finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

 
OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO


Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos
edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.


Carlos Drummond de Andrade


Talvez uma das funções mais extraordinárias da poesia seja a sua capacidade de abrir as janelas àquilo que Dante chamou de Commedia, formulando em versos as inquietações mais agudas que atingem o ser humano. Essa formulação pertubadora se constrói fragmentando aquele conjunto de eventos ao qual damos o nome de vida: alegria, amor, dor, desassossego, tristeza e desilução. O poeta desmonta o mundo.

Drummond nunca foi o poeta de minha predilecção, mas ninguém como ele soube formular tão bem os sentimentos que me habitam agora; e de certa forma, Guiu, o sentimento do mundo que ora nos atinge talvez seja a nossa paga - o nosso sal - encontrada no meio do caminho.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:34 Comentários:

Sábado, Fevereiro 19, 2005

 



E voltaste ao tempo de Caravaggio
e tudo que não fosse luz e sombra
não merecia a tua atenção,

caminhavas a passos largos
em direcção a sentimentos
desconhecidos:

habitar um deus, removê-lo de ti
e arriscar: para por fim aprender
uma nova forma de decepção

- e a ferida novamente se abriu.


Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:45 Comentários:

Quarta-feira, Fevereiro 16, 2005

 



" La mente, che ha ricevuto dal senso un tenue inizio di ricordo, continua poi all'infinito ricordando tutto ciò che è da ricordare. Avendo perciò i nostri sensi, che per cosí dire stanno all'entrata della mente, ricevuto l'inizio di ogni cosa e avendolo trasmesso alla mente, queste parimenti riceve tale inizio e procede oltre investendo tutto ciò che segue. Comme avviene, allorché si urta anche leggermente la parte interiore di un'asta lunga e sottile, che il movimento si trasmetta per tutta la lunghezza fino alla cima... cosí alla nostra mente basta solo un tenue inizio perché ricordi tutta quanta cosa".

FRANCISCUS JUNIUS, De pictura veterum, da MASSIMO DI TIRO.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:56 Comentários:

Terça-feira, Fevereiro 15, 2005

 


Saraband



Essencialmente, acredito que exista dois tipos de cinema. Faço a minha divisão de forma bastante simplificada e não o divido em escolas estéticas e nem em géneros (divisões canonizadas e válidas para a interpretação e entendimento de uma arte tão nova), divido-o simplesmente em: cinema cujos filmes nos faz pensar na tristeza, alegria e sofrimento dos outros, e o cinema cujos filmes nos faz pensar em nós e na nossa condição. Tarkovsky e Bergman pertencem a este último tipo.

Ontem fui assistir Saraband. Quando se trata de Bergman todos nós sabemos que não é simplesmente ir ao cinema. Para quem conhece a sua investigação pessoal sobre a complexidade do ser humano, assistir aos seus filmes equivale sempre a correr um risco, a fazer um mergulho em nós próprios onde muitas vezes não voltamos ilesos.

Nos filmes que nos faz pensar na condição do outro, o envolvimento não é tão arriscado e somos preservados, poupados desta vertigem que é olhar para dentro de si próprio como quem investiga o que há por trás do espelho: e sabemos que o espelho sempre distorce aquilo que somos, ou o que parecemos ser.

Uma mulher vai ao encontro de seu antigo marido depois de trinta anos separados, sem contacto. O que virá a seguir a esse encontro é doloroso, mas inevitável. Então, enquanto na tela Johan falava que os casais são assim mesmo, casam-se, separam-se, falam-se eventualmente ao telefone e depois se instala o grande silencio, eu não podia parar de pensar nas minhas relações. É tão difícil escapar-se de nós próprios nessas circunstâncias: onde andará o Cláudio agora (e vivemos quatorze anos juntos, dois a menos que Johan e Marianne), o que estará fazendo, como se ocupa de seu tempo - eu posso pressupor, e até sei, mas queria que ele me dissesse. E o João, que de tão perto já se distancia, como habitará ele as horas vazias dos finais de semana? Eu sinto muito, mas não posso deixar de pensar em mim quando vejo Bergman, não posso deixar de escrever sobre isso. E como na canção Esquadros da Adriana Calcanhotto, "exponho meu modo, me mostro, eu canto para quem?".

Assim como no filme, será que na vida real podemos sempre dar um final sublime para uma história, mesmo que triste? Será que podemos encerrar uma dor, um abandono ou uma decepção, ouvindo uma música derradeira? Talvez exista uma componente incompreensível na frustração, algo que nos eleve (em pleno desassossego) à uma condição melhor, ou talvez não, e a música que ouvimos não seja mais que os estertores que antecedem a queda final.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:28 Comentários:

Sexta-feira, Fevereiro 11, 2005

 


Happy Birthday, Dear Oscar


Ontem fizeste 39 anos. Nem parece que o tempo de aliado tenha se transformado no teu competidor mais cruel. Mas será assim mesmo? Não possuis nada de material que te enquadre dentro de alguma pesquisa de mercado: não tens casa e nem computador, nem telefone fixo nem aspirador de pó, a máquina de lavar que usas não é tua assim como o quarto que habitas tão provisoriamente quanto uma alma pode habitar uma vida: o teu emprego não é bom, e recebes muito menos do que vales, mas e daí? Até esta ocupação não te define como o ser humano que és - vêem-te como aquele fenómeno sociológico a que chamam de downward mobility -, e sabes que numa questão de tempo te colocarão no olho da rua. O olho da rua, este sim é o cenário da tua existência. Nele estás tão integrado como a lua é dos poetas e as estrelas são dos grilos. A rua e suas virtudes, a rua e seu movimento, as ruas suburbanas que não recebem nenhum tratamento especial, esquecidas da cosmética política, as ruas quase sem nomes, as ruas com nomes de números, as praças sujas com latas de lixo coloridas, os pombos sem patas, os olhos vazios das estátuas sujas de grafitti, os cães sem pluma, os gatos estropiados, os riachos poluídos e o vento frio e seco que agride a tua pele tropical: eis aquilo que teu amigo chamou de habitar o subúrbio da humanidade: mas há beleza aqui; sabes que há: e muitas noites, no quarto vazio e frio que tua existência suburbana te permite, foste amado às consequências mais extremas; e a cada gesto do amor que recebias tinhas a nítida noção de que um novo mundo era fundado, assim como surgem as estrelas. E quantas noites não foram em que criaste novos idiomas e redefiniste geografias: quantas noites não houve em que reinventaste a pedra e o seu significado, em que reconheceste no voo dos pássaros a gramática específica de um desejo submerso: criar e usar a criação usando-se a si próprio, dar nomes às coisas e delas se despedir, a rua com o seu olho, sempre ela que te espera: vieste ao mundo para seres expulso dele: FELIZ ANIVERSÁRIO, Oscar!



Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:29 Comentários:

Sábado, Fevereiro 05, 2005

 




- Le promenade des Brésiliens -

Como vai? Tudo bem?
tudo bom, tudo bem?

tudo bem, tudo bom?
tudo bom, tudo bem?

tudo bem, tudo bom?
tudo.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:25 Comentários:

 
Suburbia V

Há um mês que a Senhora Huang chegou da China
e com pouco mais de uma dezena
de palavras em português
já triunfa sobre o caos

- e eu nem consigo terminar este poema.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:18 Comentários:

 

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