voz ferida
até quando terás perante imagens
tua melodia exacta tão distorcida?



Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:22 Comentários:

Sexta-feira, Março 04, 2005

 
Duas canções

Eu espero
Acontecimentos
Só que quando anoitece
É festa no outro apartamento


(Acontecimentos, Marina Lima & Antônio Cícero)


Vem, vamos embora que esperar não é saber
Quem sabe faz a hora não espera acontecer.



(Pra não dizer que não falei das flores, Geraldo Vandré)



- Diacho, onde é que me encontro?





Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:22 Comentários:

Quinta-feira, Março 03, 2005

 
Três ensinamentos tibetanos



I

O mestre tibetano passou mais de sessenta anos
meditando sobre a vida num mosteiro
no meio da floresta

temos de abdicar da posse dizia ele
às pessoas no salão vermelho do hotel
ela é uma das fontes das emoções negativas

quem possui um elefante
tem a dor do tamanho do animal
e quem possui uma formiga uma dor

à medida do insecto
e eu que somente possuía um homem
descobri que sofro à escala humana

II

O guia espiritual passou mais de sessenta anos
num mosteiro no meio das montanhas
meditando sobre a dimensão da dor entre os homens

não conseguiremos a paz universal
se não a obtivermos em nós primeiro
dizia ele à consciência burguesa

presente naquele hotel de salão vermelho
enquanto isso o meu pensamento voava
até Ramallah

para junto daqueles que não possuem
mais nada: nem terra nem colheita nem livros
e nem a paz.

III

O monge do Tibete passou mais de sessenta anos
num mosteiro situado às margens de um lago
isolado onde reflectia sobre os guias

pedia-nos cuidado na escolha dos nossos
mestres apontando que a desonestidade disfarçava-se
numa voz bonita e melodiosa

será que errei com Karl Marx
Rosa Luxemburgo Arthur Rimbaud
Anna Akhmátova Paulo Freire e Susan Sontag?

o monge tibetano passou mais de sessenta anos
investigando as paixões que corrompem os homens
mas eu estava lá, entre eles.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:45 Comentários:

Quarta-feira, Março 02, 2005

 




Hoje é mesmo um dia estranho, como têm sido estranhos os dias desse Inverno azul e seco, onde pelas manhãs um vento gélido vem fustigar uma palmeira à frente da minha janela. Penso nela, na palmeira, estrangeira também aqui. E penso na sua resitência verde, na sua generosidade ao acolher os pássaros sem o abrigo das outras árvores sem folhas. A palmeira resiste ao vento, a palmeira me ensina como sobreviver ao frio, a palmeira me ensina a generosidade: " dá o que não tens, dá tudo de ti, fica sem nada, a liberdade está aí, a liberdade é não possuir." É tão difícil seguir esse pensamento, eu às vezes quero tanto ter. Sou tão normal. Não tenho a coragem da palmeira e nem a sua sabedoria vegetal. Eu sou um animal. Animais gostam de possuir. Eu gosto de possuir. Todos nós, o proletário e o burguês, o comunista e o capitalista, até o Dalai Lama deve gostar de ter algo que seja seu, nem que seja uma túnica usada. Mas vou seguindo a lição da palmeira, e quem sabe um dia os pássaros não venham buscar abrigo no meu peito.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:17 Comentários:

Terça-feira, Março 01, 2005

 
Quartetto

É para ti que o Inverno toca
essa música em forma de lâmina
verso de corte cristalino
azul que seca os teus olhos

o frio decepa as tuas ideias
como a faca abre a intimidade
do coração do pêssego
revelando a noite ancestral

a escuridão habitada
onde a cada esquina uma navalha
afiada e sem memória
te espera para o discurso final

no entanto sabes que não é
agora que a tua veia será aberta
e segues ouvindo o quarteto de Lisboa
enquanto sonhas com outro país.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:53 Comentários:

 

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