|
Nem tudo acaba aqui, e nem tudo começa.
|
Terça-feira, Novembro 30, 2004
Concierto Barroco
i
"De plata los delgados cuchillos, los finos tenedores; de plata los platos donde un árbol de plata labrada en la concavidad de sus platas recogía el jugo de los asados; de plata los platos fruteros, de tres badejas redondadas, coronadas por una granada de plata; de plata los jarros de vino amartillados por los trabajadores de la plata; de plata los platos pescaderos con su pargo de plata hinchado sobre un entrelazamiento de algas; de plata los saleros, de plata los cascanueces, de plata los cubiletes, de plata las cucharillas con adorno de iniciales... Y todo esto se iba llevando quedamente, acompasadamente, cuidando de que la plata no topara con la plata, hacia sordas penumbras de cajas de madera, de huacales en espera, de cofres con fuertes cerrojos, bajo la vigililancia del Amo que, de bata, sólo hacía sonar la plata, de cuando en cuando, al orinar magistralmente, con chorro certero, abundoso y percutiente, en una bacianilla de plata, pronto cegado por una espuma que de tanto reflejar la plata acababa por parecer plateada.... "
Alejo Carpentier
Escrito por OSCAR MOURAVE às 11:27
Comentários:
Segunda-feira, Novembro 29, 2004
[a crueldade dos dias mortos]
A semana surgia num novo dia,
e podias ou não, à deriva de uma nuvem de estorninhos,
consagrar ao futuro os melhores frutos.
E era bom saber que habitavas
as horas vagas das tardes clandestinas
discutindo ensaios e alguma poesia.
O Outono era isso:
saber que não eras o ladrão
fortuito de alguma emoção alheia,
e compartilhavas o teu melhor,
oferecendo no altar da estação
a tua língua exaltada.
Mas pressentias, que nessa felicidade aprazada,
tudo o que poderiam te oferecer
era a antecipação da crueldade dos dias mortos.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:01
Comentários:
Sexta-feira, Novembro 26, 2004
PAOLO
Leggiamo qualche pagina, Francesca!
[ leggendo ] "Certamente, dama" dice
Allor Galeotto, "ei non si ardisce,
Nè vi domanderà mai cosa alcuna
Per amore, perchè teme."
Et essa dice . . .
[ Paolo trae leggermente Francesca per la mano. ]
Ora leggete voi
Quel ch'essa dice. Siate voi Ginevra.
[ Le loro fronti si avvicinano chinadosi sul libro. ]
"Certamente . . ."
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:39
Comentários:
Quinta-feira, Novembro 25, 2004
Poesia SMS - I
[manhã - 06:19]
Marte e Vénus ainda no céu,
o dia nascendo,
e eu aqui na varanda
- todo o meu coração
é uma superfície plana
onde tu escreves um novo enredo.
[tarde - 12:45]
No comboio de Sintra
um homem consulta o
Chinese Oxford Dictionaire,
enquanto uma mulher
entretém-se com um
livro de Osho.
- Será que não tomei, por engano,
o Orient Express?
[noite - 19:45]
O bilhete do metro que me deste,
agora meu pequeno tesouro secreto.
Já na Avenida da Liberdade,
andando ao teu lado, questiono-te:
- O que sabem as pessoas sobre doação?
- O que sabem sobre o tempo consagrado?
[madrugada - 02:02]
Acabei de despertar de um sonho,
nele apareciam-me dois grous brancos;
e dançavam o seu voo ancestral.
- vem
Escrito por OSCAR MOURAVE às 17:43
Comentários:
[sobre o acto de escrever]
O primeiro raio de sol
não tem um nome
- é somente uma flecha,
e surge todos os dias
atravessando a falha
na tua persiana.
O primeiro canto do galo
não traz nenhum verso
ao teu coração isolado:
"Mas sem o teu canto,
galo galo, não posso despertar"
pensas.
No entanto, para ti, a angústia
é sempre o primeiro passo,
o primeiro nome e verso
de um qualquer poema.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:54
Comentários:
Quarta-feira, Novembro 24, 2004
[ O tempo coagulado, em alguma tarde de Maio de 1996, no Rio de Janeiro ]
Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:35
Comentários:
"Obscurecer esta obscuridade,
eis a porta de toda a maravilha."
