finisterra

Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.





Memorial:





Escreve

Quinta-feira, Janeiro 27, 2005

 

Suburbia IV

Ao contrário do centro da cidade
o subúrbio não tem um ponto
nevrálgico, um epicentro

o subúrbio é um poema sem núcleo
espalha-se

não é como a semente do pêssego
de arquitectura fechada e silenciosa
e tampouco se parece com a gema
de um ovo, aberta e radiosa

o subúrbio é descontínuo
- e descontinua na vida dos seus habitantes

são 18h47 no vermelho digital do relógio
abre a janela, porque o subúrbio começa
a viver.





Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:06 Comentários:

 
Suburbia III

Quinta-feira era o teu dia mais precioso
porque jantavas em casa dos teus amigos
Ashfaq, Ahmad e Abid - os paquistaneses

não percebias urdu, mas sabias o que era uma família
e, cerimonioso, dizias sempre bismilah à mesa
tu o agnóstico

E naquele momento, enquanto à saida do metro
centenas de pessoas ainda rumavam para casa,
tu redicionarizavas o mundo em decomposição

e recomeçavas tudo na letra "a"
porque querias pertencer também àquele
mundo substantivo:

ashfaq, ahmad, abid, amigo, astrolábio, arquitectura, amor...



Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:57 Comentários:

 
Suburbia II

O dia principiava
com o espectáculo particular
da tua solidão

o café sobre a mesa não era uma companhia
mas a afirmação extrema e indelicada
de que nos subúrbios

a primeira refeição do dia
era também o início de uma desolação:
e aquela sensação imigrante

de chegar a um aeroporto
onde ninguém nos espera
te assalta como um ladrão voraz

e essa era a primeira lição do dia
antes mesmo do comboio que
te levaria ao trabalho.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:50 Comentários:

 
Suburbia I

Compravas todas as felicidades
a prazo na pequena loja da esquina
em frente à farmácia

um aquecedor para o Inverno
um novo leitor de dvd
e uma máquina de café expresso

a quem julgas enganar?

o Inverno já vai a meio
e sabes muito bem que o calor que buscas
não to pode oferecer uma máquina

e os filmes daquela estante
já os conheces bem: mostram a dor e o desengano
- ninguém quer saber disso

e para quê compraste uma máquina de café, homem?





Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:39 Comentários:

Terça-feira, Janeiro 25, 2005

 


" Saia de sua terra, do meio de seus parentes e da casa de seu pai, e vá para a terra que eu lhe mostrarei. "

(Livro do Génesis)


I

E eis que agora nos confrontamos, meu pai
e toda a mitologia do meu abandono e desespero
não serve para elidir a natureza do amor que nos uniu

a tua segunda morte não foi anunciada pelos anjos
mas antecipou-a, silenciosamente, o meu irmão
em seu lamento: "morre hoje, morre agora, o meu patriarca"

e o que faremos nós com a tua memória:
sempre à espera do teu regresso devemos tocar
aquela mesma sonata?

as cartas que não chegaram
o abraço que não houve
e a história que nunca foi contada.


II


E neste ponto nos encontramos:
tu meu reflexo antecipado
tu meu discurso inacabado
tu aquele que amei em aflição

jazendo em teu berço
lanças-me com teu olhar de morto
um verbo trocista
"morrer não é isto:

morre aquele que não ama
e nem corre riscos
morre aquele que não erra
e nem desespera"


e tu, sempre eficiente
estucador de palavras
preenchias com teu riso mordaz
a sobriedade fria daquela sala mortuária.


III

Carta ao filho,

toda e qualquer terra estrangeira é a minha terra: a carta que te envio não cumpre nenhum desígnio especial. Somente gostaria de que soubesses que na tua falta, na tua solene ausência, meu filho, amei eu os filhos de todas as estrangeiras como te amei a ti - porque assim como toda e qualquer terra estrangeira é a minha terra, todo e qualquer filho estrangeiro é também filho meu. Não te escrevi porque não sabia como fazê-lo, não te abracei porque meus braços - afeitos à rigidez do mármore - se intimidam com a natureza humana; eu sei, tinha de aprender com alguém a difícil arte de expressar o que não tem forma específica (o amor incondicional), aquele amor vertigem quase abstracto, aquele amor revoada de pásssaros, aquele amor ventania, aquele amor noite de estrelas num céu em absoluta inversão. E coube a ti, nos meus estertores, quando já me abandonava a memória dos dias plenos, essa nobre tarefa do filho que educa o pai reeducando-se a si próprio; então, as palavras reaprendidas por ambos ganham uma nova epifania: amor, perdão e esperança.

