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Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
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Quinta-feira, Dezembro 30, 2004
Nove cartas e um poema
Carta Oito
"Die Weltuntergangstimmung" significa em alemão "A atmosfera de um mundo em naufrágio" assim me disse o meu aluno alemão, lembras-te? Fiquei durante alguns dias tentando pronunciar esta palavra longa de sentido extenso. Ainda me recordo que naquele dia eu e ele estivemos discutindo sobre a antropologia dos indígenas da América do Sul, e chegámos ambos à conclusão de que aquelas civilizações estão fadadas ao desaparecimento; então, repentinamente, veio-lhe a palavra: "Die Weltuntergangstimmung, Oscar." Falámos ambos da nossa tristeza, e das dificuldades de mudar as coisas mais urgentes. Mas sobrou tempo para conversarmos sobre coisas alegres e o convidei para jantar lá em casa. Logo de início tu gostastes dele, porque além de simpático puderam conversar sobre a música Bach. Eu sempre levava os meus alunos mais interessantes para almoçar ou jantar em casa. Tinha muito orgulho em te apresentar a eles, e além disso também era um forma de eu me manter ligado ao mundo dos acontecimentos, ao mundo das fronteiras distantes e das possibilidades de mudanças: mudar é tão importante.
Eu não sei precisamente quando foi que comecei a ter a noção pessoal de que já vivia a minha atmosfera de um mundo em naufrágio. Será que foi quando eu cometi o meu primeiro gesto indelicado? Ou quando deixei de me interessar pelos teus problemas? Ou quando tu censuraste a minha liberdade? Não sei, mas o facto é que quando notei já naufragava como Flebas, o fenício, e inconscientemente me afogava nos desentedimentos: "Die Weltuntergangstimmung"
Mas o Sol voltou, meu caro amigo. E apesar de olhar para esse passado tão recente com alguma melancolia, temos mesmo de admitir os factos maravilhosos que aconteceram também: as pequenas viagens que fizemos, o nosso empenho em consagrarmo-nos um ao outro, as manhãs de domingo na cama e as noites à mesa do jantar: eis toda a nossa mitologia doméstica. Recentemente, tive a minha segunda aula involuntária de alemão, e aprendi uma nova expressão: Ich liebe Dich, porque a vida é assim, e sempre vamos encontrando pessoas em nossa viagem.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 10:29
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Quarta-feira, Dezembro 29, 2004
Nove cartas e um poema
Carta Sete
O sol que marca o início deste Inverno de aprendizado finalmente chegou ao epicentro do meu coração. É bom poder contar com a luz em meio ao frio e o distanciamento. Saí pela cidade e os seus habitantes eram feitos de coisa mais concreta do que a projecção de suas insípidas imagens. Eram pessoas - verdadeiros seres humanos - as que encontrei no comboio, nas ruas pela cidade, nos cafés e nas bancas de revistas, somos mesmo criaturas da luz.
Ao caminhar pela Avenida da Liberdade, muito próximo à agência da Aeroflot, encontrei a senhora cega sempre à espera de esmolas sem nada pronunciar. Ela não canta, não toca e não faz qualquer daquelas coisas que os cegos fazem, nem uma palavra costuma dizer. Eu sou um cidadão das metrópoles e os cegos com a sua cantilena e sua tristeza nunca me comoveram. Quase não dou esmolas porque não tenho. Mas hoje, não sei o porquê, dei à cega a única moeda que tinha. E qual não foi a minha surpresa, ela cantou algo de tão melancólico que me senti deslocado, e um vento me percorreu o pensamento, fazendo-me vir à consciência uma palavra: "Alexandria". E foi com alegria que pronunciei alto, para ela, a palavra ALEXANDRIA, e segui adiante o meu passo em direcção aos Restauradores.
Fiquei alegre como não ficava há muito tempo. O meu espírito exorbitou-se de contentamento e percebi, finalmente, que tenho de continuar a minha viagem, pois com o meu entendimento tão turbado pelos últimos acontecimentos esqueci por completo que tenho um destino mítico a cumprir, assim como qualquer ser humano também o tem, o motorista e a cabeleireira têm-no, assim como o pasteleiro e o presidente da república, o professor e o aluno também, todos nós temos uma viagem com um destino que julgamos de relevância. Eu recuperei o meu hoje, em completo acordo com o Sol que inunda Lisboa de frio.