Lao-Tsé
Manuel, ontem estive consultando um livro que me foi indicado por ti. Chama-se Tao te King. Devo te confessar primeiramente que é a primeira vez que toco neste livro.
Há muitos anos, quando eu ainda vivia noutro país, um amigo muito querido indicou-me a mesma leitura, mas não li na altura; agora sei o porquê: eu ainda te esperava. Isso acontece muitas vezes, é preciso que a pessoa e a circunstância estejam em harmonia para que possamos conhecer algo. Leio este livro como quem lê um poema; não te aborreças se não o classifico como um livro de filosofia, é que para mim a poesia ainda é a forma mais elevada de reflexão existencial, de investigação das contradições e de expressão dos desejos dos homens. Obscurecer esta obscuridade é, além de um aforismo, um excelente jogo poético.
Há coisa de dias conversávamos nós sobre o reino do obscuro, sobre aquele lugar onde a luz não tem governo e onde nós nos submetemos às paixões mais exigentes, aos desejos mais concretos de realização da carne. Como disseste, é bem provável que dois monges tenham percorrido o mesmo destino até chegar à luz, ou o mais próximo dela. Não te posso garantir que farei a leitura perfeita deste livro, mas farei a leitura possível, porque também eu percorro uma via nova e muito diferente das que vinha caminhando até então. Eu, que fui por tempos quase a personificação das paixões exacerbadas, eu que mudei de país, de ortografia e de léxico, eu que sofri - que deixei de ver o sol nascer por algum tempo, agora desejo não mais cair em paixão. Eu quero somente o amor desinteressado; quero cortar a relva de teu jardim e não receber nada por isso, e mesmo assim me sentir feliz por fazê-lo; eu quero poder escrever o que sinto sem me censurar, quero não mais temer em pronunciar ou escrever determinada palavra; eu quero a liberdade de não ferir o outro; e quero-te a ti ao meu lado quando for possível, e quando não for eu quero me sentir feliz também. Enfim, quero obscurecer esta obscuridade, pois chegou a luz.
Desejo tantas coisas, mas se elas não se realizarem, tudo bem, porque sei que no desejo também estão a fonte e o germe da frustração. Actualmente sou capaz de encontrar grande prazer nos meus momentos de solidão, precisamente ouço embraceable you na voz de Chet Baker, e se fosse possível coagular o tempo agora, é aqui que eu ficaria, ouvindo esta canção, comendo do pão que me fizeste e pensando sobre alguém que no passado teve o nome de Lao-Tsé.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:24
Comentários:
Terça-feira, Novembro 23, 2004
"One went to the door of the Beloved and
knocked. A voice asked, 'Who is there?'
He answered, 'It is I.'
The voice said, 'There is no room for Me and Thee.'
The door was shut.
After a year of solitude and deprivation he returned and knocked.
A voice from within asked, 'Who is there?'
The man said, 'It is Thee.'
The door was opened for him."
Jelaluddin Rumi
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:31
Comentários:
Segunda-feira, Novembro 22, 2004
Aqui no meu quarto -
esse mundo de geografia imprecisa -
preparo-me para a lição
que este Inverno me ensinará.
Estou tranquilo, sereno,
e tenho o que é preciso
para o aprendizado:
um caderno, um lápis,
os meus olhos castanhos
e um coração disposto
a dar um salto.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:45
Comentários:
Sábado, Novembro 20, 2004
XIX
Oh Beirute/Beryte
poço de tempo coagulado
calabouço de lembranças
que me entrançam de limo.
Um dia foste continente
eu à sombra de minaretes
arcos mercados rochas
líquido azul fenício.
Agora sou teu invólucro
e te transporto ubíqua
emancipada do espaço
em que foste de início.
Astrid Cabral
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:49
Comentários:
Era Beirute em todo o seu esplendor: as tardes nunca estavam vazias e podíamos, sob as árvores que habitavam a orla, predizer o futuro e assombrar os nossos sentimentos. Mas era uma felicidade tão diferente - a prazo. Um café, um livro que me davas e todo aquele sol que se punha era a nossa geografia mais específica; e como sabíamos nos mover naquele mundo.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:29
Comentários:
Sexta-feira, Novembro 19, 2004
МУЗЫКА
Д. Д. Ш.*
В ней что-то чудотворное горит,
И на глазах ее края гранятся.