- és capaz de doar a mim, filho, aquilo que de mim esperas?



( em memória de J. D. )






Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:16 Comentários:

Sexta-feira, Janeiro 14, 2005

 
[ Sobre a Paixão Segundo G. H. ]


Manuel, "Será preciso coragem para fazer o que vou fazer: dizer. E me arriscar à enorme surpresa que sentirei com a pobreza da coisa dita". São palavras da Clarice Lispector no seu romance " A Paixão Segundo G.H.". Poucos chegaram tão perto na concisão em explicar os limites da palavra dita, e escrita também. Ao falar já perdemos algo, alguma emoção não traduzida ou um sentimento ainda obscuro. Às vezes tenho a noção de que um mundo inteiro ficou não-dito, não-pronunciado e ainda assim é um Mundo, vasto e assustador, mas um mundo: cheio de florestas e animais que antecedem o dilúvio, um mundo que viu o primeiro sol. Ontem eu não encontrei as palavras exactas, talvez eu jamais as encontre, mas os sentimentos estão aqui e é possível construir uma vida com eles.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:49 Comentários:

Quinta-feira, Janeiro 13, 2005

 
[ No Café Europa ]


A noite prometia uma programação variada,
entre o encontro com os amigos
e a exibição de um documentário

No café os jovens comentavam
a beleza do empregado ucraniano
e dos seus olhos aflitos

E a tristeza pelas coisas do mundo
era o nosso maior intervalo:
abandonar a casa, amar e revoltar-se

E enquanto a vida corria lá fora
no interior de minha ferida mais recente
uma nova história se desenhava

E eu, que sempre pensei não depender
dos horóscopos diários,
lia na borra do meu café o dia de amanhã.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:50 Comentários:

Quarta-feira, Janeiro 12, 2005

 
Nove cartas e um poema

O poema




[ pedagogia do esquecimento ]


Ao contrário do que se sabe
o esquecimento é um acto de sublime
insistência

construído ao revés
de todas as nossas intenções,
esquecemos quando:

procuramos e não somos atendidos
escrevemos e não somos lidos
erramos e não somos perdoados

E assim vamos esquecendo
a verdade do pêssego
o traço no quadro cubista

o dia do aniversário
o poema compartilhado
e a mensagem no gravador

Até que de nós, em nós próprios,
não reste mais nada:
além da nossa obstinação

em não querer esquecer.




Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:35 Comentários:

Segunda-feira, Janeiro 03, 2005

 




Nove cartas e um poema

Carta Nove



À dissolução de um antigo mundo segue-se, invariavelmente, a criação de um outro, edificado sobre aquilo a que os arqueólogos chamam de ruína, de vestígio. Será que isto também acontece no reino das palavras? Será que poderemos, eu e tu, construirmos outro mundo - e habitá-lo com outros - levando as palavras e as coisas que inventámos em nosso mundo? Se possível for quero levar as seguintes frases e palavras: "meu amorzinho", "bacalhau com natas", "Sol", "La Vida és Sueño", "Lua" "Pina Bausch", "A Paixão Segundo São Mateus", "estrelas" "Mozart", "Orlando Paladino", "corpo", "coração", "A décima-terceira sinfonia de Shostakóvitch", "A quarta sinfonia de Mahler", "O Espelho", "Maitena", "João Cabral de Mello Neto", "Carlos Drummond de Andrade", "pêssegos da estação", "pargo", "melro", "Palavra e Utopia", "jornal aos domigos", "cinema às segundas", "teatro às quintas", "jantar com os amigos", "viagens", "Lavoura Arcaica" e "Revolução"... Mas também quero que me tragam um mundo novo replecto de coisas novas, numa nova língua em que eu tenha de aprendê-la em sua substância mais secreta, o seu discurso mais íntimo. Porque o mundo em sua epifania suprema reapareceu-nos pela frente, amigo, e mesmo não estando no Wisconsin colorido de seus habitantes, espero que nos encontremos em breve e que possas, com um sorriso amistoso, convidar-me para um café.



Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:01 Comentários:

 

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