Há algo de estranho em mim, como se finalmente eu decifrasse o enigma da esfinge respondendo-lhe às suas interrogações sempre com a mesma resposta: "amor, amor e amor". Ela não me devorou, eu estou salvo, ainda sei amar e me sinto emergido. Agora, vigilante dos meus sentimentos, consigo interpretá-los muito bem e por isso tenho por eles um respeito maior ainda. Lembro-me de uma frase de Manuel que certa vez me disse que vamos conhecendo muitas pessoas durante uma viagem, e por isso estou apaziguado em saber que comigo alguém chegará à minha Alexandria dos bairros decadentes, do azul do Mediterrâneo e de sua nova biblioteca.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:23
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Terça-feira, Dezembro 28, 2004
Nove cartas e um poema
Carta Seis
A vida é sonho real, e esta carta não era para ser escrita, e nem era para ser esta. Mas ei-la no seu direito de existir.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:43
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Segunda-feira, Dezembro 27, 2004
Nove cartas e um poema
Carta Cinco
Os sedimentos que compoem a memória são por natureza movediços, e por isso estão em constante movimento dentro de nós. Reconstituí-los nunca é tarefa fácil, e muitas vezes ficamos à mercê das emoções, e das contigências passageiras. Apesar de sua natureza escorregadia, temos pela memória uma tão grande admiração que em torno dela construímos uma ciência, uma forma de conhecer o Homem em suas transformações no tempo e no espaço: chamamo-la de História. Somos nós que estamos nela, na história: somos eu e tu, pois nunca bebemos da poção do esquecimento de Circe.
Sabes, das minhas memórias mais preciosas guardo uma em especial. Lembro-me de uma certa noite de Maio de 1999. Naquela época eu ainda não morava neste futuro que habito agora, e todo o porvir era um exercício de feliz expectativa. Eu estava em Portugal para tomar uma decisão, a de permanecer ou não, e foi numa noite de Primavera, à mesa do jantar, que te contei a minha história mais profunda. Aquela povoada com os mitos particulares que cada um de nós traz e que nos justificam perante o mundo, naquela noite te contei sobre os desencontros com o meu patriarca. E tu choraste com a minha história. E o teu lamento foi tão forte e genuíno que ali tomei a decisão que nos afetaria para sempre, a decisão de permanecer. E nunca me arrependi, muito embora às vezes no calor de algumas discussões eu tenha dito o contrário; e como me arrependo disso agora: mas a vida é assim mesmo, errar e acertar sempre, para depois errar novamente em busca de acerto. E durante aquele jantar, eu observava, em silêncio, toda a generosidade que consagraste à organização da mesa: o bacalhau com natas, o vinho, a salada e o pão se constituíam em elementos ordenadores de um mundo onde tudo era possível: e foi. E quanta mudança nos aguardava, caro amigo.
Atravessar a zona do silêncio nunca é fácil. O silêncio aterrador, o silêncio destruidor, aquele que mina o campo do conhecimento e do encontro. Este silêncio é em tudo diferente daquele outro, daquele necessário à criação artística, intelectual ou à comunhão do encontro espiritual... este silêncio experimentámo-lo pouco, ou não? Agora eu já sei algumas coisas. Por exemplo, quando uma das pessoas não quer falar (porque não lhe é possível por algum motivo) a outra deve falar por ela, e com ela. E ao mesmo tempo respeitá-la no seu silêncio, porque a mudez também comunica.