Она одна со мною говорит,
Когда другие подойти боятся.
Когда последний друг отвел глаза,
Она была со мной в моей могиле
И пела словно первая гроза
Иль будто все цветы заговорили.
* Д.Д.Шостаковичу
1958
MÚSICA
Algo de miraculoso arde nela,
fronteiras ela molda aos nossos olhos.
É a única que continua a me falar
depois que todo o resto tem medo de estar perto.
Depois que o último amigo tiver desviado o seu olhar
ela ainda estará comigo no meu túmulo,
como se fosse o canto do primeiro trovão,
ou como se todas as flores explodissem em versos.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 13:14
Comentários:
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:41
Comentários:
Quinta-feira, Novembro 18, 2004
Uma história de escorpião
O Escorpião e a sua solidão desabitada, e a história deve começar assim: era uma vez um escorpião que morava, sozinho, na margem de um grande rio azul. Ele sabia que na outra margem havia vida plena, uma grande cidade habitada por toda a sorte de pessoas, cada qual com a sua história - que continha em si todas as histórias -, com lojas cheias de mercadorias exóticas, com mercados ruidosos onde, de vez em quando, um escândalo de amor tornava-se público, com cinemas e cafés, com rodovias e carros. Era a vida em seu frenético movimento. Era preciso ir lá.
Mas como fazê-lo? Nadar ele não sabia, voar tampouco, e o rio era tão largo e fundo. A única coisa que o pobre Escorpião podia fazer era ficar à margem do rio e da vida e esperar que alguém o transportasse. Sim, esperar era preciso. Então, dias e dias seguidos, o jovem Escorpião esperava a gentileza e a confiança de alguém. E não era fácil.
Certa vez, enquanto o Escorpião sonhava com o movimento da outra margem, apareceu-lhe uma grande Anta, animal portentoso e inteligente, e que ia em direcção à outra margem. Não pensando duas vezes, o Escorpião pediu-lhe que o ajudasse na travessia. "Ajudar-te? E porquê o faria, tu que envenenas a vida com teu desespero, nem pensar!" Esta foi a precisa e curta resposta da Anta, que prosseguiu como uma canoa indígena em direcção ao outro lado. O Escorpião entristeceu-se, e a noite chegou.
No dia seguinte, depois de uma noite de pesadelos, voltou o Escorpião à margem das margens, que não era a margem de nenhum espelho e tampouco era a margem de um texto; não, esta era a margem substantiva, aquela que aponta, pela sua quase ausência, a existência da outra margem; como as margens de um grande oceano ou as margens dos pólos ou a margem das margens: a margem do Sahel, terra dos escorpiões ancestrais. O Escorpião sonhava acordado, novamente, quando subtamente pousou próximo a ele um exuberante pássaro colorido:a Arara Vermelha - que não é um pássaro, mas uma explosão de vida. " Arara, tu me ajudas a atravessar o rio para a outra margem? " disse-lhe a ela, com a voz dos cegos que esmolam nas estações do metro de todas as cidades. " Levar-te a ti, tu que minas e destróis os sentimentos mais sublimes! Nunca " E voou, sozinha, para céu azul - e aquela vermelhidão voante, aquele desespero em forma de fogo, aquelas asas labaredas cortaram o céu azul em fúria: era a Arara que se ia para a outra margem, deixando o escorpião em total derrelicção, como ficam os aleijados e os despossuídos quando lhes negamos o desejo.