Dos meus ensinamentos mais difíceis, talvez a lição mais complicada tenha sido aquela em que eu não soube ser a tua voz necessária. É provável que seja por isso que eu escrevo agora, num exercício complicado de reconstituição do percurso partilhado, e povoo de palavras um texto que nada mais é do que o eco de uma experiência a dois.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:27
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Quinta-feira, Dezembro 23, 2004
Nove cartas e um poema
Carta Quatro
Há um ano eu tive um sonho muito estranho. Tenho uma relação muito complicada com os sonhos, pois ao mesmo tempo que os desejo, sei que neles, quando o habitamos, somos privados do tempo e sua consistência, do seu fruir. Nos sonhos estamos como que suspensos, esperando ansiosos pela vigília que nos salvará. O ano de 2003 foi decisivo para muitas pessoas, e nós já caminhávamos a passos largos para a dissolução. Certa noite sonhei que estava no Pátio das Mesquitas, em Jerusalém, um dia depois da visita-profanação de Ariel Sharon. No sonho estava sozinho, e tinha numa das mãos uma pedra prestes a cumprir a sua intifada. Olhava à minha volta e não via ninguém, somente um sol abrasador inundava com a sua luz um espaço em aberto, - eu estava atento, e de vigília segurava a pedra na forma de um coração, apertava-a sabendo o que teria de fazer, mas nada e ninguém aparecia: eu estava sozinho na praça com a minha revolução. O sonho foi esse, mas não te contei porque já vivíamos o nosso silêncio. E tu sempre que ouvia os meus relatos sobre os sonhos tinha um especial talento para ridicularizá-los: sim, acredito que este era o teu talento mais secreto, me ridicularizar a mim e as minhas lutas. Tinhas até um etiqueta que me classificava: dizias que eu era um profeta da desgraça. Eu e os meus amigos, eu e os meus projectos políticos.
Hoje olho para aquele sonho com o estado da vigília. E aqui, na fruição do tempo, observo o quanto são elevados, como seres humanos, os palestinos e as palestinas. Roubaram-lhes a terra, as colheitas, mataram-lhes os pais e as mães, assassinaram-lhes os filhos e tentam apagar-lhes a sua história. Sharon sabe que no peito de cada palestino e cada palestina bate, na forma de um coração, uma bomba prestes a explodir, porque não tendo mais nada, eles têm tudo, são portadores de uma causa: a liberdade de si e de seu país, por isso Sharon quer nos matar a todos - e por isto somos palestinos agora. A causa da liberdade é comovente, e ao me aproximar um pouco mais deles, daqueles que são privados dela, sinto-me melhor. Sinto-me político, com a pólis dentro do coração-pedra.
Porque será que não te falei a tempo deste sonho? Não deveria tê-lo partilhado contigo? Se calhar agi mal, e pensei que este sonho transformar-se-ia em tua face num riso de ironia com uma frase cortante: assim como foi matéria de escárnio os anéis que uso, o meu barrete marroquino e alguma roupa desadequada. Teria sido meu sonho tratado assim? Nunca saberemos não é? Talvez eu tenha cometido um descuido em não tê-lo comentado.
Ontem o mesmo sonho me voltou. Desta vez retornei ao Pátio das Mesquitas e me encontrando novamente com a pedra na mão digo: " Venham que estou preparado para a minha terceira intifada. Será o meu aniquilamento ou a minha libertação total." Salvou-me a vigília às 04h37 (hora vermelha no digital do relógio). Levantei-me e fui beber água. No caminho de volta ao quarto pensei: " Sim, estou preparado para a minha terceira intifada: mas o que eu tenho nas mãos é uma pedra, um coração e uma história para contar ! "
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:27
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Quarta-feira, Dezembro 22, 2004
Nove cartas e um poema
Carta Três
A Carta Dois foi um erro vulgar. Não deveria tê-la escrito daquela forma e nem nunca foi a minha intenção estabelecer qualquer diálogo com as ideias de Montaigne. Escrevi-a como exercício tolo, e falhado, de vaidade, somente isso. Na verdade, fi-la porque queria esconder de mim para comigo o verdadeiro tema de sua discussão, que não era a amizade e nem o amor: o que escondi atrás daquele espelho vaidoso foi outra coisa, foi a minha falta maior, talvez a minha ferida mais íntima: a gratidão. Acho que é isto. Sempre tive medo de ser ingrato, ou acusado de ingratidão o que para mim dá no mesmo. Desde muito cedo ouvia a minha mãe cantar uma canção que dizia: " antes de comer o fruto, pensa em quem plantou a árvore", acho que era assim... Não sei onde ela aprendeu esta canção, julgo que com alguns dos vizinhos que tínhamos em Foz do Iguaçu. Perdi a melodia mas me lembro dos seus versos, pelo menos destes versos, e desde então comer qualquer fruta passou a ser um exercício de gratidão, para mim.