No terceiro dia desta história, depois de já ter desistido de tudo: da cidade e dos seus habitantes, da música e dos mercados, das intrigas e dos amores, estava o Escorpião pensativo, e pensava sobre a injustiça, quando repentinamente surgiu, no seu lento e sapiente passo, a Tartaruga, muito parecida com uma daquelas tartarugas das histórias de Quiroga. " Ora, bom dia para ti Tartaruga! ", disse-lhe com a voz dos desistentes. " Bom dia, Escorpião " retribuiu-lhe a Tartaruga. " O que fazes aqui sozinho, nesta margem da vida? " E a partir dalí conversaram muito, e trocaram ideias e impressões. A Tartaruga era mesmo uma amiga; e confiava no Escorpião. Não foi difícil para ela oferecer ao Escorpião a travessia tão sonhada. E assim o fez, e o Escorpião regozijou-se. E estavam os dois, em pleno rio oceano sob um céu que de tão azul espelhava o rio e era-lhe a outra margem, quando, no pleno de tudo, a Tartaruga sentiu a aguilhoada fatal, cravada no pescoço, e ao virar-se para trás ainda chegou a ver o olhar misto de desespero e glória do Escorpião: " mas porquê fizeste isso, Escorpião, se sabes que vamos morrer os dois afogados". "O Porquê de fazê-lo não sei, somente sei que deveria, esta é a minha natureza, Tartaruga". E foram os dois ao fundo, a Tartaruga enquanto morria sabia que que assim deveria sê-lo, porque a sua natureza jamais lhe permitiria não ajudar alguém, e mesmo afogada pelas águas azuis do grande rio, ela soube no seu último instante de consciência, que jamais foi corrompida e que a morte ali não significava nada. E o Escorpião, sabedor e conhecedor de sua índole, sabia também que morria ali, afogado naquele azul de desespero, todos os seus sonhos: não veria ele, jamais, a cidade e os seus habitantes, não conheceria a miséria que cercava a riqueza, não veria os mercados e nem ouviria a sua música: o Escorpião morria porque era escorpião, e eis aqui toda a glória e êxtase de se saber o que se é.
Mas claro, esta não é uma história do bem e do mal, é somente uma história, uma pequena fantasia deste nosso grande engano de pensar que sabemos o que é a vida.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 12:31
Comentários:
Terça-feira, Novembro 16, 2004
O pensamento lâmina
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:38
Comentários:
O violino quase-lâmina
Escrito por OSCAR MOURAVE às 15:35
Comentários:
Quarta-feira, Novembro 10, 2004
A propósito das raízes, Manuel, tu me dizias outro dia o seguinte: "Eu tenho raízes, profundas como as de uma árvore, nunca sairei daqui, sempre volto, gosto de voltar, acho que vou morrer aqui". Sinceramente não sei o que querias dizer naquela altura, porque o meu intelecto e discernimento andam um pouco turbado pelos recentes acontecimentos em minha vida. Mas posso imaginar a função de uma raíz como a de atribuir segurança, estabilidade, fixidez e garantir à árvore o alimento que lhe é necessário. Uma raíz é assim mesmo. Mas não haverá raízes voadoras ou aquáticas? Plantas que sobem nas outras, plantas que navegam pelos rios e vão povoar outras margens, para depois abandoná-las e seguirem adiante na sua fecunda tarefa de levar a vida aonde não havia vida. Estas plantas também têm raízes, e andam e movem-se.
Sei que divago e pareço fugir ao assunto que eu mesmo propus, mas queria mesmo era falar de uma experiência que me aconteceu já há algum tempo em São Paulo, numa de suas Bienais. Eu visitava uma sala onde havia um trabalho de Mira Schendel (uma artista que nasceu em Zurique mas que viveu muitos anos no Brasil) e não me lembro muito bem o título, acho que era algo como "Os cânticos de Salomão": e, Manuel, estava lá do tecto pendente, as raízes voadoras em forma de cabelos, como uma grande cascata de cabelos, filamentos e filamentos, macios, acolhedores e sensuais. Eram as minhas raízes voadoras que fui reencontrá-las contigo quando me falavas das tuas. Tu fixas-as na terra eu ponho as minhas no céu, e deixo que o vento se encarregue de transportá-las para onde são necessárias. As tuas raízes precisam da escuridão e do silêncio, as minhas adaptam-se a qualquer lado, e posso aprender a delicada solenidade do silêncio. É novo sim, esse mundo que trilho agora - e não estou sozinho nele.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 14:27
Comentários:
Terça-feira, Novembro 09, 2004
Eu nada sabia de ressurreição
porque cedo me acostumei à morte
e às suas consequências:
a falta do beijo nocturno,
a louça esquecida para lavar
e de alguém que me dissesse bom dia.
É uma palavra religiosa, dizem,
porque narra a volta de alguém
que triunfou sobre a morte.