O tempo passou, e sou este homem complicado que conheceste. Um homem que não sabe muitas coisas: não sabe pedir ajuda, que não sabe pagar os impostos no prazo, que faz mal os cálculos matemáticos, que deixa a tampa do vaso sanitário suja, e que chora de madrugada, sozinho, porque não consegue entender a vida. E me descobrir assim, para mim, também é matéria de júbilo pessoal, porque me conhecendo sou capaz de me entender um pouquinho mais; com júbilo e desgosto é assim que sou capaz de ver as coisas, simultaneamente, do alto do edífício, que sou eu, onde me encontro agora. Sempre gostei de morar em lugares altos por causa disso, do alto posso olhar para os dois lados: da varanda tenho um visão, e da área de serviço outra. E as duas me dão conta da realidade.
E a minha realidade agora sou eu, com o meu apurado senso de gratidão. Apurei-o tanto que acabei por pervertê-lo e transformei a gratidão, de virtude que era, em um carrasco cruel que faz com que eu mais não faça do que invocá-la com todas as palavras delicadas de perdão. E o que venho fazendo de mim nestes últimos sete meses, senão escrever por extenso um longo e demorado pedido de agradecimento por eu ter habitado contigo a tua vida? E quanto mais eu agradeço, mais me parece pouco. Eu estou prisioneiro ainda. A minha condição não é a de um homem livre. Vivesse eu na Babilônia dos antigos já teria consultado os astrólogos, já teria ido às cartomantes e voltaria de bom grado à minha analista, com a pergunta na ponta da língua. " até quando estarei prisioneiro nesta gaiola que construí ? "
Aqui neste meu território, que é o da escrita, vou tecendo o meu tapete gabbeh e já começo a ter noção da história que nele se desenrola, na história da minha vida e dos meus percalços. Faço-o com um olhar humilde mas também de compreensão, e talvez eu, que presumo saber perdoar, tenha de aplicar a mim mesmo o perdão que vou buscar dos outros. Se no final destas cartas eu puder me remir, terei a noção precisa de que avancei mais uma casa na busca de compreender-me a mim mesmo. E tu, que foste o propósito primeiro das minhas reflexões, começas a me aparecer como aquele que plantou a árvore ancestral, árvore essa em cujos frutos me alimentei.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:16
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Terça-feira, Dezembro 21, 2004
Nove cartas e um poema
Carta Dois
Ainda não sei bem o motivo de eu escrever aqui. Durante esta noite que passou não consegui dormir pensando sobre o assunto e, principalmente, sobre a validade de me expressar por escrito, logo eu que tenho tantas dificuldades com as palavras.
Sabes, para ocupar o meu raciocínio com outras coisas li um pequeno ensaio de Montaigne sobre a amizade: muito curioso a leitura que aquele francês do século XVI faz da amizade. De tudo o que disse fiquei a pensar naquilo que não disse, e não o podia dizer: " que a amizade entre dois homens só pode acontecer se os dois forem verdadeiramente livres." Acho que é por isso que não nos transformámos em amigos. Ainda somos prisioneiros, cada qual na sua corrente. Das minhas trato eu, que sei serem a vaidade e o orgulho as forças que podem me aprisionar.
É difícil para mim. Nunca fiz como Montaigne, e os outros nos quais ele vai se informar, uma investigação sobre a natureza sublime da amizade. O que fui aprendendo pela vida, com os meus erros, é que sempre me aproximei dos meus companheiros demonstrando os meus medos e expondo o desejo do meu corpo. Sim, é um caminho também legítimo para se conhecer o outro, mesmo que as advertências assinalem a projecção enganosa que muitas vezes faz o corpo, o caminho do amor físico também é uma forma de comunicação.
Agora, já com os meus trinta e oito anos, acredito que o epicentro do fluxo do meu desejo esteja noutra esfera, acho mesmo que não há mais epicentros, pois eu agora me vejo como um todo. Me perco neste caminho tortuoso e confundo amor com amizade, não é disto que trata Montaigne, disto trato eu aqui, porque a minha vaidade me impede de admitir a coisa mais natural do mundo, que é o simples facto de que é legítimo a qualquer pessoa não querer a minha amizade, mesmo que esta pessoa tenha de mim compartilhado todas as esferas da paixão; e o que eu queria dizer era muito simples: respondendo a Montaigne: " - Sim, creio que já tive a oportunidade de encontrar a verdadeira amizade, e aprendi com ela a ter um olhar libanês para a vida." E respondendo a mim mesmo: " - Sim, eu magoei outros com as minhas imperfeições." E talvez respondendo a nós: "- Não, não podemos ser amigos pois nenhum de nós é livre para tanto."