Que ideia bonita, voltar:
para a casa,
para a vida
e para o amor.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 18:23
Comentários:
Segunda-feira, Novembro 08, 2004
Manuel, há um poeta que viveu num outro hemisfério da tua mesma língua que se chama João Cabral de Mello Neto. Certa vez ele escreveu que "Quadro nenhum está acabado, / Disse certo pintor; / Se pode sem fim continuá-lo, / Primeiro, ao além de outro quadro / Que, feito a partir de tal forma, / Tem na tela, oculta, uma porta / Que dá a um corredor / Que leva a outra e a muitas outras". Já algum tempo que não tenho pensado neste poema, que marcou um período importante na minha vida. Nos ultimos dias, porque venho vibrando como um sino que bate à desoras, o poema reapareceu-me. Eu procurava em casa uma janela para ti; alguma marca que identificasse o lugar onde te encontras, poderia ser um postal perdido na gaveta, um bilhete qualquer escrito no guardanapo de um bar estrangeiro ou mesmo o tíquete de um eléctrico, ou ainda uma entrada de teatro.
Eu procurei tanto na bagunça que é actualmente o meu quarto - esse meu reino de um homem só - e nada achei. Mas, como uma daquelas personagens da Clarice Lispector que encontram no exacto momento de desistem da procura, eu achei um calendário velho onde trazia a fotografia de um quadro de Van Gogh: era ele, a janela que me conduzia para ti. Olhei o quadro e automaticamente me lembrei do poema. O quadro e o poema se encontraram em ti. Eu ando com a inteligência aguçada, e a minha consciência indica que uma força maior do que eu me mobiliza em direcção à reflexão poética. Há muitos nomes para esta força, alguns chamar-lhe-ão de pulsão pela vida, outros de paixão mesmo. Eu prefiro chamá-la de força - mas também poderia chamá-la de electricidade, de corrente marinha ou de revoada de pássaros.
Quadro nenhum está verdadeiramente pintado. Van Gogh assim como nenhum pintor da história da humanidade chegou a concluir um quadro, porque ele se completa em nós, naqueles que o vêem. E é um completar contínuo e diferente, em nós e nos outros, sempre. Antes, quando eu olhava esse quadro de girassóis, eu o completava com as minhas inquietações da juventude. Hoje quando eu o olho, só vejo a sua completude quando o associo a ti. Porque se assim não fosse, essa fotografia de quadro era somente aquilo que ela verdadeiramente é, um calendário que foi esquecido em algum sótão da memória.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 09:32
Comentários:
Sexta-feira, Novembro 05, 2004
Para o outro lado da margem, depois que o sol se pôr, eles estarão vendo a "Aurora dos dedos rosados" sabias? Eu sei que sou prisioneiro das imagens alheias, e as tomo de empréstimo para falar dos meus sentimentos. Ainda ontem eu te dizia que quando andava pelas Tulherias em Paris tive uma sensação agradável, daquela que sentimos no final do Outono, e foi mesmo assim, quando caíam as folhas. E ao sentir aquele desprendimento das coisas mundo, surpreendi-me pensando que os sentimentos não eram meus mas de Gide, e fiquei triste porque sei que racionalizo tudo, e reduzo o mundo à uma equação simples. Eu tenho que desaprender muito, e retornar à essencia das coisas: que a pedra seja uma ursa e não somente uma pedra, que a noite da floresta seja o capítulo de uma história, e que o coração seja mais do que um músculo.
Escrito por OSCAR MOURAVE às 11:46
Comentários:
Quinta-feira, Novembro 04, 2004
O recomeço da viagem: é o recomeço de todas as viagens. Assim ouviu Jonas de um de seus companheiros, naquela tarde onde o vento e a chuva permitiram que tal encontro acontecesse. "Tu, viajante, deves perceber que o passado tem e merece o seu lugar". Para ti, Jonas, estas palavras passaram a reverberar em tua cabeça como os sinos que anunciam a passagem das horas. Será que cantarás, ainda, uma outra canção? Tu não sabes nada, a não ser que tens medo: medo de florestas escuras, do silêncio absoluto e da falta do diálogo: por isso a tua condenação é ter coragem. E neste mundo vertiginoso das trocas económicas, do império do mercado, tu não tens nada a oferecer - a não ser, talvez, o teu coração usado.
|
|