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:42
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Segunda-feira, Dezembro 20, 2004
Nove cartas e um poema
Carta Um
Tu não sabes, mas estive em Bilbao na semana passada - naquela cidade que nunca chegámos a estar juntos. E tu não sabes ainda, mas vais saber a partir de agora que o perdão é uma estrada muito longa e nem todos sabem percorrê-la. É difícil, não é? Aceitar que não somos perfeitos e que todos os nossos actos reunidos não têm e não chegam para formular a nossa ética pessoal, nunca são o suficiente para nos aparelhar para o julgamento final, aquele a que alguns de nós pensam poder fazer sobre os outros. Nós os juízes de nosso próprio mundo mesquinho. Eu não, eu estou de fora! Eu estou do outro lado: do lado do perdão, porque sei que isso se aprende, e foi errando e pedindo perdão, e perdoando, que hoje cheguei até aqui. Exactamente aqui, neste ponto extremo de mim mesmo, eu, este ser humano incompleto, mas perfeitamente adaptado à minha incompletude. Sabes, eu me completo nos outros: naqueles que se completam em mim. Eu não julgo o outro. Eu sou imperfeito. Eu só sei perdoar.
A partir de hoje, e por nove dias, irei escrever para ti, que vens aqui a desoras. Para ti que aos poucos vais me matando, para ti que na tua incompletude ainda não sabes perdoar. Mas eu seguirei nas minhas nove cartas e no final terás um poema, que será teu de todos os outros, porque eu sou assim: sou meu e de todos os outros. E depois de nove dias não sei mais o que se irá passar: eu sei que farei como o Bill Viola e me instalarei no meu "Going Forth By Day".
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:15
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Quinta-feira, Dezembro 16, 2004
Let's get lost ?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:58
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Terça-feira, Dezembro 14, 2004
Manuel, hoje acordei com a palavra intuição na cabeça. Eu não sabia o que fazer com ela, o que sabia era que toda ela se constituía num fabuloso sinal: como se eu capturasse - com destreza - um vocábulo que me fugisse sempre. Já te disse muitas vezes que tenho uma relação muito difícil com as palavras, elas me abandonam quando delas preciso, e então quando necessito me expressar, um grande silêncio busca abrigo no meu corpo e se instala na minha língua, habitando a ponta de meu vocabulário já escasso. É com este silêncio - o silêncio de quem vive num deserto pleno de imagens - que tenho de conviver. Eu conheço muitas coisas sobre o silêncio, todas elas me chegaram pela via da intuição, sabias? Sei por exemplo que somos capazes de nos mantermos em silêncio mesmo quando estamos em algazarra: estamos silenciosos no metro, no comboio, nas feiras aos domingos, nos estádios de futebol, nos teatros, nos cinemas e nas praias durante o Verão. Este silêncio atávico, pertencente à condição humana, não se expressa pela ausência do som, não... é algo mais espectacular, este silêncio é a ausência de nós. É o nosso afastamento de nossa identidade mais íntima. Ficar silencioso é manter-se afastado de si próprio! Nem sei porque falo destas coisas, querido amigo, o que sei é que acordei com esta palavra na cabeça, e pensei que dela eu poderia tirar alguma utilidade prática, porque também quero tornar prática a minha vida, então pensei: " Acho que terei de fazer uma opção: não vou assistir Solaris com o Manuel, mas O Espelho." E minha opção se deveu unicamente à intuição de que contigo eu não posso ver os dois filmes. É como se eu tivesse a noção, agora mais clara ainda, dos limites de nosso tempo compartilhado, de seu aprazamento absoluto. Por isso, talvez, opte por aquilo que julgo melhor, por aquilo que me expresse mais, e neste caso específico O Espelho de Tarkovsky traz algo de mim, inexplicavelmente.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:18
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- INTUIÇÃO -
Substantivo feminino
Etimologia: lat.ecl. intuitìo,ónis 'imagem reflectida no espelho', prov. por infl. do fr. intuition (1542) 'contemplação', (1752) 'conhecimento imediato', (1831) 'pressentimento que nos permite adivinhar o que é ou deve ser', do v.lat. intuèor,éris,ìtus sum,éri 'olhar atentamente, observar, considerar'; 1858 é a data para a acp. de teol, e 1873, para 'faculdade' e 'visão'
1. faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas, independentemente de raciocínio ou de análise
Ex.: "sua intuição lhe dizia que era melhor partir"
2. Rubrica: filosofia.
forma de conhecimento directa, clara e imediata, capaz de investigar objectos pertencentes ao âmbito intelectual, a uma dimensão metafísica ou à realidade concreta.
2.1. Rubrica: filosofia.
no cartesianismo, conhecimento de um fenómeno mental que se apresenta com a clareza de uma evidência, sem oferecer qualquer margem para a dúvida (como p.ex., o cogito).
2.2. Rubrica: filosofia.
no kantismo, conhecimento imediato de objectos oferecidos pela sensibilidade, seja a priori (espaço e tempo), seja a posteriori (objetos captados pelos sentidos)
Obs.: cf. anschauung.
2.3. Rubrica: filosofia.
no bergsonismo, conhecimento metafísico capaz de captar a essência temporal e fluida de uma realidade, oposto à quantificação e espacialização que caracterizam a inteligência conceptual.
3. Rubrica: teologia.
visão clara e direta de Deus como a que possuem os bem-aventurados.
Definições do Dicionário Houaiss
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:20
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Segunda-feira, Dezembro 13, 2004
E eis-te aqui, porque sempre estás por perto:
quando tenho náuseas pela vida,
quando a felicidade me invade
e, no intervalo do silêncio absoluto, quando
sou capaz de ouvir a voz de meu pai.
- Até então eu não sabia nada sobre o medo,
Hilda.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:17
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Quinta-feira, Dezembro 09, 2004
Não tínhamos a mínima noção do risco,
e mesmo assim, tentávamos
mudar o estatuto ontológico das coisas do mundo:
transformar a pedra em urso,
o urso em cavalo,
o cavalo em violino
o violino em pássaro
o pássaro numa ideia
e a ideia em amor.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:36
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Terça-feira, Dezembro 07, 2004
Será que sempre merecemos uma segunda chance?
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:51
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Segunda-feira, Dezembro 06, 2004
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:21
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Sexta-feira, Dezembro 03, 2004
E como tens o talento, Manuel,
para encontrar a minha ferida mais íntima.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:54
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Quinta-feira, Dezembro 02, 2004
Um poema nunca é o real, Manuel. Mas uma tentativa, muitas vezes inglória, de organização discursiva de imagens reais ou não, elaboradas na fala do poeta, naquilo que é o seu desejo de comunicar-se com o mundo. Os elementos que detonam esse estado de ansiedade (angústia), que provocam no poeta a mobilização de suas forças, têm várias origens e um ponto em comum: representam todos eles forças desagregadoras. Neste sentido, como um poeta amigo meu certa vez me disse, o poema surge como aquele espaço de reordenamento e organização do mundo fragmentado: é um mundo reconstruído que o poeta apresenta ao outro, convidando-o a visitá-lo e dizendo-lhe, "Vem, eis o meu mundo, aqui algo parece fazer sentido."
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:30
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Chet Baker e a chuva: assim começou a história
Little Girl Blue - I
Então era assim que tudo começava: com uma canção triste, no final daquele Outono de mudanças. Chovia e eu trazia em mim alguma sensação de perda, de desvalia, - mas era uma perda existencial, como se a revelação de uma verdade me aproximasse ainda mais do abismo que eu cavava sob os meus pés. Mesmo assim era uma história que começava exactamente na ponta da frase que me pronunciaste: "tudo tem o direito à existência: os pássaros, os livros e as histórias."
- Por onde andaremos nós, meu caro amigo, com o nosso desejo agora?
Embraceable you - II
E ontem, no carro, enquanto me trazias para casa e cantavas algo para mim, eu pensava que um violino somente era um violino quando tocado, porque assim quieto dentro de sua caixa muda era somente um objecto.
As coisas são o que são nos seus movimentos. Assim também é o Amor entre os seres humanos: só é amor enquanto movimento, em actos de amor. Por isso, enquanto me levavas e chovia em Sintra, pensei que finalmente o amor poderia estar de volta: e os movimentos de tua melodia inexacta trouxeram-me algum equilíbrio no final daquele dia.
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